Porto Velho (RO) domingo, 24 de junho de 2018
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Gente de Opinião

Silvio Santos

TEREZA CHAMA


A cultura de Guajará
perde sua chama

O município de Guajará Mirim está preste a deixar de contar, com o trabalho desenvolvido em prol de sua cultura, pela professora Tereza Chama. Acontece, que, cansada de ver seus projetos ficarem relegados a terceiro plano na atual administração (ela é Diretora da Divisão de Cultura da Funcetur), dona Maria Tereza Merino Chama, vai se mudar de "mala e cuia" como diz o caboclo do Vale do Mamoré/Guaporé, para o município de Alto Paraíso famoso pela realização da corrida de Jerico. "Recentemente, estive em Ji-Paraná para receber o prêmio "Oscar Mulher" uma premiação do colunista social Tergon e depois, fiquei alguns dias na região, quando fui convidada pelo prefeito de Alto Paraíso para assumir a Secretaria de Cultura, Esporte, Turismo e Meio Ambiente daquele município e aceitei". Na realidade, notamos durante a entrevista que Tereza Chama não quer deixar Guajará Mirim o que ela gostaria, era que a atual administração municipal, dessa mais atenção aos projetos da Divisão de Cultura dirigida por ela. "Os trabalhos da Divisão eu levo pra fazer em casa, porque até hoje, eles não instalaram pelo menos um computador na minha sala". Precursora do Festival Folclórico que envolve os Bois Malhadinho e Flor do Campo, Tereza Chama declara que deve retornar a Guajará Mirim no mês de abril de 2007 quando pretende lançar o livro "História de Guajará Mirim" que conta com mais de 400 biografias de pioneiros. "Tenho em meu poder, a 1ª Ata da Fundação da cidade de Guajará". A entrevista foi gravada minutos antes, da audiência pública sobre a construção do bumbódromo de Guajará onde o Secretário Antônio Ocampo foi sabatinado, pela comunidade guajaramirense na Câmara de Vereadores. Por diversas vezes tivemos que interromper a entrevista, em virtude da forte emoção que tomava conta da nossa querida Maria Tereza Merino Chama.

E N T R E V I S T A

Zk – O chama do seu nome, é relativo ao fogo, a brasa ou a sua luta pela cultura de Rondônia?

Tereza Chama – Não! Meu nome é Maria Tereza Merino e pelo fato d´eu ter sido casada durante 25 anos com o Abraim Chama assim fiquei conhecida, quando da nossa separação, ficou escrito que eu teria o direito de usar o nome Tereza Chama porque já era bastante conhecida como Professora Tereza Chama e assim ficou.


Zk – Sabemos que você é boliviana de nascimento, então queremos saber quando foi que começou esse amor, essa paixão por Guajará Mirim?

Tereza Chama – É verdade, eu vim ainda muito novinha da Bolívia, de Cochabamba, aqui me apaixonei por um brasileiro, casei tive meus três filhos. Estudei, terminei meus estudos universitários. O amor por Guajará Mirim é algo que entra no sangue da gente, você começa a gostar de Guajará Mirim pelas pessoas que aqui vivem; quando vê ouve a história; por pessoas pioneiras; por pessoas da Estrada de Ferro Madeira Mamoré; por pessoas seringalistas; pelos seringueiros. Então você começa a gostar e a viver ao mesmo tempo essa história. Realmente, sou uma estrangeira de nascimento, mas, me sinto guajaramirense de coração.


Zk – Na realidade quando você veio para Guajará quantos anos você tinha?

Tereza Chama – Tinha 18 anos de idade. Vim passar umas férias em Porto Velho, naquela época, 1970, eram três dias de viagem daqui pra Porto Velho e eu amei muito o pai dos meus filhos e dessa ida a Porto Velho em três dias, fez com eu casasse em menos de dois meses e vivemos muitos bem durante 25 anos. Nossa relação não deu certa, mas, a nossa amizade, nosso respeito continua.


