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Marli Gonçalves

Trajetória de uma equilibrista


Trajetória de uma equilibrista - Gente de Opinião

Ando especialmente emotiva, mantendo humor e otimismo a todo custo. Preciso perguntar: você também tem tido de vez em quando a angústia de ter acreditado que não veria mais momentos tão estranhos, tantas barbaridades? Uma tristeza, certo desânimo? Cansaço? Surpresa? Normal. Equilibre-se, vale a pena manter a trajetória.

As batalhas vencidas dia após dia, o tempo, tanta coisa para contar, tantas histórias que acho até engraçado o número de pessoas que me pedem que as reúna em um livro, olha só! Tremor de terra para as mais picantes! Brincadeira...! Gosto de contá-las, algumas por aqui nos artigos semanais, outras relembrando quando encontro pessoas queridas, que testemunharam a mesma época. Passagens que é bom ter quem possa confirmá-las – e que não me faltaram nunca, até melhoraram os relatos, embora infelizmente muitas agora já nem mais estejam por aqui, embora sempre vivíssimas nos pensamentos.

Tem quem até hoje ainda me rotule como “exótica”; sorrio, em dúvida - estranho se isso é bom ou mal. Desde muito cedo vivo em todos os mundos, dos mais austeros aos mais loucos e interessantes, convivendo com pessoas de todas as classes, categorias, gêneros, profissões. Creio que esta seja uma das minhas maiores riquezas. Na imprensa há 50 anos, no feminismo com mulheres incríveis, na política, na arte, convivendo com artistas, pintores, fotógrafos, escritores, atores e atrizes, gente da moda, criadores, toda a geração. Nos amores. Já fui da vida noturna, não mais, mas da vida mundana trago gente mais do que especial, até divinas divas, brilhantes. Fico feliz que hoje se espalhem mais livres e aceitas. Muita coisa não era assim – menos caretice agora, ufa!

Não é nostalgia. Talvez seja um pouco de utopia de não querer mais tantas guerras terríveis e sem noção. Chorar quieta todos os dias com as notícias de incontroláveis e incontáveis feminicídios, saber – pior, ter sentido na pele em plena juventude - o que é ou foi o sofrimento dessas mulheres. Agradecer por ter sobrevivido. Brinco sempre que sou de circo, me equilibrando no trapézio da vida. Aguentando firme. Meio palhaça.

Esta semana serei homenageada, uma honra, vejam só, por um grupo pelo qual tenho verdadeira paixão, gerações do Jornal da Tarde, o inesquecível jornal do Grupo Estado que acabou em 2012, mas manteve a união de muitos de seus jornalistas – nos reunimos todo ano em um almoço. Resolvi, cedo, ser jornalista, e sonhando ser de lá, onde estive por cinco anos, e de onde sai há 40 anos. Parece que foi ontem. O histórico fotógrafo Reginaldo Manente será outro homenageado.

Tudo isso mexe muito com a memória. Ver a lista de presença e recordar de cada um e uma desses grandes jornalistas. Relembrar as matérias, festejar as amizades sinceras, a vida, as quedas e levantadas. Perceber que valeu muito a pena ter me mantido na minha linha, me equilibrando. Na batalha, por mais dura que seja; ou que já tenha sido.

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MARLI GONÇALVES – Jornalista, cronista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano, Coleção Cotidiano, Editora Contexto. (Na Editora e na Amazon). Vive em São Paulo, Capital. marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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