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Corpo, memória e território: a poética multimídia de Jorge Feitosa como prática decolonial de combate ao extrativismo e de reconexão do homem contemporâneo com a natureza

Com obras provocativas nos acervos do MAR (RJ) e do MUnA (MG), além de exposições em Cuba e na Itália, o artista rondoniense radicado em São Paulo realizou recentemente sua primeira individual em Paris e aprofunda agora suas investigações em um novo ciclo de pesquisa dedicado à pintura


Jorge Feitosa e Fabio Garcia - Acervo - Gente de Opinião
Jorge Feitosa e Fabio Garcia - Acervo

Quando desembarcou em Paris, em outubro de 2025, para exibir sua primeira individual na capital francesa, Jorge Feitosa era mais do que um artista multimídia brasileiro levando sua produção ao exterior. Com a exposição Viagem: Matéria, Rito e Memória Ancestral, o rondoniense realizou o que considera um movimento de reocupação simbólica: se viajantes europeus cruzavam o Atlântico, no século XIX, em busca da imagem exótica de um "Novo Mundo", Feitosa fez o caminho inverso, apresentando ao público do Marais uma poética investigativa ancorada na argila do Rio Madeira, nos ossos de peixes amazônicos e na memória ancestral de seu povo.

"Quando levo esses elementos para a Europa, minha ideia é inverter essa bússola. Não é a Amazônia que está sendo descoberta, é a Europa que está sendo confrontada pela presença física e espiritual de nosso território", afirma o artista.

A mostra, que reuniu 22 trabalhos produzidos entre 2012 e 2025, materializou décadas de pesquisa em pintura, fotoperformance, escultura e manufatura de objetos, tendo como fio condutor a relação indissociável entre corpo, território e memória. A exposição no Marais representou também um ponto de inflexão: ao apresentar sua produção ao público europeu, Feitosa propôs reflexões sobre confrontos éticos globais. Nesse sentido, a escolha da argila do Rio Madeira, retirada de sua terra natal, vem carregada de camadas políticas, espirituais e afetivas.

"Ela é o chão que sustenta as comunidades, e é também o depósito de memória de um rio que até hoje sofre as feridas das hidrelétricas, do garimpo ilegal. Quando pinto com essa argila e exponho essas obras em Paris, minha ideia é trazer a poeira e o barro de Rondônia para manchar a brancura asséptica das galerias europeias e fazer lembrar que a arte contemporânea também brota da terra e dos ritos."

Essa poética de tensionamento salta aos olhos na série Kintsugi (2024), em que fragmentos de ossos de peixes amazônicos são recobertos por folhas de ouro. Inspirada na técnica japonesa que valoriza as “cicatrizes” como parte da história dos objetos, a série dialoga com a memória do garimpo no Rio Madeira na década de 1980.

"O ouro foi o motor do genocídio indígena e da escravização no Brasil. Quando revisto com esse metal precioso os ossos de peixes que representam a nossa morte – mas também nossa subsistência –, opero uma transmutação da dor. O ouro, que antes foi motivo da nossa exploração, serve agora para dar dignidade e contar nossa memória. Ele deixa de ser moeda e passa a se tornar pele e relicário", defende Feitosa.

Da margem do Madeira à selva de pedra

Nascido em 1969 em Porto Velho, filho de pai marceneiro e mãe costureira, Feitosa chegou a São Paulo aos 17 anos para morar com a irmã mais velha. O impacto da metrópole sobre um corpo moldado pela floresta, segundo ele, foi imediato e sensorial.

“Nesse período, minha vida na Rua da Mooca foi marcada pelo aroma da fábrica de chicletes Adams, que diariamente se fundia à poluição urbana. Era uma sensação inebriante para quem, como eu, vinha da pureza da natureza e conhecia basicamente o perfume da floresta e da chuva", recorda.

Esse estranhamento inaugural, vivenciado “na pele”, de acordo com ele, tornou-se matriz de sua produção artística. "Acredito que meu deslocamento não é geográfico, é corpóreo. Minha identidade não está fixa em um lugar nem em outro. Esse trânsito entre a Amazônia e a metrópole mudou minha percepção de pertencimento, que é algo processual. Não sou uma coisa nem outra. Sou o movimento entre elas", defende.

Ao longo de sua trajetória a experiência do deslocamento, de fato, vem atravessando a obra de Feitosa por meio de diferentes matérias. Quando utiliza ossos de peixe e argila do Rio Madeira, o artista traz consigo a ancestralidade, o tempo do rio, a crueza da origem. Ao fixar folhas de ouro sobre esses ossos ou cobrir o corpo com argila em fotoperformances, não está apenas criando um objeto.

