Sexta-feira, 16 de janeiro de 2026 - 14h49

Resgate que não
idealiza o passado, mas o escuta. O filme Beira conecta ancestralidade, cuidado
e espiritualidade, saberes estes historicamente deslegitimados como
conhecimento científico, mas fundamentais para a sustentação das comunidades.
Ele está entre os cinco projetos escolhidos em todo o país em 2025.
Realizado em Porto
Velho, esta obra integra a programação da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes e
terá sua estreia no dia 31 de janeiro, às 19h, em sessão no Cine Praça. A
película destaca o cinema negro contemporâneo do estado de Rondônia, em um dos
mais importantes espaços de exibição e difusão do cinema brasileiro, com
destaque para Amazônia.
Com direção, roteiro,
composições musicais e direção de produção assinados por Marcela Bonfim, Beira
reafirma a potência autoral da realizadora rondoniense no cinema
contemporâneo.Ancorada nas margens (in)visíveis da cidade de Porto Velho, a
narrativa ilumina vivências LGBTQIA+ e trajetórias historicamente silenciadas,
transformando esses territórios periféricos em espaços de escuta, elaboração e
reinscrição da experiência negra e dissidente no imaginário amazônico.
Selecionado pelo
Edital de Curtas-Metragens “Brasil com S”, iniciativa da Embratur – Agência
Brasileira de Promoção Internacional do Turismo. O edital tem como objetivo
impulsionar a imagem do Brasil no exterior por meio do audiovisual, valorizando
territórios, culturas, identidades, diversidade e narrativas contemporâneas. O
curta-metragem dialoga diretamente com a pesquisa artística desenvolvida por
Marcela Bonfim ao longo de sua trajetória.
Amazônia Negra como
linguagem, território e memória

Em Beira, a Amazônia
Negra não aparece apenas como território geográfico, mas como espaço simbólico,
afetivo e político. A “beira” apresentada no filme extrapola o sentido físico e
se afirma como um estado de existência, onde vivem corpos negros, LGBTQIA+ e
sujeitos historicamente marginalizados, que seguem resistindo e fluindo apesar
das tentativas de apagamento.
A estética do filme
articula linguagem documental, realismo poético e elementos de realismo mágico,
incorporando a espiritualidade, o rio, as casas antigas e a paisagem amazônica
como extensões da memória e da identidade dos personagens. A paisagem sonora,
composta por sons da cidade, rezas, batuques, águas e silêncios, reforça a
noção de que o passado permanece vivo e atravessa o presente.
Marcela Bonfim,
ressalta que ao trazer à tona histórias escondidas nas casas antigas e nas
correntezas do Rio Madeira, Beira lança uma pergunta que atravessa toda a
narrativa. “Quantas histórias ainda permanecem guardadas nas margens das
cidades, esperando para serem contadas? As margens não são espaços de exclusão
definitiva, mas territórios de memória, afeto, força e renascimento, onde o
existir à margem se transforma em gesto político.”
Parcerias
institucionais e ocupação de espaços de poder

A obra também se
constrói a partir de parcerias institucionais estratégicas. Entre elas,
destaca-se o apoio do Tribunal de Justiça do Estado de Rondônia (TJRO), que
autorizou a realização de filmagens em suas dependências, viabilizando uma das
cenas centrais do filme.
A representação da
juíza Cora, mulher negra, assume um papel simbólico e político relevante na
narrativa, ao demarcar a ocupação de um espaço historicamente marcado pela
exclusão racial. A cena foi viabilizada com a colaboração da juíza Miria do
Nascimento de Souza, magistrada atuante no TJRO, que cedeu seu ofício para a
realização das filmagens, contribuindo de forma decisiva para a construção
simbólica e narrativa da obra.
No campo musical,
Beira conta com a participação do cantor e compositor Marcelo Jeneci, na canção
“Juízo”, composição de Marcela Bonfim, com produção musical de Thiago Maziero,
ampliando a dimensão sensível e poética do filme.
A luta LGBTI+
A luta LGBTI+
atravessa Beira de forma estrutural. Com participações especiais de Karen Diogo
e Rafaela Correia, o filme traz à tona narrativas de pessoas trans e travestis,
afirmando presença, dignidade e complexidade dessas vivências no contexto
amazônico.
A representatividade
também se expressa na ficha técnica, com Rafaela Correia atuando como atriz e
montadora, reforçando o compromisso do filme com práticas éticas no audiovisual
e com a autonomia criativa de pessoas LGBTI+.
Sinopse
De volta a Porto
Velho, Eva retorna para resgatar a casa da finada avó, uma antiga parteira e
benzedeira da comunidade. No reencontro com a cidade e seus afetos, ela
revisita amores, segredos e silêncios do passado. Entre memórias guardadas em
um velho baú e novas descobertas ao lado de Rafaela, Eva se confronta com sua
própria história e com as ausências que moldaram sua identidade.
Sobre a diretora
Marcela Bonfim
(Jaú/SP, 1983) é fotógrafa, artista visual e realizadora audiovisual, radicada
em Porto Velho (RO). Criadora do projeto (Re)conhecendo a Amazônia Negra, sua
obra articula arte, território, memória e ativismo, consolidando-se como uma
das principais vozes do cinema negro amazônico contemporâneo.
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