Porto Velho (RO) segunda-feira, 20 de janeiro de 2020
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Cultura

Os primeiros romances brasileiros


Guido Bilharinho

Além do prazer da leitura, que é o fundamental, o conhecimento do romance de um país ou mesmo de determinada tendência, pressupõe, preferentemente, quando não basicamente, leitura orientada pelo critério cronológico.

Essa prática permite o acompanhamento da evolução nacional do gênero ou da tendência, ao se detectar disparidades, conquistas, retrocessos, influências de umas obras sobre outras, facilitando, ainda, a comparação entre elas e a constatação, mais nítida, de diferenças qualitativas, temáticas e estilísticas.

Da leitura cronológica ou sequencial resulta, pois, visão sistêmica e abrangente, incomparavelmente mais eficaz da que decorre do conhecimento acronológico e anárquico, sempre aleatório e fragmentário, por isso quase sempre imperfeito e insuficiente.

A ficção brasileira, como a própria estruturação do país, é fenômeno recente, surgido, de fato, somente na década de 20 do século XIX, com a novela Statira, [sic] e Zoroastes (1826), de Lucas José de Alvarenga, desencadeando-se, daí para frente, já na década seguinte, com Uma Paixão de Artista (1838), O Aniversário de D. Miguel em 1828 (1839), Jerônimo Corte Real (1839) e Religião, Amor e Pátria (1839), todos de J. M. Pereira da Silva, e Os Assassínios Misteriosos ou A Paixão dos Diamantes (1839), de Justiniano José da Rocha. Anteriores, portanto, aos romances de Varnhagen (notabilizado como historiador), Joaquim Norberto, Teixeira e Sousa e Joaquim Manuel de Macedo, que estreiam, respectivamente, em 1840, 41, 43 e 44, e indicados por alguns como os iniciadores do gênero no país.

Isso, se não se considerar, como pretendem outros, antecedentes isolados, como A História do Predestinado Peregrino e de Seu Irmão Precito (1682), de Alexandre de Gusmão, o Compêndio Narrativo do Peregrino da América (1728), de Nuno Marques Pereira, ou se se abstrair a obra europeia e europeizante, Aventuras de Diófanes - editada sob pseudônimo, em Portugal, em 1752 - de autoria da brasileira Teresa Margarida da Silva e Orta, irmã de Matias Aires, famoso autor das Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens, também publicado no mencionado ano. De todos eles, o livro de Teresa Margarida é o que possui maior número de defensores como precursor do romance brasileiro, tendo, até 1818, nada menos de quatro ou cinco edições (havendo divergência quanto a esse número), caindo daí em diante em completo esquecimento, somente sendo reeditado mais de um século depois, em 1945, pelo Instituto Nacional do Livro, com prefácio e estudo bibliográfico de Rui Bloem. Antes disso, porém, são publicados a seu respeito pelo menos quatro artigos e ensaios, por Ernesto Enes (Jornal do Comércio, Rio, junho 1938, e Revista do Instituto Histórico e Geográfico de S. Paulo, dezembro 1938), Rui Bloem (Revista do Arquivo Municipal, S. Paulo, outubro 1938), e Tristão de Ataíde, em 1941, artigo posteriormente reproduzido em O Romance Brasileiro (de 1752 a 1930), obra coletiva coordenada por Aurélio Buarque de Holanda (Rio de Janeiro, edições O Cruzeiro, 1952). Sobre o assunto existem, ainda, ao que se sabe, o ensaio do mesmo Aurélio na obra citada e o de Heron de Alencar em A Literatura no Brasil, vol. I, tomo 2, dirigida por Afrânio Coutinho (Rio de Janeiro, editorial Sul Americana, 1955).

No desenvolvimento do romance nacional, livros de variado matiz, conquanto frágeis, proliferaram, pontilhados ou alternados, aqui e ali, por algumas obras-primas, a exemplo de Memórias de Um Sargento de Milícias (1854/1855), de Manuel Antônio de Almeida, de cunho picaresco; O Ateneu (1888), de Raul Pompeia, sensível exemplo da ficção impressionista; O Cortiço (1890), de Aluísio Azevedo, vigoroso paradigma da tendência realista-naturalista; Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891) e D. Casmurro (1900), de Machado de Assis, modelos maiores do realismo-psicológico; Triste Fim de Policarpo Quaresma (1916), obra-prima, de talhe moderno, de Lima Barreto; São Bernardo (1934) e Vidas Secas (1938), de Graciliano Ramos, de igual naipe; A Menina Morta (1954), de Cornélio Pena, e Grande Sertão: Veredas (1956), de Guimarães Rosa, ambas de estatura universal, conquanto apresentando abismais diferenças de tendência e realização.

(do livro, Romances Brasileiros – Uma Leitura Direcionada, Uberaba, Instituto Triangulino de Cultura, 1998-).
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Guido Bilharinho é advogado atuante em Uberaba e editor da revista internacional de poesia Dimensão de 1980 a 2000, sendo ainda autor de livros de literatura, cinema e história regional e nacional.
(Publicação autorizada pelo autor)

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