"Acredito que estou dando vida a um terceiro ser, esse ser híbrido que é a síntese da minha existência. É a rusticidade, a força da floresta, em diálogo com o valor, a técnica e a sofisticação que também encontro no ambiente urbano e na história da arte", explica.

Olhar fotográfico como gênese

Antes de graduar-se em Artes Visuais pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo (2013), Feitosa teve formação livre em fotografia pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), quando participou do livro coletivo Luz Marginal Procura Corpo Vago (2009), idealizado a partir do curso ministrado pelo fotógrafo Gal Oppido.

A experiência, segundo ele, foi além do aprendizado técnico: "Comecei a entender o corpo como um território de investigação. Essa percepção mudou tudo para mim. E é muito louco quando você se depara com o conhecimento de uma forma que transforma totalmente o seu olhar", reflete. A fotografia tornou-se, então, o fio condutor que permite a Feitosa transitar entre linguagens – da performance ao vídeo, da cerâmica à pintura.

"A fotografia me deu a base para entender questões como dimensionalidade, profundidade e volumetria. Quando moldo argila, sempre uso meu olhar fotográfico para perceber como a luz esculpe a forma e como o recorte da composição cria sentido. Na criação em cerâmica, aprendi a olhar para as sombras e criar formas. Na pintura, busco a sensibilidade de quem entende a temperatura da cor e a exposição da luz."

Essa base multidisciplinar permitiu que a produção de Feitosa ganhasse contornos próprios, sempre ancorada em questões ligadas à identidade, ao enraizamento, à memória e à morte, a partir de 2016, quando ele realizou sua primeira mostra individual internacional, NAVEGAR ES PRECISO, realizada no Centro Provincial de Artes Plástica y Diseño de La Habana, em Cuba. Desde então, o artista participou de inúmeras mostras como a Verbo 2022 (Galeria Vermelho), Presença Permeável (Paço das Artes) e a coletiva Mappa Dell'arte Nuova – Imago, na Fondazione Giorgio Cini, na Itália. Atualmente, seu trabalho integra os acervos do Museu Universitário de Arte – MUnA, da Universidade Federal de Uberlândia, e do MAR – Museu de Arte do Rio.

Com trabalhos em acervos institucionais de peso e circulação internacional, Feitosa avalia seu momento atual como de maturidade e síntese, e agora concentra sua investigação no ateliê, em um novo ciclo que marca um retorno deliberado à pintura.

"Escolhi a pintura como uma ferramenta política de retomada da imagem da natureza brasileira. Sinto que é um passo necessário para subverter a lógica dos naturalistas europeus que, no século XVII, vinham ao Brasil documentar nossa flora sob uma ótica de exotismo e controle colonial. Minha pesquisa busca aprofundar esse olhar sobre a flora local, mas a partir da perspectiva contemporânea de quem habita e faz parte desse lugar. Não se trata apenas de pintar a planta, mas de pintar a memória e o pertencimento que ela carrega", conclui Jorge Feitosa.

Considerações do artista sobre seu trabalho

Jorge Feitosa  - Gente de Opinião
Jorge Feitosa

Confira, a seguir, seis séries cronologicamente comentadas de destaque na trajetória de Jorge Feitosa, analisadas em suas próprias palavras:

1. Mapa dos Ventos (2015)

Em Mapa dos Ventos, o artista utiliza a fotografia macro de troncos para cartografar os rios voadores – massas de umidade amazônica que atravessam o continente. As texturas em preto e branco transmutam fibras vegetais em correntes atmosféricas, estabelecendo uma relação poética entre a árvore que transpirou a água e aquela que, em seu corpo estático, guarda o desenho do movimento.

"Proponho uma viagem silenciosa por esses mapas orgânicos, lembrando que o deserto é o destino de um Brasil que interrompe o ciclo de suas águas. Deslizar por estas imagens é reconhecer que nossa sobrevivência depende de um rio que não corre no chão, mas que flutua, invisível e vital, sobre nossas cabeças."

2. Sobre Deslocamentos e Natureza (2015)

Registrada nas margens do Lago Michigan, a série investiga a passagem do tempo a partir da coreografia do vento sobre a água. As imagens, rotacionadas em 180°, desafiam a gravidade visual e transformam o registro documental em questionamentos.

"Ao inverter a paisagem, confronto o espectador com a urgência da intervenção humana: qual a nossa necessidade de interferir na ordem natural? A série é um convite para questionarmos se ainda somos capazes de apenas contemplar a força bruta da natureza, ou se nossa presença exige, invariavelmente, a sua transformação."

