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Carta à comunidade acadêmica da UNIR e à sociedade rondoniense


Carta à comunidade acadêmica da UNIR e à sociedade rondoniense - Gente de Opinião

Pois em silêncio guardei minha angústia pelos ataques desferidos contra mim nas redes sociais por conta de um discurso proferido no Auditório Paulo Freire da UNIR no dia 28 de maio, em um ato em defesa da educação pública. Naquele mês, as Universidades e Institutos Federais eram injustamente acusados de somente promover balburdias, o que justificava o corte de orçamento destas Instituições.

Durante o mês de maio as redes sociais divulgaram mensagens, fotos e vídeos que pareciam corroborar com a acusação de que em vez de estudar, pesquisar e produzir, professores e alunos entretinham-se em “festas de pelados” e “consumo de maconha”. A acreditar naquelas postagens estávamos mais próximos das bacanais romanas do que de um campus universitário, onde se pensa, se produz e se formam as futuras gerações de profissionais.

Ainda em maio, compareci a sessões promovidas pela Câmara de Vereadores de Porto Velho e pela Comissão de Educação da Assembleia Legislativa pronunciando discursos em defesa da UNIR e da educação pública, gratuita, inclusiva e de qualidade. Salientei que em cada unidade de saúde que o cidadão rondoniense procure vai encontrar um profissional formado pela UNIR, da mesma forma que em cada escola, ou cada órgão de governo municipal, estadual ou federal. Alertei que cem por cento das pesquisas realizadas sobre o mundo natural ou social de Rondônia são produzidas pelas Instituições públicas: UNIR, IFRO, EMBRAPA e FIOCRUZ. Qualquer pesquisador do mundo, em qualquer área do conhecimento que queira estudar a sociodiversidade ou a biodiversidade do nosso Estado tem que começar lendo nossas dissertações, teses e artigos científicos.

Estas Instituições são patrimônio do povo rondoniense e brasileiro. Para nós, que dedicamos a vida a construir a UNIR e receber os jovens para transformá-los em adultos cidadãos e profissionais a educação é sagrada. Retire-se a educação da vida dos jovens, enxovalhe-se as Instituições públicas, mantenha-se o povo na ignorância e regrediremos à barbárie. Em que a força dos argumentos será substituída pelo argumento da força.

Meu discurso no dia 28 de maio no Auditório Paulo Freire foi organizado em torno da sátira, quase uma paródia, contra a insanidade das redes sociais. Uma defesa do Iluminismo, um libelo contra a Idade das Trevas.

Reconheci que as Universidades têm que se comunicar muito melhor com a sociedade que nos sustenta, explicando quem somos e o que fazemos, admitindo, porém, que pouco temos a fazer contra aqueles que nos atacam dentro dos muros, a quem denominei de “cachorros de Troia”. Repudiei, com base na experiência de vida de trinta e quatro anos na UNIR, as acusações de existir “festas de pelados” no campus, sugerindo jocosamente um convite. Menosprezei o foco das redes sociais em apontar o dedo para o consumo de maconha nos campi do mundo como uma indicação da decadência universitária. Contei uma reminiscência de quarenta anos, quando era aluno de graduação, de um colega que usava as páginas da Bíblia para enrolar um baseado.

E concluí com uma exclamação: Meus Deus, quanta bobagem!

Sem chance. Aquele discurso submetido à insanidade das redes sociais, retirado do contexto, selecionado e editado em conformidade com as conveniências políticas e pessoais dos acusadores, tornou-se um anátema, uma blasfêmia. Ao distorcer minhas palavras, os meus adversários pretendem que as pessoas acreditem no que não foi dito.

Recebi no e-mail da reitoria uma lúcida advertência de um pastor, que mantenho no anonimato. É a ele e aos cristãos que me dirijo. Nunca, jamais, desonraria o Livro Sagrado, pois é nele que busco a iluminação quando as trevas me ameaçam. Aqueles que conhecem certamente reconheceram na primeira frase deste texto a Oração de Habacuque: “pois, em silêncio, devo esperar o dia da angústia que virá contra o povo que nos acomete”.

O discurso odioso das redes sociais, a insanidade da replicação de mensagens sem conhecimento das circunstâncias e do conteúdo, a destruição dos adversários a qualquer preço são incompatíveis com a cultura da paz, com a civilização, com o Cristianismo.

Concluo, por oportuno, a coincidência entre o ensinamento de Mahatma Gandhi, de que ao final o amor e a verdade vão prevalecer, e a advertência de Pedro de que devemos amar uns aos outros, porque o amor perdoa muitíssimos pecados.

Porto Velho, 01 de agosto de 2019.

Professor Ari Miguel Teixeira Ott


Fonte: UNIR

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