Sábado, 20 de junho de 2026 - 08h05

Nas últimas
cinco décadas, a história do atual Estado de Rondônia foi dramaticamente
moldada pelas mãos de três grandes protagonistas, todos de sólida formação
militar: Sílvio Gonçalves de Farias, Humberto da Silva Guedes e Jorge Teixeira
de Oliveira. Destes estadistas, o coronel Humberto da Silva Guedes era o único
remanescente vivo até o seu recente falecimento, ocorrido em 18 de junho, aos
extraordinários 103 anos de idade. Nomeado pelo presidente Ernesto Geisel,
Guedes governou o então Território Federal de Rondônia entre 1975 e 1979.
Embora a posteridade guarde a merecida glória de Jorge Teixeira como o
consolidador que transformou o território em estado, a verdade histórica impõe
reconhecer que a vocação de crescimento e a robustez econômica atuais seriam impossíveis
sem o excepcional trabalho estrutural e de planejamento capitaneado por Guedes
e pelo capitão Sílvio.
O
Cenário de 1975 e a Urgência do Protagonismo Estatal
Quando o
coronel carioca Humberto da Silva Guedes desembarcou em Porto Velho, em 20 de maio
de 1975, para suceder o coronel João Carlos Marques Henriques, deparou-se com
uma estrutura administrativa rudimentar, comum aos territórios federais da
época. O organograma limitava-se à figura do governador, um secretário de
governo e departamentos isolados de Educação, Saúde e Agricultura. A população
total não passava de 140 mil habitantes, distribuídos em apenas dois municípios-
a capital e Guajará-Mirim-, além de incipientes vilas ao longo do eixo da
rodovia BR-364.
Paralelamente,
a dinâmica socioeconômica fervilhava na região central devido à criação do
Projeto Integrado de Ouro Preto pelo Incra. Este ousado projeto de colonização
distribuía lotes de cem hectares para pequenos produtores rurais, impulsionando
culturas agrícolas familiares. Destacava-se o café, já amplamente dominado
pelos migrantes sulistas e capixabas, e o cacau, introduzido nas férteis terras
rondonienses pelo engenheiro agrônomo Frederico Monteiro Álvares Afonso, grande
entusiasta e introdutor da cultura cacaueira na Amazônia.
Contudo,
a ocupação acelerada gerava fricções institucionais. Enquanto o Incra assentava
as famílias nos projetos colonizadores, cabia ao governo territorial a pesada
demanda por saúde, educação, moradia, infraestrutura urbana e segurança. Por
estarem submetidas a ordens distintas vindas diretamente de Brasília - o Incra
como autarquia federal e o governo territorial vinculado ao Ministério do
Interior e ao DASP-, as duas entidades careciam de diálogo. A falta de
coordenação gerava concorrência e ineficiências graves, além de submeter as
finanças locais à aprovação anual do orçamento federal e ao crivo técnico da
Sudeco, através do Polo Amazônia. Percebendo o gargalo, Guedes, com sua
profunda visão humanista e formação intelectual, compreendeu que o governo local
precisava assumir as rédeas como o verdadeiro protagonista do desenvolvimento
regional.
A
Visão Intelectual e a Escola de Planejamento
Em 1976,
no auditório das Centrais Elétricas de Rondônia (Ceron), durante a abertura do
curso de capacitação para os técnicos governamentais, o governador expôs as
teses que vinha amadurecendo em seus escritos sobre a viabilidade
socioeconômica da transição para a categoria de estado. Guedes foi enfático ao
convocar o corpo técnico local, declarando que o amanhã equilibrado de Rondônia
dependia diretamente da inteligência e do esforço científico daqueles
profissionais. Para ele, o desenvolvimento exigia simetria econômica, espacial
e urbana, orientada pelo estudo rigoroso do histórico de outras unidades
federativas brasileiras, para que não se repetissem os mesmos erros do passado.
Sua visão
de vanguarda recusava terminantemente soluções habitacionais precárias-as
chamadas "casinhas de pombo", que visavam apenas o lucro fácil de
empreiteiros. Guedes defendia uma arquitetura vernacular, inspirada nos prédios
ingleses do início da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, devidamente adaptada ao
clima equatorial. Sua visão macroeconômica já listava, na metade daquela
década, metas que pareciam utópicas: a necessidade de um matadouro industrial,
uma usina de beneficiamento de leite, o asfaltamento definitivo da BR-364 e a
implantação da Usina Hidrelétrica de Samuel.