3. Paisagens e Miragens (2016)

Nesta série, Feitosa abandona a ideia da miragem como ilusão de ótica para transformá-la em um método de investigação visual. Por meio de corte, sobreposição e inversão, elementos como areia, rocha e céu são reorganizados em uma geografia imaginária. O horizonte transforma-se em “dobradiça”, e a natureza perde sua ancoragem gravitacional, fundindo o peso da pedra à imaterialidade das nuvens.

"Neste exercício de 'ver imagens através da paisagem', o horizonte não funciona como limite, mas como uma dobradiça. O que resta não é mais o registro de um lugar geográfico, mas o testemunho de um encontro: aquele que ocorre entre a luz que atinge a lente e o desejo de ver além do óbvio. Se toda paisagem é uma construção mental, estas imagens são miragens deliberadas – convites para desaprender o chão e descobrir, na suspensão das formas, uma nova maneira de estar diante da natureza."

4. Disparo (2021)

A série Disparo confronta o espectador com o genocídio indígena e o avanço do garimpo ilegal na Amazônia. No processo escultórico, o artista subjuga a argila com força manual, deixando impressos os dedos e o barro que escapa – metáfora, segundo ele, de uma terra que se esvai sob dragas e motosserras. As peças, que evocam ossadas expostas, tornam-se monumentos à resistência dos povos originários.

"Meu processo escultórico é indissociável da performance: subjugo a argila ao limite da pressão manual, moldando as peças ao apertar o barro com toda a força que possuo. Na matéria, ficam gravados meus dedos e o barro que teima em vazar pelos vãos – uma tentativa de me agarrar a essa terra enquanto ela, violentamente, se esvai. É o registro arqueológico de um trauma que se repete em cada invasão de território ancestral."

5. Topografia das Correntes (2023)

Inspirada pelo encontro dos rios Negro e Solimões, a série materializa as propriedades físicas que mantêm a individualidade das águas – temperatura, densidade, velocidade. A esmaltação cria divisas que não se misturam, espelhando a tensão entre dois corpos hídricos. A obra carrega uma crítica ao Antropoceno: o equilíbrio milenar está ameaçado pelas crises climáticas.

"Utilizo a solidez da cerâmica para registrar um fenômeno que corre o risco de desaparecer. A obra não é apenas sobre o encontro das águas; é sobre o medo da sua mistura forçada pelo colapso ambiental. Entre o brilho do esmalte e a porosidade da argila, as peças operam como monumentos à resistência hídrica."

6. Dente de Gado (2024)

Em Dente de Gado, Feitosa transforma madeira e ouro em crítica à exploração predatória da Amazônia. A escultura vertical, composta por três segmentos empilhados, culmina em uma peça totalmente folheada a ouro – uma alegoria da opulência que ascende sobre a matéria bruta da floresta. A forma do dente, ao mesmo tempo resistência e instrumento de destruição, tensiona o papel do agronegócio e do garimpo na devastação do território.
"A presença do ouro simboliza a cobiça que impulsiona a exploração da Amazônia. Utilizo a madeira como denúncia: ela representa o corpo da floresta tombada. Escolhi a forma do dente por sua força simbólica. Entendo estas esculturas como uma tentativa de preservar a memória de um tempo e de um lugar marcados pela exploração, antes que tudo se transforme em pasto."

Sobre Jorge Feitosa

Jorge Feitosa nasceu em 1969 em Porto Velho (RO). Filho de marceneiro e costureira, mudou-se para São Paulo aos 17 anos. Em 2009, obteve formação livre em fotografia pelo MAM-SP, onde integrou coletivo que resultou no livro Luz Marginal Procura Corpo Vago. Graduou-se em Artes Visuais pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo (2013). Em sua pesquisa, utiliza performance, fotografia e vídeo para investigar questões de identidade, deslocamento, enraizamento e morte, com forte ligação com a floresta amazônica. Realizou sua primeira individual internacional, NAVEGAR ES PRECISO, em Havana, Cuba (2016). Participou de mostras como Verbo 2022 (Galeria Vermelho), Presença Permeável (Paço das Artes) e a coletiva Mappa Dell'arte Nuova – Imago (Fondazione Giorgio Cini, Itália). Seu trabalho integra os acervos do Museu Universitário de Arte – MUnA (UFU) e do Museu de Arte do Rio – MAR (RJ).

Perfil do artista no Instagram: @jorgefeitosa.artista

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