Porto Velho (RO) segunda-feira, 23 de setembro de 2019
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Gente de Opinião

Viriato Moura

Racionalização do ensino


 
Faz-se necessária a racionalização do ensino em nosso país. Anos a fio os currículos se repetem sem avanços que justifiquem alguma pretensão dos educadores em adequar as informações prestadas nos bancos escolares às necessidades da vida.

Tentam nos ensinar muitas coisas ao longo de nossos melhores anos – quando o cérebro está em condições otimizadas para sedimentar ensinamentos – , que pouco ou quase nada valemRacionalização do ensino - Gente de Opinião para nosso cotidiano.

Entulham-nos de informações inúteis, que nos oneram de algum modo e logo são esquecidas após terem cumprido sua finalidade, que é a de sermos aprovados nos exames a que nos submetemos. São esquecidas por serem aprendidas superficialmente e não conseguirem nos convencer de que terão utilidade em nossa vida prática. Isto não significa que seja desestimulada nossa curiosidade de ir além dos que nos é ensinado na escola. Mas essa é uma questão pessoal, que atende aos anseios intelectuais particulares.

Há também a fator método pedagógico. O exemplo mais gritante diz respeito ao aprendizado de línguas. Todas as pessoas em nosso país que chegaram ao segundo grau tiveram aulas de inglês. Quem aprendeu inglês (ou qualquer outro idioma) nesse período escolar? E mais: mesmo nesses cursos extra-curriculares que se disseminam por todo o país, vejam quanto tempo a expressiva maioria deles estabelecem para que você consiga se comunicar no idioma que ensinam. Perde-se um enorme tempo (e dinheiro) tentado aprender gramática em excesso, mas comunicar-se no idioma, que é o objetivo, o que obviamente interessa, fica para segundo plano. Se fosse necessário conhecer bastante gramática para falar o nosso português poucos saberiam. O interesse pecuniário suplanta (e muito) o de fazer o aluno aprender.

Na velocidade em que o conhecimento humano avança, é um despropósito perder tempo tentando saber o que não nos interessa, o que tem pouca utilidade prática, o que nada muda para melhor em nós; tampouco tolerar métodos de ensino que nada mais são do que engodos para alimentar interesses que não se coadunar com quem tem o nobre propósito de formar cidadãos qualificados.

Quando se fala em melhorar a qualidade da educação em nosso país, insiste-se nas surradas propostas que demandam investimentos vultosos como remunerar melhor os professores, equipar melhor as salas de aula e por aí. Tudo bem, professor, assim como os demais profissionais, precisam receber salários justos possíveis; as salas de aulas precisam ser adequadas à evolução dos tempos. Mas, convenhamos, isso está longe de garantir qualidade no ensino. Lembram do tempo em que se dava aula apenas com quadro negro ou verde e giz? Pois é, nem por isso essas aulas, desde que ministradas por professores competentes e vocacionados, mesmo ganhando pouco, deixaram de transmitir, com competência, grandes conhecimentos.

Enquanto os currículos, desde o ensino fundamental, não sofrerem mudanças com vistas a preparar pessoas para a vida, introduzindo-lhes conceitos práticos de direitos e deveres, de prevenção de enfermidades e acidentes, de primeiros socorros, de noções de segurança, de defesa, de proteção ao meio ambiente, de valores éticos, de disciplina, de respeito e afeição pelo próximo, de estímulo à sensibilidade e à vocação pelas artes ; em suma: enquanto o escola não servir para construir cidadãos aptos a enfrentar a vida com as ferramentas que ela requer (nas comunidades mais carentes, dar também oportunidade de profissionalização) para ser vivida como deve ser, está longe, muito longe, de ser a escola que deveria ser.

Já passou do tempo (como passou!) de os responsáveis pela educação no Brasil atinarem para o que ela, a educação, verdadeiramente serve e façam-na cumprir seu papel. Ou esse engodo néscio (por vezes desonesto) que circula impunemente na expressiva maioria de nossas escolas públicas e particulares continuará fazendo suas vítimas.


Fonte: Viriato Moura - viriatomoura@globo.com   
 

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