Sábado, 7 de março de 2026 - 08h03

Levantam uma pontinha do tapete e de lá saem
cobras, lagartos, fura-olhos, mindinhos e traições, escancarando casos,
revelando personagens. O poder do dinheiro que a tudo ocultava some, e aí, meu
amigo, o tapete voa deixando totalmente descobertos bumbuns de todos os lados.
Todos. Inclusive da imprensa.
Não vai demorar inventam um novo símbolo igual a aqueles
dos macaquinhos que não veem, não ouvem, não falam. Poderia ser o quê? Qual
bicho no celular? Seria símbolo de “não faça sexo virtual”, “não registre
picaretagens”, “não guarde conversas com quem suborna”, “não conte vantagens à
namorada”. Aproveitando, a dica: também não adianta jogar celulares pela janela
que podem cair na cabeça de alguém e esses novos aparelhos de gente rica
aguentam pancadas, quedas e mergulhos. A polícia remonta.
Fosse só o tapete que levanta a poeira. Só não apareceram,
ao menos ainda nesse caso de agora, aqueles óculos que gravam tudo. Os
celulares estão aí, apreendidos e sendo desbloqueados, revirados, mensagens
reveladas, saborosas, algumas íntimas de verdade, outras mostrando intimidades,
indiscrições, conversas interessantíssimas, confabulações que acabam de alguma
forma explicando porque a situação chegou ao ponto desses tantos bilhões neste
escândalo que ainda vai longe, e em todas as direções. No caso que acompanhamos
agora do Daniel Vorcaro e seu banco de papel não se pode nem chamar exatamente
de flagrante, era crime continuado.
Daqui, acostumada à cobertura das CPIs, parece que estou
até vendo a corrida dos jornalistas para acessar o vazamento da documentação
entregue aos deputados da Comissão que as obteve. Todo dia, mais um, dado a
alguém por alguém, disso tenha certeza. Leio em algum lugar que os deputados
estão chocados com as mensagens íntimas entre Vorcaro e a namorada, com quem
agora vemos que conversava mesmo bastante pelo zap, e não só sobre amor. Essas
mensagens mais quentes devem estar sendo saboreadas nos gabinetes. Não deveriam
legalmente estar no rol das investigações porque não teriam nada a ver com
elas, mas quem é que as protegeu?
Embora estejamos agora sabendo de trechos importantes –
justamente por muitas destas conversas estarem formal e legalmente descritas no
mandato de nova prisão do ex-banqueiro emitido pelo ministro André Mendonça, do
STF –, provas até de ordens de violência contra jornalistas e outras pessoas,
além de apontar quem seriam os executores de tais ordens, deve ter sobrado
ainda muita coisa por fora. Que agora viram moeda de troca dos parlamentares
bonzinhos com repórteres. Friso: jornalista consegue e divulga, sem problemas.
Informação é mesmo a moeda de troca da imprensa. Função do repórter, que nunca
deve revelar suas fontes.
Ao contrário do comportamento revelado e escandaloso, do
envolvimento de alguns sites recebendo pesadas quantias – como chamar? – de
patrocínios ou me ajuda aqui, cala-te boca, vira a boca para o outro lado, etc.
Não é por menos que vergonhosamente vimos até jornalistas atacando de forma
desleal nas redes sociais a outros de grandes veículos, especialmente mulheres,
que estão bravamente dissecando o caso nos últimos tempos. Mais espantoso
ainda, pagamentos a veículos e sites até aqui considerados de esquerda,
independentes, nomes conhecidos, de jornalistas de linhagens cujos pais devem
estar se revirando nos túmulos. Tratando na boa com um ser conhecido e
apelidado Sicário (assassino, assassino de aluguel, o sentido), o intermediário
executor do jogo comandado pelo banqueiro.
Sicário que, preso, teria tentado se matar. E que há dias
não sabemos nem se conseguiu, tal desencontro de declarações. Morreu, não
morreu, morte cerebral, mentira, estado gravíssimo, olha a cobra! A dança da
quadrilha dos escrachados é mesmo animada.
_________________________
- MARLI GONÇALVES – Jornalista, cronista, consultora de
comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano, Coleção
Cotidiano, Editora Contexto. (Na Editora e na Amazon). Vive em São Paulo,
Capital. marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br
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