Sábado, 18 de janeiro de 2020 - 11h00

Num dia, o presidente da república faz desbragados elogios ao seu secretário nacional (cargo equivalente ao de ministro) da cultura e garante que ele, finalmente, vai iniciar uma verdadeira política cultural no Brasil, destinada aos conservadores e religiosos, que constituem a maioria da população do país, e não a uma minoria esquerdista.
No dia seguinte, relutantemente, acuado e sem alternativa, o presidente é obrigado a demitir o auxiliar que tanto prestigiara, sem assumir a responsabilidade pela escolha, sem sequer receber o cidadão que, na véspera, levara ao Palácio do Planalto para apresentá-lo pessoalmente à sociedade com um ar de confiança e de triunfo.
A culminação do grotesco, triste e revoltante episódio, repudiado unanimemente pelos que se manifestaram publicamente a respeito, no Brasil e pelo mundo, humilhou o país junto à comunidade internacional e materializou uma opção explícita ao nazifascismo que nem no Estado Novo, sob a ditadura de Getúlio Vargas, no fragor da radicalização ideológica entre diversas formas de fascismo e de democracia entre a primeira e a segunda guerra mundial,, se expressou com tal desenvoltura.
Os pró-Alemanha de então tinham, ao menos, o ligeiro e superficial atenuante de que a feição real do nazismo de Hitler ainda era pouco conhecida. O extermínio dos judeus, num dos mais tnebrosos momentos da história da humanidade, não se revelara ainda.
O pronunciamento de Roberto Alvim, com a cenografia da propaganda totalitária e a linguagem do autoritarismo ensandecido, além de tudo primário e ignorante, deve ter feito muita gente se perguntar: de que esgoto saiu esse rato? De que caverna surgiu esse ser antediluviano? Que restos de gente Jair Bolsonaro revolve no lixo humano para lhe dar o status de autoridade pública? Quais gangues e quadrilhas está reativando com seu poderoso endosso?
De um governo que tem como ideólogo uma pessoa como Olavo de Carvalho, independentemente do que pensa, incapaz de ser levado a sério pelo que diz, tão disparatado que só quem não leu os textos dos autores que ele cita levianamente, como se proferisse anátemas inquisitoriais ou editos reais, não se pode esperar nada de aproveitável (ou recuperável) em matéria de cultura, liberdade, criatividade, pluralidade e diversidade. Nada mesmo.
O ex-capitão Jair Messias Bolsonaro ganhou legalmente e legitimamente a eleição de 2018 e merecia tomar posse, implantando o seu governo, conservador ou mesmo de direita. Mas não tinha o direito de escarnecer a nação, envergonhar o povo brasileiro e deixxando-o num vácuo de significado e de expressão.
Bolsonaro colocou o Brasil de luto.
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