Porto Velho (RO) segunda-feira, 20 de janeiro de 2020
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Casamentos reais em quadrilhas juninas fazem parte da história do Arraial Flor do Maracujá


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Arraial Flor do Maracujá nasceu da tradição de quadrilhas de bairro

Ao público, a modernidade presente na alegoria do Arraial Flor do Maracujá não deixa passar imperceptível a saga de antigos brincantes de periferia. Em depoimentos emocionados, eles contam como funcionavam as quadrilhas nos terreiros e quintais de Porto Velho entre os anos 1950 e 1980. Alguns nomes estão completos, sobram apelidos.

Vivendo uma realidade bem diferente da atual, fundadores de antigos bois e quadrilhas juninas tiravam dinheiro do bolso para confeccionar vestimentas, promoviam feijoada e bingo de frango assado e bolo de fubá. Dois deles, notáveis, namoraram e se casaram nas quadrilhas.

No final da semana passada, o jornalista Sílvio Santos, o Zé Katraka, amo do boi [dono da fazenda e pai de sinhazinha] demorou quase uma hora para chegar da avenida Migrantes ao arraial, na avenida Lauro Sodré. O trânsito estava congestionado. Cerca de 50 mil pessoas concentraram-se no arraial e no seu entorno. O evento já é considerado o maior do norte do Brasil.

Quais os bois famosos de ontem? “O Corre Campo é um recordista: é detentor de 16 títulos em 34 anos de Flor do Maracujá. Surgiu nos anos 1950 e foi reativado em 1989 para abrilhantar o arraial”, responde o jornalista.

Sílvio Santos também lembra a participação de crianças: “Porto Velho tem quatro bois mirins, que foram criados para passar a tradição dos pais para os filhos, e isso marcou muito a cultura da época”. “No Brasil, o bicho Folharal só existe em Porto Velho e se tornou grande atração no arraial: é um personagem criado pelo brincante Acrísio; exibe folhas de bananeira costuradas na roupa, não mostra o rosto, não fala, só se movimenta”.

Em sua casa na rua das Faveiras, bairro Eletronorte [zona sul de Porto Velho], João Batista Gomes da Silva, 62 anos, três filhas e cinco netos, fundou um dos primeiros grupos infantis no início dos anos 1980: Estrelinha de São João [35 pares], surgido no âmbito da quadrilha adulta Beija-flor do Norte, por ele fundada no Bairro Nova Floresta.

“Isso aqui [o bairro] estava sendo povoado, havia disputa de terra com empresas imobiliárias, e não tinha outro lugar pra ensaiar, além de quintais. A gente queimava óleo na lata de tinta para ter luz suficiente, porque não tinha energia elétrica”.

AMOR NA QUADRILHA

Fundador do boi-mirim Mimosinho, João Batista acumulou sete títulos. “Foram sete vitórias e ninguém venceria se não se unisse para fazer almoços, feijoadas e bingos. Cada 50 centavos valia ouro”, ele conta.

João Batista começou aos 17 anos no boi Malhadinho. Na ponta da língua, menciona os padrinhos: o comerciante Manuel Mendonça, Manelão, fundador da banda carnavalesca Vai Quem Quer, professora Nazaré Silva, a escritora Yêdda Borzacov, deputados estaduais Arnaldo Martins e Valderedo Paiva, entre outros.

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Seo João Batista com a esposa Francelina, filha e neto

Ele conheceu a esposa Francelina ainda jovem, dançando na quadrilha Beija-flor do Norte. Junto com ela, prestigiou a vizinhança e apoiou outros bois: Flor do Campo, Pai do Campo, Corre Campo e Tira Cisma. Já o mais antigo, Tira Teima, anteriormente denominara-se Tira Prosa, liderado pelo brincante Sardinha.

Outra recordação: nos anos 1960, o então prefeito Antonio Serpa do Amaral foi o patrocinador do Boi Flor do Campo. E outros nomes para ele inesquecíveis: “O Raimundo Nonato  Silva foi o melhor cazumbá do boi Corre Campo; ele tem hoje o boi Az de Ouro”, cujo presidente é seu filho Silfarney Silva.

Cazumbá é um personagem híbrido, misterioso e cercado de magia que se apresenta com máscara. Usa bata pintada ou bordada que, na altura dos quadris, é armada por um cofo de palha, usado para dar mais mobilidade e graça ao personagem em seus rebolantes volteios. Na mão leva um chocalho, que badala marcando o ritmo, ou chicote para espantar o público.

Diferença daquela época para hoje? “O boi tinha que ser de perna manca e com capim; hoje tá meio carnavalesco. O Catirina tinha que ser forte para carregar peso. A brincadeira era mais alinhada para fazer a tradição nos bairros bem animadinhos”. No folclore, Catirina é também conhecida por esposa de Pai Francisco, figura burlesca da lenda do Bumba Meu Boi.

Outra recordação de Sílvio Santos: “No improviso, os mascarados Cazumbá e Pai Francisco cativavam o público fazendo versos que satirizavam os acontecimentos políticos e sociais, dando à apresentação caráter também humorístico; o embate entre cutubas [partidários do então deputado federal, coronel Aluízio Ferreira] e pele-curtas [seguidores do médico Renato Medeiros] esteve presente”.