Zk – Como era a vida social em Guajará Mirim no seu tempo de juventude?

Tereza Chama – Quando cheguei aqui em Guajará existia o Clube Helênico um clube considerado da elite, onde só freqüentavam pessoas da alta sociedade. Naquela época, 1970, ainda existia uma sociedade elitizada em Guajará Mirim. Hoje, essa sociedade se desfez um pouco porque os filhos, netos, casaram com outras famílias e não ficou aquela coisa restrita como era nos anos setenta, mas, ainda existe uma cultura dos sírios, libaneses, gregos daquela época, ainda um pouco fechada em relação ao povo de Guajará Mirim, fechada apenas no que diz respeito a suas tradições.


Zk – Quer dizer que você ainda pegou o trem da Madeira Mamoré andando?

Tereza Chama – Não! Quando cheguei aqui em 70 o trem já não vinha aqui constantemente apesar de só ter sido desativado em 1972. Não lembro na época, de ter visto o trem chegando aqui em Guajará Mirim.


Zk – Você é uma mulher bonita. É verdade que você foi miss?

Tereza Chama – Fui sim. Prefiro às vezes não comentar, acho que a beleza externa é algo muito passageiro, então aquela beleza interior que você leva, é aquilo que te faz. As pessoas hoje que me viram ainda menina dizem que eu conservo minha beleza. Dou graças a Deus de ter sido privilegiada. Fui miss Bolívia, tive muitos títulos, isso em si não me enche muito. Meu pai um homem considerado de muita fortuna na Bolívia sempre dizia, minha filha, a beleza é superficial, você tem que aprender e estudar, ter muita integridade moral e muita humildade pra receber certas dádivas de Deus. Acho que foi isso que me levou a ter até hoje, essa beleza que você diz que tenho. Acho que é uma beleza interior e uma amizade muito grande que faz com que os olhos das pessoas me vejam dessa maneira. Eu agradeço!


Zk – Vamos volta ao clube Helênico?

Tereza Chama – Existiam aquelas festas de 15 anos, a festa das debutantes, que era uma festa tradicional, as mulheres trajando longo os homens de paletó, era muito bonita. Acho que por ser uma coisa muito restrita foi acabando. Parece que tem um grupo de pessoas que está querendo revitalizar essa cultura antiga para que o Helênico seja novamente um clube, não só da elite, mas, um clube da população.


Zk – E o Guajará Clube?

Tereza Chama - Ali eu participava da festa do Hawai, as festas de carnaval eram muito boas no Guajará Clube. Existiam outros clubes como o Cruzeiro que era popular.


Zk – Naquela época, ou seja, na década de setenta, qual era a diversão da juventude além de freqüentar as festas dos clubes citados?

Tereza Chama – Quando eu cheguei em Guajará Mirim em 1970 já em setembro comecei a lecionar, então participei de alguma coisa. Pelo fato de ter tido uma educação privilegiada, quando aqui cheguei, já tinha o segundo ano de medicina e já tinha alguns cursos, pois desde os 15 anos estudava ballet clássico, ballet moderno, fui trabalhar no Colégio Paulo Saldanha dando aula de espanhol e reuníamos os jovens, para fazer dança, peça de teatro, música. Nossos jovens sempre traziam prêmios ao participar de concursos em Porto Velho. Acho que a juventude tinha um pouco mais de liberdade, a cidade era menor, os jovens eram muito mais família. O que a gente ver na atualidade, é que os jovens estão um pouco perdidos. Vão crescendo sem opção e se envolvem com drogas, se vê jovem bebendo bastante. Mesmo assim, acho Guajará Mirim uma cidade um pouco calma em relação as demais cidades de Rondônia. Meu sonho ainda, é que esses jovens tenham uma nova alternativa de vida, para que, daqui a uns vinte, trinta anos a gente possa ter uma sociedade mais digna em Guajará Mirim.


Zk – Fale sobre sua trajetória como funcionária pública?

