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Viriato Moura

Discurso de agradecimento de Viriato Moura pelo recebimento do título de Doutor Honoris Causa


Discurso de agradecimento de Viriato Moura pelo recebimento do título de Doutor Honoris Causa - Gente de Opinião

É com grande honra que recebo o título de Doutor Honoris Causa, outorgado pela Faculdade Instituto Rio de Janeiro, destacada instituição que atua na educação superior há mais de 20 anos. 

 

Disseminar conhecimentos nos níveis praticados por esta organização de ensino é cumprir a nobilíssima missão de ampliar oportunidades além do âmbito da pragmática sobrevivência material. O gênio polímata Leonardo da Vinci grafou: “O conhecimento torna a alma mais jovem e diminui a amargura da velhice, pois nos faz colher sabedoria e armazenar suavidade para o amanhã”. Isso, sem dúvida, é um pressuposto essencial para sermos felizes por mais tempo.

 

Jean de La Bruyèr, moralista francês, escreveu, em seu livro Os Personagens ou Costumes do Século, publicado em 1688, a lapidar frase: “Não há no mundo exagero mais belo que a gratidão”. Neste momento, é justamente esse sentimento que fala mais alto em mim. Para expressá-lo, valho-me da cronologia da minha jornada na tentativa de ser justo com pessoas e lugares que dela fizeram parte até agora. Como essas pessoas são tantas, desde logo, desculpo-me por não nomear todas.

 

Começo pela cidade onde nasci, Xapuri, no Estado do Acre. Embora tenha vivido lá pouco tempo, não poderia deixar de manifestar meu apreço e minha honra por ter vindo ao mundo naquele pequeno município dos confins do Brasil. À guisa de homenagear, in memoriam, alguns de meus conterrâneos que fizeram Xapuri mais conhecida e enaltecida, cito alguns daqueles que se tornaram personalidades exponenciais da nossa história: Chico Mendes, seringueiro, sindicalista e ativista político, lutou  pela preservação da maior floresta tropical do mundo, a Amazônia, e pelos direitos de seu povo, o que o fez pagar com a própria vida; Adib Jatene, professor doutor, médico, inventor e ministro da Saúde por dois governos; Jarbas Passarinho,  militar e político, tendo sido governador do Pará, ministro do Trabalho, da Educação, da Previdência Social e da Justiça, além de presidente do Senado, e Armando Nogueira, jornalista pioneiro do telejornalismo brasileiro que implantou o jornalismo na TV Globo, com destaque para a criação do Jornal Nacional, o primeiro com transmissão em rede e ao vivo da televisão brasileira.

 

Quando eu tinha apenas dois anos e meio de idade, minha família mudou-se para Porto Velho, capital do então Território Federal do Guaporé, atual Estado de Rondônia, cujo nome homenageia o Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, engenheiro militar e sertanista brasileiro, famoso por sua exploração da Amazônia, mormente por instalar a rede de telégrafos em regiões interioranas do Brasil e consignar apoio vitalício às populações indígenas entre tantos outros feitos que o alçaram ao pódio dos maiores heróis da nossa pátria. 

 

Rondônia é um estado que, em seus primórdios, foi palco da maior epopeia do século 20, a construção da lendária Estrada de Ferro Madeira‒Mamoré, hercúlea empreitada em que trabalharam egressos de 52 nacionalidades, muitos dos quais pereceram ante às intempéries que lhes foram impostas pelas inóspitas condições ambientais de onde a construíram: doenças tropicais, principalmente a malária, a que mais matou; alcoolismo, desavenças humanas, etc. Foi nesse longínquo pedaço do Norte brasileiro, terra de destemidos pioneiros, onde iniciei minha busca de conhecimentos. Àqueles que me deram suporte nessa extensa caminhada, manifesto minha gratidão: às minhas primeiras professoras, Noêmia e Osvaldina; aos padres salesianos do Colégio Dom Bosco, de Porto Velho; aos irmãos maristas do Colégio Nazaré, em Belém do Pará, e aos professores da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Pará.