As
Bases Científicas: De Milton Santos ao Polonoroeste
O maior
desafio para materializar este plano residia no déficit crítico de energia e de
malha rodoviária. Guedes agiu em duas frentes. Primeiro, contratou uma
consultoria especializada para formular um amplo plano rodoviário territorial e
apoiou e conseguir viabilizar a engenharia para o aproveitamento hidrelétrico
de Samuel e Teotônio. Em segundo lugar, ciente de que a elevação de Rondônia à
categoria de estado não poderia ser um ato meramente político, mas sustentado
por indicadores financeiros reais, contratou o eminente professor Charles
Müller, da Universidade de Brasília (UnB) e sua equipe para pensar o futuro
estado.
A equipe
multidisciplinar de Müller desenhou um programa de desenvolvimento decenal,
calculando o volume exato de investimentos necessários para que o PIB local
assegurasse a autonomia da máquina administrativa estadual. Estes estudos
robustos foram fundamentais para as negociações que, em 1981, culminariam nos
recursos do Polonoroeste (Programa Integrado de Desenvolvimento do Noroeste do
Brasil), megaprojeto financiado pelo Banco Mundial que viabilizou o
asfaltamento Cuiabá–Porto Velho e a consolidação definitiva da fronteira
agrícola.
Internamente,
a estrutura governamental foi modernizada, extinguindo-se a antiga Secretaria
de Governo para dar lugar à Secretaria de Planejamento (Seplan). Para liderá-la,
Guedes escalou seu filho, Luiz César Auvray Guedes, um brilhante planejador com
papel crucial posterior na Embrapa. Sob a mentoria da UnB e de outros
instituições, a Seplan tornou-se um laboratório de inovações institucionais,
experimentando conceitos avançados como o orçamento participativo e a
elaboração de planos setoriais para Rondônia.
Para
organizar a malha urbana, o governo trouxe grandes nomes da inteligência
nacional: Roberto Monte-Mor e o futuro prefeito Antônio Carlos Cabral
Carpintero estruturaram a hierarquização das cidades; Paulo Magalhães desenhou
habitações adaptadas; Paulo Zimbres projetou o sistema viário de Porto Velho; e
Silvio Sawaya somou-se ao time. Por indicação de Sawaya, a Seplan contratou o
internacionalmente consagrado geógrafo Milton Santos, cujos estudos forneceram
a base teórica e espacial para a distribuição equilibrada de investimentos
públicos em saúde, educação e segurança.
Cabe
ressaltar um ato de justiça histórica: os técnicos externos atuavam na
conceituação e treinamento; a abertura real das ruas, o desbravamento e a
fundação prática de cidades como Ariqueme- a primeira cidade planejada da
região- foram executados rigorosamente pelos técnicos locais, como Jorge Elage,
José Mesch, Luiz Antônio da Costa e Silva e Sheila Bailão, entre outros.
Localidades que eram simples cruzamentos de linhas cartográficas em mapas
rústicos, como Mirante da Serra, nasceram sob o rigor do equilíbrio econômico e
espacial determinado por esta equipe local.
O
Legado de uma Dívida Histórica
O fruto
desse ecossistema técnico foi tão duradouro que permitiu a Rondônia conceber,
anos mais tarde, por meio de sua própria inteligência técnica, o pioneiro
Zoneamento Socioeconômico e Ecológico (ZSEE) e o Planafloro (Plano Agropecuário
e Florestal de Rondônia), referências globais de harmonização entre a produção
agropecuária e a conservação do bioma amazônico.
Hoje,
Rondônia colhe os louros de uma expansão vigorosa do seu Produto Interno Bruto
(PIB), exibindo um dinamismo econômico e um equilíbrio de rede urbana que
guardam estreita analogia com o papel histórico desempenhado pelo estado do
Paraná no desenvolvimento do Sul do país. É um estado singular na Federação em
termos de estabilidade territorial e horizontes de futuro. Embora o suor de
milhares de bravos migrantes explique esta riqueza, a planta arquitetônica e a
segurança jurídica deste progresso foram desenhadas pelo cérebro do coronel
Humberto da Silva Guedes. A ausência de um amplo reconhecimento público à sua
estatura de estadista representa uma enorme dívida de gratidão que o Estado de
Rondônia possui com um dos principais construtores de sua grandeza
contemporânea.
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