Tereza Chama - Foi assim! Comecei em 1970 como professora hora aula. Em 1978 fui contratada como professora do quadro federal, sempre dei aula de ciências, química, física e biologia. Paralelo a isso me dedicava a pesquisa, tinha meus grupos de danças folclóricas. Uma coisa que nunca aceitei na época foi ser diretora de escola, porém, em 90, eu já queria ser diretora de escola mais não podia, porque não tinha uma titulação. Nunca me importei em ter um título universitário, devido ao fato de sempre estar fazendo curso de especialização. Quando foi em noventa eu disse, não, agora vou fazer faculdade e graças a Deus passei no vestibular, fiz minha faculdade me formei pedagoga e hoje vejo que não quero mais ser diretora de escola. Há um ano, sou professora federal aposentada e agora quero ser professora universitária. Além disso, desde 1981 sempre ocupei cargo de confiança, fui Diretora de Patrimônio em 83, 84, 85 e em 1987 assumi a Secretaria de Cultura Esporte e Turismo nas duas gestões do prefeito Isaac Bennesby. Na gestão do prefeito Chiquinho Nogueira fiquei mais três anos na Secretaria.


Zk – Desse tempo todo que você exerceu o cargo de Secretária de Cultura qual a ação que podemos considerar de grande relevância?

Tereza Chama – Conseguimos alguns benefícios, entre eles aquele que considero como o grande benefício, foi a preservação da história de Guajará. Tenho documentos inéditos, como a 1ª Ata da fundação de Guajará Mirim e outras aí que não vou citar. Tenho, tanto no meu arquivo particular, como no da prefeitura, umas 450 biografias de pioneiros, além da história completa sobre Guajará Mirim, sobre educação, religião, sobre muitas coisas. Isso é minha obra prima, são 38 anos trabalhando com isso. Já lancei oito compêndios e até o próximo dia 10 abril, estarei lançando meu primeiro livro com a história de Guajará Mirim completa, com biografia de pioneiros até 1950. Tem cada biografia lindíssima, que ao ler, a gente aprende cada vez mais. Sou apaixonada por isso tudo. Tenho tanta gratidão (Emocionadíssima), ao povo de Guajará Mirim, aos pioneiros, como poucas pessoas. Eu amo essa terra e tenho assim uma dor muito grande, em ver que nos últimos anos, a gente tem perdido muito em todos os sentidos.


Zk – Por exemplo?

Tereza Chama - A gente tem que ser muito clara tem que ser realista e tem que encarar certas situações de frente. Guajará Mirim precisa crescer, não adianta os políticos falarem que está tudo lindo e maravilhoso, quando a realidade não é essa. A realidade é bem diferente daquilo que se prega pelos quatro cantos da cidade. Peço que agora, nesses dois anos que ainda restam para a atual administração, que consiga desenvolver um pouco mais. A cidade de Guajará está pedindo socorro em todos os sentidos, saúde, educação, cultura, história. Sabemos que é difícil, mas, não é impossível. Para você ter idéia do descaso para com nossas coisas, constantemente levo trabalho da Divisão de Cultura para minha casa, porque nunca tive um computador a minha disposição, é por isso que digo que a cultura é vista como coisa sem importância. Eu entendo que uma cidade como Guajará Mirim tem que ter sua história, sua cultura; tem que ter sua educação, suja infra-estrutura sempre escrita para serem lembradas pelas novas gerações. Meu sonho é um dia retornar para esta cidade e novamente realizar meu trabalho.


Zk – E o que está acontecendo. Você tá indo embora de Guajará?

Tereza Chama – No momento me acho impossibilitada de realizar aquilo que sei fazer, por isso estou indo assumir uma Secretaria no município de Alto Paraíso.


Zk – Antes da sua partida vamos falar sobre o Festival de Boi-Bumbá. Você tem a ver com a sua criação?

Tereza Chama – Quando eu era Secretária de Cultura, Esporte e Turismo a gente realizava um festival folclórico na praça. Essa festa acontecia sempre no dia 22 de agosto dia do folclore. Trazíamos danças bolivianas, artesanato boliviano, musica boliviana, artesanato brasileiro, danças brasileiras e tinha os Bois.


