Sábado, 28 de novembro de 2009 - 18h17
Meio de transporte de pobre leva e trás colonos sob sol e chuva, na fronteira brasileira com o Peru.
MONTEZUMA CRUZ
Agência Amazônia
Feliz é a Nação cujo Deus é o Senhor – está escrito na cobertura do caminhãozinho pau-de-arara intitulado O verdinho da BR-364
Esse sistema de transporte muito comum no nordeste brasileiro nos anos 1950 a 1960 sobrevive em cidades do Estado do Acre. É utilizado, sob sol e chuva, por famílias de seringueiros, pequenos agricultores e castanheiros lá das bandas fronteiriças ao Peru.
Nordestinos daquelas décadas sofriam nas longas distâncias, acomodando-se em bancos duros. Atravessavam estados, levando famílias inteiras recrutadas para as obras de construção civil em São Paulo e no Rio de Janeiro. Hoje, viajam sentados em bancos de madeira com almofadas ou no chão, no percurso entre vilas e cidades.
O pau-de-arara chegou a ser considerado um transporte irregular. Melhorou, pelo menos no Acre.
Na beira do Rio Juruá, em Cruzeiro do Sul, a cerca de 700 quilômetros de Rio Branco, populares costumam se reunir para assistir embarque e desembarque de colonos. Eles viajam por longas extensões de ramais (nome dado às estradas vicinais acreanas), de suas casas à cidade e vice-versa. O pau-de-arara leva crianças, adultos, gêneros alimentícios e animais. O custo da corrida varia, a partir de R$ 5. O serviço é semelhante ao de um ônibus circular, ou seja, o motorista pára nos pontos indicados pelos passageiros.
Por que pau-de-arara? Câmara Cascudo, o maior folclorista brasileiro, lembra que o termo designa uma vara utilizada no interior do País para o transporte de araras, papagaios e outros pássaros. No entanto, ele explica, o termo migrou para designar o meio de transporte improvisado em razão da algazarra feita pelas aves, similar à dos passageiros que usam tal veículo, em precário arranjo, promiscuidade e desasseio.
Um pouco de poesia. Agripina Rugiero escreve:
Pau-de-arara
De vidas partidas
mulheres sofridas,
lá do nordeste.
Caatinga tão rala
sem roupa na mala,
pau-de-arara chegou.
A procura da sorte,
quem sabe da morte,
na obra encontrou.
Fazendo o metrô,
de brigas pivô,
a vida esbarrou.
Mulher de barriga
na fome e na intriga,
a família parou.
E do edifício tão alto,
o sapato sem salto
escorregou.
E no pau-de-arara,
sua mala sem roupa,
pro nordeste voltou.
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