Porto Velho (RO) terça-feira, 22 de outubro de 2019
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Montezuma Cruz

Interventor que até deu aulas no Carmela Dutra alvoroçou Porto Velho ao prender mais de 20 notáveis em 1964


Interventor que até deu aulas no Carmela Dutra alvoroçou Porto Velho ao prender mais de 20 notáveis em 1964 - Gente de Opinião

Dias depois do seu discreto desembarque de um voo procedente de Manaus (AM), o capitão de engenharia do Exército Anachreonte Coury Gomes mandou prender diversos notáveis da então pacata Porto Velho.

Na primeira tacada foram 20 pessoas que se manifestariam opositoras ao regime militar instaurado no País no dia 1º de abril de 1964.

“Ele agiu com arrogância e arbitrariamente, pois o governador que viria assumir o cargo era o tenente-coronel José Manoel Lutz da Cunha e Menezes, e estava nomeado desde 24 de abril pelo presidente Humberto de Alencar Castelo Branco”, avalia o professor e historiador Abnael Machado de Lima.

Anachreonte nem reconhecera as dificuldades enfrentadas no exercício do cargo por ex-governadores do Território Federal de Rondônia, entre os quais os tenentes-coronéis Paulo Eugênio Pinto Guedes e Abelardo de Alvarenga Mafra, este, duas vezes governador. Paulo Guedes, por exemplo, com créditos cortados pelo comércio, pediu exoneração [matéria no próximo capítulo].

Com a exoneração do governador Alvarenga Mafra, que ocupara duas vezes o cargo, o secretário geral* do Território Eudes Campomizzi Filho assumiu interinamente, mas Anachreonte o expulsou do Palácio Presidente Vargas. Eudes havia sido prestigiado por Mafra e tinha total conhecimento da realidade rondoniense.

Nem juiz de direito foi poupado nos dias cinzentos entre o final de março e início de abril de 1964 no Território Federal de Rondônia. Segundo consta na Memória do Judiciário de Rondônia, mesmo com expressiva produção de sentenças e despachos, o que fazia com rapidez, sem se desdobrar a interesses políticos, o juiz de direito da Vara Cível Joel Quaresma de Moura foi compulsoriamente aposentado pelo Ato Institucional nº 5.


 

“Sou agente da Revolução”, foi logo dizendo o capitão ao subir a escada até o 1º andar. No gabinete, depois de alguns dias de passeio e de conversas na cidade, o oficial que até então se mantinha incógnito, mandou prender pessoas, especialmente líderes políticos, estudantis, e servidores públicos.

Somente em seis de maio de 1964 o presidente Humberto de Alencar Castelo Branco assinava e fazia publicar o Ato Institucional constituindo a Comissão Geral de Investigações (CGI). Ou seja, mais de um mês depois das prisões decretadas por Anachreonte. A Comissão teve amparo no primeiro Ato Institucional.

Ânimos agitados entre servidores e muita fofoca nos mercados públicos de Porto Velho decorriam não apenas das prisões, mas do comportamento do capitão, que passou a ser observado mais de perto. Durante o dia ele investigava a vida das pessoas, à noite se dava a encontros festivos. Um funcionário antigo do governo territorial conta que  o soldado conhecido por Sebastião fazia serestas para ele na casa onde se hospedara.



Anachreonte não quis no palácio o então secretário geral e governador interino, obrigando-o a se declarar impedido de permanecer no cargo. “Fique doente, pegue uma gripe qualquer, tire atestado de saúde, mas adoeça”, teria sido sua ordem a Eudes Campomizzi”, menciona o historiador Francisco Matias.

Embora não exista só cópia desse atestado de saúde, muito menos do decreto de afastamento, o capitão intitulou-se interventor, ocupando o palácio às 21h do dia 23 de abril de 1964.

“Entre os antigos há quem diga que Anachreonte, homem invisível, viera de Manaus com ordens para fazer o que fez, ou que só aqui, onde teria vindo como pagador do Exército recebera determinação de agir”, diz o jornalista Lúcio Albuquerque. “O capitão pode ter chegado no sábado (28 de março), observando tudo até terça-feira (31), por isso, ninguém prestou atenção nele”, analisa.

No início da noite de 31 de março, o homem que ninguém sabia quem era e nem o que estava fazendo chegou à redação do jornal Alto Madeira, na Rua Barão do Rio Branco, em frente à Praça Jônathas Pedrosa.

 

“Eu estava na porta, Anachreonte deu boa-noite, perguntou se era ali o jornal, e puxou conversa; quis saber a respeito do deputado federal Almino Afonso (PTB-AM), líder do partido na Câmara, e eu disse a ele que o Almino foi garoto criado aqui entre nós, seu pai foi prefeito”, conta o jornalista Euro Tourinho, hoje com 97 anos.

Alfonso, nascido em Calama, fora ministro do Trabalho do presidente João Goulart. O capitão também quis saber sobre o deputado federal Renato Borralho de Medeiros (PSP-RO), que seria depois preso em Porto Velho e cassado pelo AI 1.

Luiz Tourinho, segundo relata Albuquerque, dizia que Anachreonte era “uma espécie de oficial pagador do Exército”, que voava em avião da Força Aérea Brasileira para vir a Porto Velho,  Guajará-Mirim e Forte Príncipe da Beira fazer pagamentos nos quartéis.

 

“NINGUÉM ENTRA”


“Ele se apresentou: Capitão Anachreonte, da Arma da Engenharia, vindo de Manaus, onde servia no 27º Batalhão de Caçadores. Em seguida, falou de sua missão, perguntou se poderia entrar e usar a sala do diretor para uma reunião, eu consenti”, prossegue Euro.

Instantes depois, conforme relata Euro, chegava o diretor superintendente Luiz Tourinho. “Foi quando ele convidou meu irmão para ir com ele a alguns locais da cidade. Mais tarde houve uma reunião, e nela anunciou sua condição de interventor, destituiu o governo, foi à Prefeitura, onde pegou as chaves do prédio e deu ordem para ninguém entrar”.

Uma simples nota publicada no jornal Alto Madeira divulgava a formação do seu gabinete constituído por partidários do PTB, partido do Presidente deposto.

Ainda naquela noite de 23 de abril o interventor nomeava os membros do novo governo: empresário Luiz Tourinho (Comunicação), Dorival de Souza França (chefe de gabinete), Eduardo Lima e Silva (comandante da Guarda Territorial), tenente do Exército Orlando Freire (Delegado de Polícia da Capital), professor Lourival Chagas da Silva (Secretário de Educação), médico Calmon Viana Tabosa (Secretário de Obras), Mário de Almeida Lima (Secretário Geral e de administração), médico Elias Gorayeb (Secretário de Segurança Pública), médico Rubens Cantanhede (Chefe do Serviço de Geografia e Estatística), e Hayden Couto (Chefe do Serviço de Navegação do Guaporé).

Prefeitos nomeados pelo capitão: Hamilton Raulino Gondim, médico (Porto Velho), e Clementino Gomes Pinheiro Castelo Branco, comerciante (Guajará-Mirim). Prefeitos destituídos dos cargos eram filiados ao PSP, partido fundado pelo ex-governador de São Paulo Adhemar Pereira de Barros, apoiador em primeira hora do golpe militar.