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Marli Gonçalves

"Queria ser uma mosquinha"...


"Queria ser uma mosquinha"... - Gente de Opinião

Tem horas que adoraria ser uma mosquinha para poder ver e ouvir o que exatamente rola, acontece – ou aconteceu, e de onde só saiu algum resumo muito resumidinho - em algumas salas e reuniões, certos lugares. Descobriria muita coisa, creio que até bem divertida, com toda a minha curiosidade e, claro, experiência onde buscar os fatos.

Aproveitando o clima de Carnaval, de fantasias e devaneios, voltou uma vontade constante que, como pessoa curiosa que sou, sempre, e que gosta de saber como as coisas ocorreram no original, de virar uma mosquinha infiltrada. Olha a fantasia. Não uma mosquinha qualquer, mas uma bem bonitinha, bem apessoada, equipada até com uma luzinha led no bumbum, que aproveitaria para ler documentos, como um vagalume. Não sei se sabem, mas no geral odeio insetos, tenho alergia a picadas e alguns a mim parece que surgem só para nos infernizar, listando aí os cupins no verão e a invasão de formiguinhas domésticas. Só outro dia descobri que essas danadas mais comuns foram nomeadas, talvez mesmo em tempos carnavalescos, sabia? Formiga-Fantasma (aquela quase transparente, só a cabecinha preta, minúscula, perturba, coça e você não acha). Formiga-louca (anda em círculos), Formiga-faraó (será que elas sambam ao som de Ivete Sangalo?). Formiga-carpinteira. Formiga-argentina! (essa não tem humildade). Formiga-caseira-malcheirosa (bem, essa não foi nomeada, foi xingada). Enfim, pode ver que tem alguma dessas aí, perto de você, te olhando. Ou sacaneando.

Acho que muitos insetos, tipo Aedes e baratas, servem só para infernizar nossa vida, embora até entenda que muitos têm funções, digamos “sociais”. Considero especiais bem poucos, como os vagalumes, as joaninhas, as abelhas, os louva-a-Deus, entre eles. Mas, no meu caso, como mosquinha, que são mais comuns e passam batido, estaria melhor disfarçada e poderia voar até para entrar em gavetas e armários do Poder e que a cada dia parecem guardar mais segredos.

Vê se não concorda: consegue imaginar exatamente o clima de como foi de verdade a reunião dos ministros no Supremo Tribunal Federal, STF, que resolveu, digamos, pedir “gentil e delicadamente”, como estão fazendo supor, ao Ministro Dias Toffoli que se afastasse do cargo de relator no caso do Banco Master, e que a cada dia ferve mais, e com ele na panela?

E lá na Papudinha? Digam sinceramente se não têm curiosidade de saber o que o ex-presidente faz o dia inteiro. Claro, isso quando não está recebendo alguma visita para conspirar. Não sei se lá ainda recebe todas as refeições de fora, temo que com medo de ser envenenado. Ler, que é bom para diminuir a pena, acho difícil. Também fiquei pensando se soltou algum rojãozinho especial ao saber que foi o seu ministro terrivelmente evangélico André Mendonça o sorteado para substituir Dias Toffoli. Esse ano eleitoral realmente vai ser um estouro, os conluios a mil. Como mosquinha poderia saber bem mais para contar a vocês, de tramoias, acordos, conversas, traições, conluios, preços.

Mas mosquinhas também voam pelo mundo, e minha curiosidade se estenderia a pousar no ombro do Trump e do Putin, zumbindo em suas orelhas de vez em quando, esperando até quando todos vamos assistir seus assombros. Imaginam eles na intimidade?

Brincadeiras à parte, é Carnaval. Quando menina pensava só em me fantasiar de havaiana, que sempre achei bonitinho balançar a sainha de palha. Tanto que coleciono aquelas bonecas de havaianinhas que dançam com a luz solar. Mas fazer o quê? A gente cresce, vira jornalista, e tenta de todas as formas descobrir as coisas, na fonte, informar, contar o que acontece e o que pode causar.

Nada melhor mesmo do que ser uma mosquinha. E voar das raquetadas se descoberta.

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- MARLI GONÇALVES – Jornalista, cronista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano, Coleção Cotidiano, Editora Contexto. (Na Editora e na Amazon). Vive em São Paulo, Capital. marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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