ANIVERSÁRIO COM BOI

Alvo de algumas homenagens, João Batista não frequenta o arraial dos anos 2000. Ele não esconde que estranhou algumas mudanças conceituais, algumas delas determinadas pela forma de patrocínio, a exemplo de quadrilhas juninas, do carnaval e do futebol. “Prestígio mesmo, ele diz, era ver o boi convidado para animar festas de aniversário”. Evidentemente, a cidade aumentou de tamanho e a população cresceu. Já não se fazem mais quadrilhas bem feitas nos quintais. O jornalista Sílvio Santos explica: “Os conhecidos categas contratavam o boi para aniversários e festas juninas e aí a gente fazia algum dinheiro. Era assim: Nego Chico matava o boi, tirava a língua e a Catirina a vendia para o dono da casa. Isso justificava o pagamento do cachê”.

Tem saudades dos companheiros, entre eles, Lourenço e Pedro Gomes Maia, o Galego – pioneiros falecidos. A cada nome mencionado, ele sorri com gratidão. “Fui amigo de infância de alguns deles”, diz.

O boi evoluiu muito. Nos tempos de João Batista, batuqueiros andavam com jornal e fósforo para aquecer o couro de boi, onça, queixadas, cobra e veado. Hoje, os instrumentos plastificados são à prova de chuva. Pontificava nessa época a loja especializada, do comerciante José Oceano Alves, que comprava e vendia couro de animais silvestres, com propaganda de rádio e ainda livre da fiscalização ambiental.

CORAÇÃO NO TRIÂNGULO

Dez vezes jurado do arraial, Silvério do Carmo, o Chore, 77 anos, cinco filhos, 16 netos e alguns bisnetos mudou-se para Goiânia (GO) há 20 anos, mas o coração parece ter ficado no bairro do Triângulo. Ali, foi vizinho do ex-vereador [falecido] e presidente da Câmara Municipal, Joventino Ferreira Filho, que com ele e outros moradores fundou a quadrilha Flor de Maracujá.

Silvério fez história nesse bairro, aonde chegou no dia 12 de dezembro de 1949, procedente de sua terra natal, Manicoré (AM). De cara, recebeu as bênçãos do bispo salesiano dom João Batista Costa e se tornou amigo de um guarda territorial conhecido por Caterpillar – alusão à fábrica americana de máquinas pesadas. “O sujeito era muito forte, um trator, daí o apelido”, comenta. Já o bispo gostava muito de Gabriel, irmão dele, que o religioso achava “parecido” com um amigo de infância.

A exemplo de João Batista do boi Mimosinho, Silvério também se enamorou, casando-se na beira do maior afluente da margem direita do Rio Amazonas, com o testemunho dos amigos mais próximos, notadamente aqueles do Triângulo, Morro do Querosene, Baixa da União, Alto do Bode e Cai n’Água.

A felizarda foi a professora Elisa Corsino, que lecionou e também dirigiu as Escolas Franklin Delano Roosevelt, Getúlio Vargas, Homero Kang Tourinho, John Kennedy, João XXIII e Estudo e Trabalho.

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Silvério do Carmo, o Chore, mudou-se para Goiânia, mas o coração ficou no bairro Triângulo

“O romance começou num ambiente bonito, de amor verdadeiro; a gente se reunia aí nesses trilhos e na beira do rio. O curral do boi Dominante ficava ao lado da Escola Franklin Roosevelt”, recorda.

Explica a razão do nome da quadrilha com 60 pares [120 pessoas]: “Moradores esticavam varais de flores que exalavam o cheiro do maracujá e cada quadrilheiro levava uma flor no chapéu, um encanto. O troller vinha lá da estação trazendo na frente o sanfoneiro Bananeira, o pandeirista Bara, o Antônio Lopes (Maria Pretinha) e o Navegante com banjos e o zabumbeiro Paulo”, conta.

Mais relatos: “Foi numa aula de 13 de maio [Abolição da escravatura] que começamos o boi Estrelinha, em 1983. O primeiro marcador [quem organiza o movimento da quadrilha] foi Jorge Canavarros”.

Na sequência, a memória lhe traz nomes, situações e alegrias ao rememorar os feitos dos bois Caprichoso e Dominante: “Os fundadores do Dominante foram Antônio do Carmo Barros, o Antônio da Mangueira, e Raimundo Pereira Lima, o Cabo Fumaça, que serviu na extinta 3ª Companhia de Fronteira do Exército Brasileiro. Todos ensaiavam ali embaixo [apontando a barranca do rio]”.

Na tarde de segunda-feira (6), ele atendeu a pedidos e se dirigiu à beira do rio Madeira, na área onde maquinistas manobravam o trem da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.

Duas árvores – uma castanholeira, ou sete copas, e uma embaubeira – ainda estão em pé, e ao lado delas ficava a casa de madeira de família, destruída na enchente de 2014. “Meus filhos cresceram neste lugar, banhando no rio e brincando no barro”, conta.

Versátil compositor e tocador de banjo, bateria, cavaquinho e pandeiro, ele também foi percussionista da conhecida “Furiosa”, banda musical da extinta Guarda Territorial, corporação que antecedeu a Polícia Militar de Rondônia.

“O som do banjo e a voz do cantor, no gogó [sem microfone], ressonavam na multidão. O Wilson do pandeiro, o Antero Soares, o Galego, o Caboclo do Areal e José do Vale foram grandes nisso”, assinala. Dos mais admirados banjoístas, ele menciona Elton Eugênio Bleckman, barbadiano, conhecido por nego Bleckman.

Ainda toca, seu Silvério? “Só para mim e pra família”, ele responde com ar nostálgico.

Veja fotos 


Fonte
Texto: Montezuma Cruz
Fotos: Bruno Corsino e Ésio Mendes
Decom - Governo de Rondônia

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