Porto Velho (RO) domingo, 26 de maio de 2019
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Gente de Opinião

Intereclesial

Artigo: Mensagem às CEBs, presença do Reino entre os Pobres!


 

José Comblin *

Adital  
 
Aos amigos e amigas do Intereclesial de Porto Velho

Gostaria muito de estar presente no meio de vocês. Os meus 86 anos já não me permitem fazer essa viagem. Mas quero enviar-lhes uma mensagem de solidariedade e de estímulo. Dou os parabéns a todos os presentes que fizeram essa longa viagem.

O Intereclesial reúne-se na região Norte do Brasil, donde nos vêm hoje em dia os mais fortes testemunhos proféticos. É também a região em que a evangelização exige mais energia e provoca mais cansaço. Mas é, por isso mesmo, aquela que mais suscita alegria e entusiasmo.

As CEBs são aquela porção do povo de Deus que nasceu entre os pobres. Elas são "povo" porque nelas os cristãos não colaboram simplesmente com a pastoral paroquial definida por outros, mas eles mesmos, leigos do mundo popular, tomam iniciativas, orientam as atividades comunitárias, sempre em comunhão com a grande Igreja, mas com a liberdade que s. Paulo reconhecia às comunidades fundadas por ele.

As CEBs acabam de ser de novo aprovadas e estimuladas pela Conferência episcopal de Aparecida. Este reconhecimento será o sinal de uma vida renovada. As CEBs já têm uma trajetória impressionante, às vezes heróica, porque muitos membros das CEBs foram mártires. Foram testemunhas da dignidade dos pobres frente a autoridades arrogantes. Defenderam camponeses e operários injustamente tratados. Buscaram a justiça na paz como profetas da não-violência. Esse passado nos mostra o caminho do futuro e nos convence de que as CEBs seguem o caminho de Jesus.

As CEBs foram desde as origens a principal presença da Igreja no mundo popular. Ora, com a imensa migração do campo para as cidades, o mundo popular hoje em dia é principalmente urbano e a presença da Igreja nessas imensas periferias urbanas e nas favelas ou cortiços é o grande desafio para os cristãos e cristãs de boa vontade. Essas massas foram entregues a inúmeras congregações evangélicas. Estas, como disse dom José Maria Pires, fazem o trabalho que não fazemos e por isso podemos agradecer a Deus pelo trabalho que fazem anunciando Jesus. Mas nós também poderíamos e deveríamos fazer esse trabalho neste novo mundo dos pobres que se criou nestas últimas décadas. Isto exige uma enorme multiplicação de CEBs no mundo urbano. Tenho certeza de que deste Intereclesial sairá a firme decisão de entrar com muito mais força nesse mundo popular urbano.

Os pobres não freqüentam muito as paróquias que não lhes oferecem um ambiente realmente popular. Querem comunidades de pobres, em que tenham a alegria de poder dizer que essa comunidade é nossa. Assim são as CEBs. Estas são a melhor forma de participação dos obres inventada até agora. Pois ali os cristãos do mundo popular não colaboram simplesmente com uma pastoral paroquial definida por outros, mas tomam iniciativas e orientam as atividades comunitárias entre eles mesmos, sempre em comunhão com a grande Igreja. Gozam da mesma liberdade que s. Paulo reconhecia as comunidades fundadas por ele.

As CEBs põem em prática a orientação dada pela Conferência de Aparecida: passar de uma pastoral de conservação para uma pastoral de evangelização. Trata-se de passar uma Igreja tradicionalista fechada em si mesma para uma Igreja aberta ao mundo exterior e fecunda porque suscita muitas comunidades.

As CEBs encarnaram a mensagem de Vaticano II, porque são uma força de transformação do mundo em que estão vivendo. Relacionam-se com todos e colaboram com todos os grupos situados na mesma vizinhança.

Já ouvi pessoas que diziam: as CEBs já foram, pertencem ao passado. Vocês vão mostrar que ainda pertencem ao presente e inclusive ao futuro. Não se inventou outra maneira de tornar a Igreja presente no mundo popular.

As CEBs sofreram críticas e contestações. De modo geral as críticas vêm de pessoas que não as conhecem. Foi o que aconteceu com dom Oscar Romero que não as queria. Quando ele as conheceu na diocese de San Salvador, converteu-se e confiou totalmente nelas. Além disso, qualquer movimento de Igreja no mundo popular suscita críticas e reações às vezes violentas. Isto é parte do destino dos cristãos e já foi anunciado pelo próprio Jesus Cristo. As críticas procedem do desconhecimento.

Quero pedir para vocês uma bênção especial de mons. Expedito Medeiros, falecido há poucos anos, que foi um dos primeiros promotores das CEBs, talvez o primeiro, como vigário de São Paulo de Potengi no Rio Grande do Norte, durante 53 anos. Foi um grande amigo e um homem totalmente dedicado ao apoio as inúmeras comunidades promovidas por ele. Foi um Santo.

Que Jesus missionário esteja sempre com vocês com toda a força do Espírito Santo para a construção do Reino do nosso Pai.
 
Padre José Comblin


* Teólogo

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