Sábado, 21 de fevereiro de 2026 - 08h00

O juiz
populariza ainda mais a expressão penduricalhos. O presidente sacode os
balangandãs dele e chegam notícias sambadas de todos os cantos. O país do
Carnaval é mesmo uma maravilha. Além de agora festejarmos o pré, o próprio e o
pós, todos os blocos se mantêm alinhados, incluindo a política, a Justiça. E as
lambanças que se estenderão durante o ano.
Aqui é mesmo Carnaval o
tempo inteiro. Sacode. É visível a alegria dos jornalistas noticiando o breque
aos penduricalhos dos poderes, incluindo o Judiciário, nas últimas sentenças do
ministro Flávio Dino, uma das novidades mais recentes do STF (instituição que
cada vez mais não nos falta como fonte de notícias). Uma das primeiras vezes
que eu me lembre que o “juridiquês” é claro como água. Todo mundo entende, já
sabia, está adorando ver expostos os ganhos adicionais de castas, que
ultrapassam qualquer limite do razoável: os penduricalhos, assim descritos.
Quem os defende, quem ganha, quanto ganha, como ganha, quem os inventa,
auxílio-peru, auxílio panetone, licenças-prêmio, ajudas quase divinas que nem
comprovar conseguem.
Flávio Dino realmente
tem um perfil diferenciado. Haroldo Lima, que a pandemia matou em 2021, um dos
meus maiores e antigos amigos, ex-guerrilheiro, ex-deputado constituinte, entre
tudo o mais que viveu, sempre me dizia que Dino era especialmente inteligente,
e o que é melhor, com humor, como o descrevia contando suas histórias. Haroldo
convivia direto com ele, era dirigente do PCdoB, partido ao qual o ministro
pertenceu durante anos. Agora vejo o quanto Haroldo tinha razão. Dino animou
ainda mais o nosso Carnaval.
Mas não foi o único.
Lula se superou na Avenida, beijando, na Sapucaí, um a um, os pavilhões de
todas as escolas do dia que a Acadêmicos de Niterói o homenageava com o desfile
e samba-enredo do qual ouviremos certamente falar durante muito tempo e até
depois das eleições presidenciais previstas para outubro. Tentava mostrar
imparcialidade. Desceu várias vezes à Avenida, creio até que um pouco para
fugir do mau humor da primeira dama, Janja, que chegou toda pronta para
desfilar, mas foi convencida de que não deveria para não piorar ainda mais a
situação, e como se isso fosse possível àquela altura. Uma breve leitura do
samba-enredo, que dificilmente não passou pelo crivo do Planalto, deixa
qualquer um com dificuldade de defender que aquilo não foi uma forma de
propaganda. Com um “quase” de oficial.
Uma trapalhada evitável
– ou ao menos poderia ter sido melhor disfarçada - que juntou alas e alas de
ode ao líder que, segundo o enredo, só fez o bem, nunca teve problemas ou
questionamentos; aliás, nem preso foi. Censurar, jamais, mas que a puxada e a
deselegância de tratamento de alguns temas foram excessivas não há como negar.
Não era um bloco despojado desfilando por aí com eleitores e foliões travessos;
naquele momento era uma Escola do Grupo Especial, que acabou, ainda por cima,
despencando de novo, rebaixada, para gáudio (mais um) dado de graça aos
opositores. Que inclusive se ofendem por muito menos.
Bem, dizem que é agora
que o ano começa, embora há muito isso não seja mais verdade, e este já se
mostra bem animado e perigoso. Nós, que não ganhamos penduricalhos, vamos
continuar sambando, balançando nossos balangandãs por aí.
- PS: Tive o prazer de
ser a autora dos textos do maravilhoso livro de pesquisa e imagens da fotógrafa
Catherine Krulik, Carnavais do Brasil, da Grão Editora, 2010, trilingue. Lá dá
para ver a beleza de todos os carnavais que festejamos. Que não são poucos.
_________________________
- MARLI GONÇALVES –
Jornalista, cronista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo,
autora de Feminismo no Cotidiano, Coleção Cotidiano, Editora Contexto. (Na
Editora e na Amazon). Vive em São Paulo, Capital. marligo@uol.com.br /
marli@brickmann.com.br
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