 

Quanto à especialização médica, lembro dos dias intelectualmente fecundos que vivenciei nesta encantadora cidade do Rio de Janeiro, quando aqui passei 3 anos, fazendo internato e residência em ortopedia no Hospital de Traumato-Ortopedia, o famoso HTO. Nessa unidade de referência em minha especialidade, tive a honra de ser eleito Chefe dos Médicos Residentes pelos meus colegas de turma, e a oportunidade de promover, em 1976, com suporte da direção daquele nosocômio, a 1ª Jornada de Médicos Residentes em Ortopedia do Rio de Janeiro.  No HTO, convivi com mestres que me preparam para o enfrentamento dos obstáculos que adviriam ao longo das muitas décadas em que atuei como ortopedista e como administrador na área de saúde, em hospitais públicos e privados.  Ainda aqui no Rio, aproveitei o período noturno para me especializar em Medicina Esportiva, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, e em Medicina do Trabalho, na Universidade Gama Filho. Por tudo isso, muito obrigado, Rio de Janeiro.

 

Concluído esse ciclo de aprendizado, retornei para Porto Velho, onde tive que conviver, por muitos anos, com limitações de meios para prestar adequada assistência médico-hospitalar, principalmente nas especialidades que exigiam estruturas mais complexas, como a minha. Essa situação somente mudou com a inauguração, em janeiro de 1983, do Hospital de Base Ary Pinheiro, que nos disponibilizou boas condições estruturais e a presença de maior número de especialistas. Naquele histórico momento, fui escolhido pelo saudoso governador Jorge Teixeira de Oliveira, responsável pela construção do HBAP, para ser o primeiro diretor-geral daquele gigantesco complexo hospitalar, então com 365 leitos e 1.200 funcionários. O povo de Rondônia é eternamente grato a esse competente governante que instalou nosso estado. Manifesto meu orgulho e minha gratidão ao Teixeirão por ter participado de sua equipe e desse período de progresso na medicina rondoniense.

 

Como docente, atuei nos primórdios da Fundação Universidade do Pará, que deu origem à Universidade Federal de Rondônia, onde ministrei, no curso de Licenciatura em Educação Física — naquele tempo ainda não havia faculdade de medicina em Rondônia —, aulas de anatomia, fisiologia e cinesiologia. Minha gratidão aos alunos da primeira turma do referido curso por me escolherem para ser seu patrono.

 

As honrarias que tenho recebido premiam minhas afeição e dedicação à medicina, à literatura e às artes. Foram os meus pendores literários e artísticos, aparentemente sem um elo mais estreito com a medicina, que validaram em mim a antológica frase de Albert Einstein, escrita em seu livro Sobre Religião Cósmica e outras Opiniões e Aforismos: “A imaginação é mais importante que o conhecimento, porque o conhecimento é limitado, ao passo que a imaginação abrange o mundo inteiro”. Um dos principais nomes da literatura lusófona, Fernando Pessoa, acrescenta a essa dedução a via sensorial das percepções humanas: A ciência descreve as coisa como são; a arte, como são sentidas, como se sente que são”. E medicina é ciência e arte. Ciência que cobra domínio de seus aspectos teóricos e práticos, e arte que requer sensibilidade para perscrutar os anseios mais íntimos do ser humano que sofre.

 

Ao mesclar conhecimentos e prática médica ao estudo e às produções que demandam imaginação criativa, foi-me possível penetrar em recônditos da natureza humana, tão rica e complexa, que precisa ser mais esmiuçada pelo médico para que obtenha os melhores resultados de sua atuação profissional. Por isso, desde há muito, mantenho como alicerce da minha conduta médica uma frase do italiano Augusto Murri, nomeado para a Cátedra de Clínica Médica da Universidade de Bolonha, em 1875, considerado um dos mais ilustres e inovadores médicos do seu tempo: “Se puderes curar, cura; se não puderes curar, alivia; se não puderes aliviar, consola”.

 

Muito obrigado.

 

 

RESUMO CURRICULAR DO OUTORGADO

 

Viriato Moura é médico, autor de 21 livros, entre eles 8 em estilo minimalista; 3 opúsculos e 9 participações em coletâneas literárias; jornalista, artista plástico, cartunista e chargista. Recebeu diversas condecorações a nível municipal, estadual e nacional, sendo as mais recentes:  Comenda Dr. Ary Tupinambá Penna Pinheiro, concedida pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de Rondônia, e Comenda Moacyr Scliar – Medicina, Literatura e Arte, outorgada pelo Conselho Federal de Medicina. É membro da Academia Rondoniense de Letras, Ciências e Artes, da Academia de Letras de Rondônia e da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores. No dia 23 deste mês recebeu o título de Doutor Honoris Causa, concedido pelo Instituto Faculdade Rio de Janeiro, e foi credenciado como docente da Faculdade Instituto Rio de Janeiro e Instituto Universitário Rio de Janeiro.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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