Porto Velho (RO) domingo, 22 de julho de 2018
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Gente de Opinião

Silas Rosa

As doenças meningocócicas (I)


Silas A. Rosa (*)

Neisseria meningitidis, também conhecida simplesmente como meningococo, é uma bactéria causadora de doenças terríveis, entre as quais as mais importantes é a meningite meningocócica e a meningococcemia. Pode ainda causar miocardite, pericardite, pneumonia, conjuntivite e outras patologias. A meningite meningocócica está entre as formas mais graves de meningite. Nas melhores condições de assistência mata 10% (no Brasil esta letalidade é, mais ou menos o dobro) e deixa muitos mutilados, com problemas neurológicos, comosurdez, paralisias e distúrbios sensoriais. A meningococcemia é muito mais grave que a meningite e corresponde a um acometimento generalizado, com a disseminação da bactéria pelo sangue. Ambas as formas de doença levam a morte em poucas horas, se o diagnóstico não for rapidamente feito e o tratamento correto não for instalado prontamente. Muitas vezes, apesar do pronto atendimento e da terapêutica correta o resultado é o óbito.

A doença ocorre em dois comportamentos epidemiológicos diferentes: na forma de endemia ou na forma de epidemia. Uma doença é endêmica quando ela apresenta um comportamento regular ao longo do tempo com o acometimento de um número de pessoas em qualquer tempo que não varia muito, flutuando em torno de uma média. Fui Pediatra no CEMETRON durante muitos anos e sempre tive crianças internadas com meningite meningocócica em número controlado, que ocupavam no máximo 5 leitos do setor de isolamento pediátrico daquele hospital. Da mesma forma, na década de 70 era Pediatrada Santa Casa de Pereira Barreto (SP), que atendia uma população bem menor que a de Porto Velho. Lá, de vez em quando tinha uma criança internada com meningite meningocócica ou, no máximo, duas. Porém de um momento para outro, em determinada época daquele decênio,esta situação mudou consideravelmente para pior e o número de crianças internadas com meningite meningocócica subiu tanto, que chegou a ultrapassar os dez leitos improvisados para isolamento. Esta situação, circunstancial, caracteriza o segundo comportamento da doença meningocócica: a epidemia.

As crianças que nascem não apresentam qualquer produto da imunidade específica própria contra qualquer patógeno em especial e isto inclui o meningococo. Toda a proteção com que o recém-nascido conta é da sua imunidade inespecífica, insuficiente, e dos anticorpos que lhe foram passados pela mãe através da placenta, ainda na sua vida intrauterina. Isto significa que um recém-nascido inicialmente não produz anticorpos, que é a forma mais eficaz de combater bactérias do tipo do meningococo. Os anticorpos maternos presentes no organismo da criança duram poucos meses, tempo em que a criança pode contar com eles. A partir daí ela fica suscetível de desenvolver doenças meningocócicas.

O meningococo não é uma bactéria muito rara entre humanos. Pelo contrário, trata-se de uma bactéria com que frequentemente entramos em contato. Alguns adultos, adolescente e crianças maiores têm meningococo em suas gargantas sem sentirem nada. São os portadores assintomáticos. Estas pessoas desenvolveram boa imunidade contra os meningococos que albergam de modo que, se um ou outro cai na corrente sanguínea, eles são imediatamente eliminados pela altaquantidade de anticorpos, sem que disso advenha qualquer doença. No entanto, estas pessoas representam uma fonte de contaminação para as crianças que ainda não desenvolveram esta imunidade e que podem, recebendo o patógeno desenvolver as doenças. Mais de 95% dos doentes, fora das epidemias, são crianças com menos de 1 ano de idade.

No próximo artigo falaremos das vacinas disponíveis contra esta bactéria.


(*) Silas A. Rosa é médico, formadona USP (Campus de São Paulo – Pinheiros), especialista em Pediatria, Saúde Pública e Medicina do Trabalho. É também advogado formado na UNIR. Tem Mestrado em Biologia Experimental e é professor na Faculdade de Medicina da FIMCA.
 

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