Porto Velho (RO) terça-feira, 28 de janeiro de 2020
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Entrevista

Ex-senador Nabor Júnior diz que eleição no Acre virou um negocio


  
Quarenta anos de mandatos parlamentares como deputado estadual, deputado federal, governador, senador, o ex-senador Nabor Junior (PMDB) é uma espécie de mito dentro da oposição acreana. Disputou eleições pelo então MDB em pleno regime ditatorial e foi o primeiro governador acreano eleito pelo voto popular após a abertura política, tendo em sua chapa uma mulher como vice, a advogada Yolanda Fleming, vencendo a disputa contra o candidato dos militares, o ex-senador Jorge Kalume. Nabor saiu da vida política limpo, sem uma nódoa ao longo da sua militância, uma figura ética respeitada, e que serve de exemplo de como se fazer política com dignidade. Aposentado, afastado da vida pública, mora hoje em Brasília. Desde que saiu da política que não dá uma entrevista. O ac24horas conseguiu entrevistá-lo com exclusividade, tirando-o do mutismo. Numa conversa agradável, com uma lucidez impressionante, Nabor Junior fala neste espaço sobre o declínio das oposições no Acre, o papel exercido pelo PMDB, compra de votos, o surgimento de novas lideranças, as próximas eleições no Estado para o Governo e Senado Federal, entre outros temas.

 

Ac24horas - O senhor é tido como uma das legendas da oposição no Acre. Hoje, a oposição está carente de uma grande liderança para a retomada do poder, existe a possibilidade de uma volta como candidato em 2010?.
Nabor Junior
- Esta é uma hipótese descartada. Meu tempo de fazer política passou, isso fica agora para os mais novos. E ademais, fazer política hoje no Acre ficou muito caro, virou um negócio em que um sujeito gasta 2 ou 3 milhões de reais para ter um mandato de deputado. Existe alguma ou outra exceção. Para se eleger no Acre hoje tem que ter dinheiro. E eu nunca fui uma pessoa de posses. Eu perdi minha última eleição para o Senado da República pela absoluta falta de condições financeiras para fazer frente ao rolo compressor de outras candidaturas, montadas em estruturas milionárias. Eu sou do tempo que se ganhava eleição sem dinheiro, na base da liderança pessoal e de propostas. Por isso hoje só acompanho a política pela internet.

Ac24horas - Como era a eleição no período em que o senhor disputou seus mandatos?
Nabor Junior
- Era bem diferente do atual. Tinha os gastos naturais de comícios e deslocamentos, mas não tinha a compra de votos aberta como acontece hoje nas eleições no Acre. Qualquer candidato a cargo majoritário no meu tempo tinha antes de tudo que ser líder, ganhar o eleitor no convencimento, com propostas, não havia essa história de marqueteiro. Na atualidade quem é candidato ao Senado ou ao Governo tem que contratar uma equipe de marketing a peso de ouro. Qualquer um que chegar no Acre agora, mesmo sendo um desconhecido, gastando 3 milhões de reais pode tranquilamente se eleger deputado federal.  E um cidadão que gasta esta quantia tem propósitos desonestos, porque os salários do seu mandato não vão chegar a um 1/3 do que gastou. A não ser que queira este mandato para fazer negociatas. Só assim isso pode se justificar.
 
Ac24horas - Como é que começou no Acre este esquema de se eleger comprando votos?
Nabor Junior
- Com a chegada de pessoas descompromissadas com a política limpa. Quem lançou este embrião foi o então ministro de Comunicação do presidente Figueiredo, Said Farhat, que chegou para ser candidato ao Senado pelo Acre com um forte esquema financeiro e por pouco não se elegeu. O Zamir Texeira por bem pouco não me derrotou na convenção do PMDB que escolheu os candidatos ao Senado da República. E depois disso virou prática comum a eleição na base da compra de votos, distribuição de sacolões e outras formas de enganar o eleitor. Eu sofri isso quando perdi minha última eleição. Com todo meu passado de lutas na defesa do Acre fui derrotado pelo poderoso esquema econômico dos outros candidatos. Por isso, quando alguém vem me convidar para ser candidato novamente eu descarto logo. Não tenho dinheiro, e se tivesse não compraria votos. 

Ac24horas - A oposição já dominou o cenário político acreano, qual foi o motivo de eleição após eleição vir sofrendo derrotas em todos os campos para a FPA?
Nabor Junior
– Hoje, eu posso afirmar que uma das causas foi a falta de renovação dos quadros partidários. Suas principais lideranças ou morreram ou envelheceram e saíram da política. Antes a oposição tinha referências como Geraldo Fleming, Ruy Lino, Raimundo Melo, Mario Maia, Edson Cadaxo, Francisco Thaumaturgo e outros, e hoje na oposição, fora o Flaviano não tem mais. A oposição não se renovou, não surgiram novos nomes para nos substituir. E foi no vácuo da falta de novas lideranças que o PT chegou ao poder. Os partidos de oposição no Acre perderam o vínculo com o eleitorado, principalmente entre os mais jovens, ao contrário do PT, que sempre se renova, e conquistou este espaço.

Ac24horas - O senhor considera difícil então a oposição voltar ao governo em 2010?
Nabor Junior
- Estou afastado há muito tempo do Acre, mas pelas notícias que me chegam não vejo muita possibilidade de vitória porque falta um nome capaz de unir todos os partidos. A oposição no Acre chegou a eleger 14 deputados estaduais de um total de 24. Hoje, não conseguimos mais este número. A oposição não se organizou. Não se renovou. E aí fica difícil vencer. Vamos continuar com este ciclo de derrotas até que o PT no Acre entre em declínio, como o PMDB entrou, e consigamos alguém que desperte o eleitorado. O problema é que o PT é organizado e sempre trabalha para o surgimento de novas lideranças, ao contrário da oposição.

Ac24horas - Na sua avaliação a oposição deveria lançar um ou mais candidatos ao governo?
Nabor Junior
- Um único nome. Igualmente para o Senado. A unidade é importante. O problema é que, volto repetir, não existe ninguém atualmente que possa unir todos os partidos. É hora de buscar alguém novo para disputar o governo, mesmo que não vença a primeira eleição. Quando o Jorge Viana foi lançado perdeu a primeira disputa, depois ganhou, e acabou se transformando em uma de nossas novas lideranças. A oposição tem que buscar este caminho. 

Ac24horas - O senhor vê alguma chance de se repetir no Acre a aliança entre PMDB e PT?
Nabor Junior
- Não vejo ser isso possível porque no Acre existe muito antagonismo entre o PT e o PMDB. No plano nacional acho possível a aliança do PMDB com o PT para apoiar a candidata do Lula [Dilma Roussefe]. No Acre, a aliança não deve ocorrer.

Ac24horas - O senhor considera como certa a vitória do Serra para presidente?
Nabor Junior
- Hoje é favorito, mas as últimas pesquisas já apontaram um crescimento da candidatura da Dilma. Existe anda muito tempo até a eleição e a tendência é que ela consiga crescer e pode até acabar por surpreender e derrotar o José Serra. Em política tudo é possível

Fonte: Ac24horas / Luis Carlos Moreira Jorge/Rio Branco-AC
 

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