Porto Velho (RO) segunda-feira, 15 de agosto de 2022
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Serpa do Amaral

TACACÁ: a beberagem indígena que alimenta e integra


TACACÁ: a beberagem indígena que alimenta e integra - Gente de Opinião  
Mãos da Dona Darli servindo o Tacacá

Por Antônio Serpa do Amaral Filho
 

O Tacacá é um bem cultural do povo de Rondônia, especialmente da capital, Porto Velho. Se visto como um espelho, reflete na sua composição e consumo os diversos elementos étnicos que compuseram o cenário de vivência e ocupação desta banda da Amazônia Ocidental. Deve ter sido trazido pra cá por algum amazonense ou paraense, já na nascente da cidade com o desabrochar da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Hoje encontra-se incorporado ao costume alimentar dos portovelhenses.

O Tacacá foi inventado pelas tribos indígenas do Estado do Pará e, segundo Câmara Cascudo, intelectual conhecido como a Sabedoria de Pijama, deriva de um tipo de sopa aborígene denominada mani poi. Diz o sábio pesquisador da cultura popular do Brasil que “esse mani poí fez nascer os atuais tacacá, com caldo de peixe ou carne, alho, pimenta, sal, às vezes camarões secos". Hoje ele é uma beberagem apreciada por índios, beradeiros, brancos, negros, nativos e não-nativos de Rondônia. Ele é um ponto de encontro multirracial.

TACACÁ: a beberagem indígena que alimenta e integra - Gente de Opinião

jovem toman do Tacacá na banca da Dona Darli

Na Porto Velho de antigamente, beber Tacacá era participar de um momento de lazer e boa prosa. As velhas tacacazeiras eram as primeiras a puxar conversa. Nos bairros da provinciana capital algumas tacacazeiras marcaram época e se tornaram verdadeiras lendas na memória do povo. Dona Mirta, ou Mita, é uma delas. Negra simpática e comunicativa, era amada e reverenciada por muitos como uma das melhores fazedeiras da beberangem na antiga capital do Território Federal de Rondônia. Dona Chiquinha era outra figura emblemática desse universo tacacazeiro. Dona Marieta, mãe do Bainha, cuja banca ficava ali na Sete de Setembro, no início do Bairro do Quilômetro Um, também deixou marcas nas lembranças dos apreciadores do Tacacá. O Tacacá da Dona Isaura virou “Tacacá da Loura”. A guloseima regional é multiétnico: o Tacacá nasceu índio, passou ao domínio das negras e agora é vendido por uma galega, possivelmente de sangue alemão! A banca de Tacacá da Dona Inês, na confluência das ruas Tenreiro Aranha com Dom Pedro II, comemora 50 anos de existência. No quadrilátero da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, Miguel serveu o seu famoso Tacacá de Rondônia, onde cada cuia é uma história, temperado com os fins de tarde à beira do rio Madeira.

Hoje, no centro da cidade, mais precisamente na confluência das ruas Gonçalves Dias e Barão do Rio Branco, vê-se a banca de Tacacá de Dona Darli. Ela é de uma geração de tacacazeiras que estã entre as antigas e as novas vendedoras dessa iguaria amazônida. Com seus 27 anos de banca naquela esquina, Dona Darli hoje é uma das grandes expoentes dessa nossa cultura alimentar. O Tacacá é uma fonte de renda que lhe ajudou a criar os filhos e com a qual ela se manté até hoje. Seu Tacacá é considerado um dos melhores da cidade. No seu corpo percebe-se as marcas deixadas pelo tempo, na luta para oferecer diuturnamente, por anos a fio, essa composição de goma, tucupi, camarão e jambu aos seus fregueses.

Mas o Tacacá não tem só a ver com o sabor da culinária regional, também está ligado ao baú de memória das gerações que cresceram com a cidade e trouxeram ao mundo seus filhos para viverem nessa mesma cidade que é Porto Velho. Na trajetória do trem da vida foram se sucedendo as gerações de tomadores e vendedoras de Tacacá, numa cumplicidade pacífica e silenciosa, simbólica e afetiva. Essa relação tornou-se frutífera no tempo e no espaço geográfico da suburbana Porto Velho. Resultado: alguém tem sempre a lembrança de uma tacacazeira no espelho da mente, quando assuntado a respeito dessas lendárias senhoras dos tempos idos, e do presente também. Essas lembranças permeiam sentimentos, silhuetas de momentos e resíduos mnemônicos das condições materiais e imateriais de uma época. Da tacacazeira lembra-se não apenas o nome, mas o rosto, o corpo, falares, fregueses, locais, tomadores de tacacá, pessoas, costumes, fofocas, benfasejos e malfasejos, potocas, causos e aspirações fracassadas ou bem sucedidas. O Tacacá, nos antigamentes, era um ponto de encontro das humanidades desfiadas ao redor da cuia. Possivelmente centário, o Tacacá será formalmente apresentado ao Legislativo Municipal, através do vereador José Wildes, pela Associação Cultural Rio Madeira, para que seja reconhecido em lei como um patrimônio cultural gastronômico do povo de Rondônia.

Fotos: Basinho

 

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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