Zk – Já eram os Bois Flor do Campo e Malhadinho?

Tereza Chama – Tinha o Boi da dona Georgina e tinha o boi da dona Gregória que se apresentavam na praça, depois de alguns anos, surgiu o boi do Léo o Malhadinho e então a dona Gregória deixou de apresentar seu boi.


Zk – Como era o boi da dona Gregória?

Tereza Chama – O boi da dona Gregória era considerado Boi de Orquestra. Ela bordava as peças do Boi uma por uma, ela tinha uma equipe muito pequena que trabalhava nisso. Após dois anos que começamos a realizar o festival na praça, o Léo colocou o boi dele e ela retirou o dela.


Zk – E festival no estilo atual quem criou?

Tereza Chama – Em determinado ano do inicio da década de noventa, a UMAM decidiu fazer seu 1° Festival Folclórico que foi denominado de FEFOPEM. Seu Adércio conversando comigo disse, professora, que tal se a senhora em vez de fazer suas festas do folclore a gente realiza o Festival Folclórico e eu respondi, não tem problema, aí ele levou para a UMAM. Não estou arrependida, foi um sucesso enorme, uma organização maravilhosa. Inclusive a festa da castanha.


Zk – Sim, cadê a festa da castanha?

Tereza Chama – Pois é, a festa da castanha foi idealizada por nós, mas, depois, surgiu o Rotary porque o Rotary Internacional da Bolívia também fazia a festa da castanha, então o Rotary tomou conta. Essa é uma forma que tenho que pensar que você cria uma coisa e se tem outro órgão ou uma entidade que quer continuar esse trabalho você tem que ceder. São dois eventos que graças a Deus deu certo. Acredito que daqui a Dez anos Guajará Mirim seja pequena demais para um evento tão grandioso como é o Festival Folclórico.


Zk – Vamos voltar a falar da sua ida para outro município?

Tereza Chama - Vou embora (por dois anos), porque não consigo realizar aquilo que eu quero. Tenho uma proposta de poder realizar isso, num município pequeno, mas que é muito rico em cultura que é o município de Alto Paraíso.


Zk – Alto Paraíso a terra do Jerico?

Tereza Chama – Exatamente! Vou assumir a Secretaria de Cultura, Esporte, Turismo e Meio Ambiente. Tô indo com muita força e vontade de trabalhar pra que esse município cresça e aí vou contar com ajuda dos meus colegas. Acredito, com toda certeza, que Guajará Mirim agora que saio, ela pense um pouquinho e quem sabe seja por minha causa que a cultura esteja parada. Quem sabe com minha saída a cultura floreça de novo aqui na cidade. Isso não diminui de jeito nenhum, o meu amor pelos pioneiros. Veja bem, pioneiros pelos quais tenho um respeito muito grande e que no meu livro, só tem agradecimentos a eles, pela beleza de espírito que eles nos legaram e que infelizmente os filhos de Guajará Mirim não estão sabendo valorizar hoje em dia.


Zk – Por tudo que você fez pela história de Guajará, já foi sondada para ser candidata a cargo político?

Tereza Chama – Já me sondaram pra ser candidata a vereadora, porém, nunca me interessei, isso não quer dizer que estou descartando a possibilidade de nas próximas eleições, eu retorne pra cá pra me candidatar.


Zk – No momento qual sua meta?

Tereza Chama – Meu objetivo é continuar trabalhando, lançar o meu livro.


Zk – Para encerrar esse nosso bate papo. A Tereza Chama é Malhadinho ou Flor do Campo? É azul ou vermelho?

Tereza Chama – Bom! Como Tereza Chama eu sou Guajará Mirim o meu coração é vermelho e azul. Mesmo estando em Alto Paraíso vou estar em contato com eles porque vou continuar fazendo parte da ONG Cidadania Ativa.

Fonte:  zekatraca@diariodaamazonia.com.br

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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