Porto Velho (RO) segunda-feira, 16 de maio de 2022
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Viviane Paes

O Natal sem Natália


Natal para mim, e acredito para meus filhos não é apenas o nascimento de Jesus Cristo, momento de renovação, de troca de presentes, de confraternizações. Natal para mim desde muito pequena – porque eu já fui menor, é o aniversário de minha mãe, daí bem lógico o nome: Maria Natália. Quando me tornei uma adolescente à data era um empecilho para não passar esta festividade em outro local que não fosse minha casa! Ano Novo tudo bem, agora o período natalino era sagrado, impossível até pensar em fazer algo diferente. Deus me livre!!

Os meus últimos cinco Natais tem sido difíceis, pois ela minha mãe não está mais neste mundo – quer dizer entre nós, pois ela foi uma católica apostólica romana bem interessante! Para dona Natália a pós-morte só seria real quando alguém conhecido partisse desta para outra dita melhor vida e retornasse dizendo que ela existia mesmo! E, já citava São Tomé: - Só acredito no que estes olhos vêem...

Minha mãe não me ensinou a ser uma mulher muito delicada, na verdade ela detestava meninas muito “iiinhas” como dizia. E quando eu chorava por algo: - Oh coitada vai ficar velha logo, cheia de rugas. Quando eu sorria demais: - O Maria escandalosa chegará a adolescência igual uma velha de 40 anos... Lição oculta: nada em excesso faz bem! Entretanto, em não tenho tantas rugas assim.

Meu pai, seu Virgínio, me ensinou a ser uma sonhadora. Ele me fez acreditar que tudo era possível, que a espiritualidade era fundamental para qualquer ser humano, não importando a religião, mas foi o realismo de minha mãe - não pessimismo como meu pai sempre retrucava – que me salvou de muitas situações profissionais e pessoais! “Fica aí sonhando acordada e não vai trabalhar não para ver o que acontece”! Lição oculta: sonhar é necessário, mas realizar é fundamental!

Quando eu comecei a namorar dona Natália me acordou para vida – palavras dela mesma. “O amor bom é aquele que sentimos por nós mesmos. Primeiro nos amamos, depois - bem depois vem o outro – no caso o homem”! Lição oculta: auto-estima. Se você não se ama quem vai te amar?! No quesito amor eu realmente tinha muitas dúvidas se ela amava meu pai, fator básico para um casamento, dizem por aí. Caí na besteira de perguntar isto a ela e a resposta foi maravilhosa: Eu gosto primeiro de mim, e não é todo dia que me gosto, quem dirá dos outros... Lição oculta: não descobri até hoje...

Parece que por tudo que citei acima que minha mãe era uma mulher muito dura, insensível. Neste momento eu a defendo. Não, mesmo!!! Minha mãe tinha fama de não gostar de crianças. Ela não era de fazer muito obâ, obâ mesmo. Tinha uma cara naturalmente fechada como se estivesse o tempo todo brava com o mundo. Quem convivia com ela sabia que não era nada disto. Dona Natália era bem engraçada, sabe aquela pessoa que dá risadas nos momentos mais assustadores do filme?! Esta era minha mãe. Um dia perguntei por que não tinha irmãos e ela explicou a complexidade da vida. “Veja sê sou doida de ficar colocando filho no mundo, quase não dou conta de cuidar de uma. Parir é fácil, eu quero ver é cuidar, colocar gente boa no mundo”. Lição oculta: amor incondicional de mãe é isto!!

Quando fiquei grávida aos 19 anos, bem tarde para os padrões nortista, contei a novidade primeiro para meu pai no jornalismo, professor Antônio Queiroz – editor chefe do jornal O Estadão do Norte, que logicamente me aconselhou a falar imediatamente para meus pais – depois de apontar o lado bom da maternidade: “vais ficar com um corpo mais bonito rapariga e levar a vida muito à sério!! 

Meu pai “modernoso” para quem teve apenas uma filha na vida ficou mais feliz que decepcionado e só disse: “E agora Viviane como iremos falar isto com sua mãe!?!”. Realmente não foi a conversa mais fácil que tivemos... Foi também uma das poucas vezes que vi minha mãe chorar, afinal lágrimas demais era sinal de ser uma manteiga derretida. Para ela foi um baque grande, não por fazer planos de me ver casando de véu e grinalda em uma igreja como manda o figurino, e sim por ter sido abandonada pelo noivo quando ficou grávida mais ou menos na mesma idade que eu. Os tempos eram outros, né. Eu não pensei em casar, tinha começado a trabalhar em um jornal e era a independência em pessoa! A minha despreocupação foi a pior coisa. “Que tipo de mulher eu criei que não pensa no futuro do próprio filho?!” – emendando – “como aprendi com seu avô” – pois minha avó falecera quando ela tinha 10 anos: “quem pariu Mateus que balance!”.

Na década de 60, no interior do interior de Minas Gerais o status de mãe solteira era quase como ser “mulher da vida”, então meu avô Petronilho ficou toda a gestação sem olhar para filha mais nova. E, por incrível que possa parecer, minha mãe gostaria que meu tivesse demonstrado um pouco de indignação. Como não era da índole dele ela já disparou:  “pior coisa que tem é uma pessoa sem vergonha na cara!”. Apesar da situação constrangedora para o mundo em que ela ainda vivia, minha mãe foi uma avó muito presente, protetora e falou comigo todos os dias da gravidez.

Dona Natália tinha uma excelente memória lembrava até a temperatura de algum momento vivido e principalmente se tinha sido bom ou ruim. “Eu esquecer nunca nesta vida!”. A afirmação tinha peso dobrado para boas ações. Cresci a ouvindo dizer: “ingratidão é o pior defeito de um ser humano. “Aiaiai rainha – a rainha era eu, sê não tem gratidão com os pais que te alimentam terás com quem?! Lição oculta: até alguns bichos são mais gratos que o ser humano.

Minha mãe tinha um senso de justiça extraordinário e dolorido para mim muitas vezes... Sê tivesse um desentendimento na escola com alguma colega e a errada fosse eu, não precisava contar com ela para passar a mãe na minha cabeça. “Você pode ter saído de dentro de mim, eu amo você, mas se fizer coisa errada vai arcar com as consequências. Eu não coloquei filha neste mundo para ser mau caráter”.  E foi como aconteceu em muitos momentos. Errei e não recebi dela apoio nenhum, fui injustiçada e tive uma fera para me defender!

Meu Natal deste ano pode não ter o mesmo gosto dos demais, como tem sido desde sua morte. Mesmo assim acredito que ela deve estar orgulhosa e cuidando de mim e meus filhos á distância – naquela vida que ela dizia não acreditar. Aqui tem algo incrível – por ser kardecista e muito espiritualizada, acredito mesmo. Durante mais de três meses após a morte de dona Natália, meu filho menor Vinycius com quatro anos dizia o tempo todo: “porque vocês não falam com minha avó, ela tá aqui sentada no sofá olhando para gente” ou “minha avó falou para mim “pão branco, pão branco vai dormir logo que minha paciência tá acabando e criança boa e criança que dorme à tarde”...

Minha mãe foi uma mineirinha de Montes Claros, norte de Minas Gerais, de muita Até porque palavra, que prometeu ao meu marido – o mesmo com que eu não quis casar aos 19 anos, “sempre estarei por perto te vigiando”! Ele a conheceu suficiente para saber que é verdade. Então, meu Natal de 2013 sem dona Natália continua sendo em casa por uma questão de respeito. Lição aprendida!

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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