Porto Velho (RO) sexta-feira, 15 de novembro de 2019
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Gente de Opinião

História

JAN VOTAVA: UM IMIGRANTE EM COSTA MARQUES QUE CONHECEU ADOLF HITLER


 

Sílvio M. Nascimento*
 

Quem visitou a prefeitura de Costa Marques durante os anos 90, de repente, deve ter encontrado em meio aos corredores ou no pátio entremeado de máquinas e carros sucateados, um branquelo alto, olhos verdes e trejeito facial comum ao povo eslavo. Andava sempre com uma pequena caixa de ferramentas na mão, consertando motores ou verificando instalações elétricas. Este homem conheceu de perto Adolf Hitler.JAN VOTAVA: UM IMIGRANTE EM COSTA MARQUES QUE CONHECEU ADOLF HITLER - Gente de Opinião

Seu nome de batismo era Jan Votava, contudo, na cidade fronteiriça ele era conhecido pela alcunha de “Tcheco”. Durante as prosas que tivemos, contou-me ter nascido na antiga Tchecoslováquia, país que viria a ser anexado pela Alemanha nazista em 1939 e desmembrado após a queda do muro de Berlim em 1989. Sempre foi um costamarquense de coração e adoção. Era um sujeito calmo, sem preconceitos, andar faceiro e voltado a bebericar um cafezinho, o que prenunciava o consumo de mais um cigarro Hilton, o seu preferido já que o fumo era sua grande paixão.

Poliglota (dominava seis idiomas) e de inteligência rara, o Tcheco era um cidadão simples que ganhava a vida com um modesto salário de servidor do Estado, além de fazer bicos rotineiros como eletricista ou mecânico, profissões que dominava com destreza impar. Se após se estabelecer no Brasil voltou a ter contato com seus compatriotas e familiares, desconhece-se, tamanha a sua discrição.

Segundo sua companheira, Jan Votava recebia a visita de um amigo de Vila Velha, provavelmente descendente de europeu, mas o idioma falado nas conversas era o alemão, por isso ela nada entendia. O relevante do seu passado é o fato de ter sido obrigado a servir como soldado do exército nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Permaneceu anônimo para a história porque falava pouco sobre essa fase da vida.

Conviveu nos escaninhos funestos dos campos de concentração.  Contou-me certa vez que estava em formação militar quando Adolfo Hitler passou em revista às tropas do exército nazista. Dizia que em tamanho e estrutura corporal, o líder nazista era “uma porqueirinha”, uma insignificância de gente. É sobre essa etapa deveras importante da vida que Tcheco se negava a contar, mesmo com a minha insistente alegação sobre o valor do seu testemunho como legado para os mais jovens.  

Sabe-se apenas que após a derrota da Alemanha no conflito, ele fugiu para a Espanha e passou por países da América do Sul. Conseguiu entrar no Brasil e depois de breve estada em São Paulo, viajou para a região norte, estabelecendo-se em Costa Marques, onde ganhava o pão consertando motores. Numa de suas tiradas populares contadas por morador antigo, relata-se que o Tcheco empreitou o conserto do jipe da polícia para consertar e saiu com o veículo para farrear à noite, mas capotou o veículo.

Após a ameaça de ser preso pelo delegado da localidade em razão do incidente, sua autodefesa foi taxativa: se o prendesse não consertaria mais o jipe, haja vista que era o único mecânico da região. Assim, conseguiu a absolvição da autoridade. Era capaz de fabricar ou adaptar quaisquer motores, inclusive, o que movimentava sua bicicleta pelas ruas da cidade.

Foram anos de convivência agradável com o Tcheco quando da minha passagem por Costa Marques, onde morava e lecionava numa escola da rede estadual. O fumante inveterado, com o passar dos anos, foi acometido de enfisema pulmonar, doença que o levaria a morte nos anos 2000. Sua situação se agravou em razão da demissão do quadro de efetivos pelo ex-governador José Bianco, o que lhe impossibilitou a manutenção de fundos financeiros para custear o tratamento medicamentoso contra a doença.

Enfim, Tcheco poderia ter deixado um relato inédito para a história e às futuras gerações por ter vivenciado in loco os horrores da Segunda Guerra Mundial. Provavelmente, teve suas razões para levar toda essa gesta de vida e sabedoria que administrava com simplicidade, para as profundezas do túmulo.

*O autor é historiador formado pela UFRN e Mestre em educação pela Unir. E-mail: silviomellon@hotmail.com

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