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Economia - Nacional

Crise internacional pode reduzir investimentos diretos e tornar Brasil mais vulnerável



Wellton Máximo
Agência Brasil


Brasília – O aprofundamento da crise financeira internacional pode tornar o Brasil mais vulnerável às turbulências globais por meio de um mecanismo que fundamentalmente tem servido como fonte de compensação para os rombos nas contas externas: os investimentos estrangeiros diretos. A avaliação é de economistas ouvidos pela Agência Brasil.

Os especialistas acreditam que o agravamento da crise nas nações desenvolvidas provocará uma queda no fluxo de investimentos diretos que entram no país. A diferença entre as avaliações está na intensidade do fenômeno e nos possíveis efeitos da redução desse tipo de recurso sobre a economia brasileira.

Os investimentos estrangeiros diretos são os recursos que entram no país para criar empregos e expandir ou modernizar a capacidade produtiva, como a construção de fábricas e a compra de equipamentos. As dificuldades nos países avançados podem fazer as matrizes de empresas multinacionais adiarem ou cancelarem investimentos nas filiais em outros países.

A economista sênior do banco RBS para a América Latina, Zeina Latif, acredita que a retração dos investimentos diretos deverá ser transitória por causa do aquecimento das economias emergentes, que pode manter o interesse das empresas estrangeiras no Brasil. “Um pouco depois de a Grécia fechar o pacote de ajuda internacional, houve um impacto nos investimentos diretos, mas a desaceleração durou pouco tempo”, diz.

Com o rebaixamento da nota da dívida pública norte-americana e a ameaça de que a crise fiscal na Europa atinja as grandes economias do continente, Zeina acredita que os investimentos estrangeiros diretos se retrairão nos próximos meses. “Pode ser que ocorra uma acomodação, mas o problema é mundial, nada específico do Brasil”, avalia.

O professor de economia internacional André Nassif, da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Fundação Getulio Vargas (FGV), é menos otimista. Para ele, é falsa a impressão de que o país está mais preparado para enfrentar uma nova crise global do que em 2008, como declararam na última semana o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini.

Segundo o professor, o país está mais sujeito às turbulências internacionais por causa do rombo das contas externas, que aumentou consideravelmente nos últimos anos. “Em 2008, o Brasil tinha superávit em transações correntes [contas externas]. Em 2011, o país fechou o primeiro semestre com déficit de US$ 25 bilhões e o Banco Central projeta que o rombo vá fechar o ano em US$ 60 bilhões”, observa.

Para financiar o rombo nas contas externas e impedir que as reservas internacionais, atualmente em torno de US$ 350 bilhões, sejam consumidas e o dólar dispare, o país conta com os investimentos no mercado financeiro, de caráter especulativo, e os investimentos diretos, que estimulam a produção. O problema, alega o professor, consiste no fato de que as estatísticas do Banco Central incluem, entre os investimentos diretos, empréstimos entre matrizes e filiais de empresas que podem ser aplicados no mercado financeiro.

“Em caso de deterioração no cenário internacional, esses empréstimos intercompanhia [nome dado às operações entre matrizes e filiais] podem fugir do país e uma das principais fontes de financiamento das contas externas pode secar”, adverte.

Nos seis primeiros meses do ano, os investimentos diretos líquidos bateram recorde e somaram US$ 42,7 bilhões, segundo o Banco Central. Esse valor representa a diferença entre o que as empresas estrangeiras investem no Brasil e o que as companhias brasileiras investem no exterior. Desse total, o ingresso de recursos por meio de empréstimos intercompanhia soma US$ 23,8 bilhões, dos quais US$ 17,1 bilhões vêm de filiais de multinacionais brasileiras que devolvem dinheiro para a matriz no país. Esse valor tinha sido US$ 15,2 bilhões em todo o ano passado e é cinco vezes maior que os US$ 3,2 bilhões registrados no primeiro semestre de 2010. “É difícil acreditar que pelo menos parte desse dinheiro não esteja sendo usada para especulação”, ressalta Nassif.

 

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