Sábado, 28 de fevereiro de 2026 - 08h05

Mas estamos
sendo caçadas por aí, sem dó. Chega. Somos muitas, somos mais, e muito mais do
que histórias logo esquecidas no dia seguinte, que viram meros e cada vez mais
assustadores números, condolências, providências nunca tomadas, famílias
destroçadas e futuros comprometidos.
Nós, mulheres,
adoraríamos, lógico, comemorar o agora tão decantado Dia Internacional da
Mulher, que marca e homenageia lutas históricas de nossas antepassadas. Elas
também sofreram, morreram, se sacrificaram por um ideal, por respeito, por
orgulho, por direitos. Mas isso é impossível enquanto fazem do 8 de Março quase
que apenas uma doce, florida, perfumada, absurda e melosa data comercial,
enquanto em nosso país vivemos um momento entre os mais sérios com uma onda sem
precedente de feminicídios.
Nas ruas, nas casas, à
luz do dia, no trabalho, todos os dias mulheres são caçadas, perseguidas,
mutiladas, feridas ou executadas por malditos. Porque ousaram. Disseram Não.
Basta. Chega. Não quero. Porque resolveram se libertar; enfim, viver, e isso as
faz alvo. Porque há homens que pensam que são nossos donos, e de nossas vidas,
corpos – de nossas carnes que, por não poderem mais desejar, querem ver
sangrando, extirpadas; nossos rostos mutilados, pedaços espalhados na memória
de quem os encontra. Como se para eles fosse um recado a todas, e eles os
heróis, mesmo que se matem ou sejam presos. Imaginam que gritam em nossos
ouvidos: recuem, se submetam a nós, nos sirvam, somos protegidos pela lentidão
da Justiça.
Tais malditos caçadores
estão em todos os lugares, classes sociais, profissões, como um Exército do
Mal. Não respeitam idade, submetem como se normal fosse, até as crianças. O
assédio diário atinge a todas, sem distinção, não há nenhuma mulher capaz de
negar isso, vivendo o medo e a insegurança. O problema é que a cada dia os
malditos perdem mais a vergonha, armados, muitos sob o beneplácito das
autoridades, coroados literalmente como caçadores, CACs, vejam só que ironia.
Em compensação, imaginando-se indomáveis, desprezam, quando recebem, sempre
tardiamente, o aviso da medida protetiva. Não são adornados por tornozeleiras,
porque estas são poucas e muitas vezes ineficazes, rompidas, ou com a prometida
chegada de socorro chegando atrasada.
Não, isso não é de
agora. Claro que não. Agora o problema se torna, sim, mais visível, ganhou
nome: feminicídio. Primeiro nos rotularam de “sexo frágil”. Há pelo menos mais
de 50 anos nessa luta por direitos, me vejo repetindo essa dolorosa cantilena.
O caso internacional volta à tona, do milionário americano predador sexual,
Jeffrey Epstein. Balança o mundo, desmascara nobres, ministros, atormenta
presidentes, ex-presidentes. O fantasma do predador (suicida, ou assassinado,
na prisão em 2019) nos mostra mais um lado dessa miserável caça que já destruiu
tantas vidas, marcou tantas jovens e suas famílias. O dinheiro que a tudo
acoberta.
Aqui, pela imprensa,
vemos as fotos das vítimas (em jornalismo, chamamos de “bonecos”, ao
publicá-las, com seus perfis) que muitas delas deixaram como herança em suas redes
sociais, seus bons e felizes momentos, às vezes até ao lado de seus futuros
algozes. Em geral, moças, bonitas, no auge, vaidosas. Muitas vezes penso se não
é essa nossa nova vida digital que as deixa ainda mais em perigo. Os celulares
devassados. O ciúme dos que não aguentam que se mostrem.
Sim, queremos muito
comemorar o Dia da Mulher. E sair e vestir o que quisermos, roupas justas ou
não, mostrar corpos, tatuagens, plásticas, cílios postiços, sobrancelhas
pintadas, bocas carnudas, maquiadas, perfumadas. Seja o que for.
Nosso rastro feminino,
livre, por direito. Que a Justiça nos garanta a vida. Estamos sendo caçadas e
não somos nós as feras. Mas podemos virar, mostrando nossas garras.
_________________________
- MARLI GONÇALVES –
Jornalista, cronista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo,
autora de Feminismo no Cotidiano, Coleção Cotidiano, Editora Contexto. (Na
Editora e na Amazon). Vive em São Paulo, Capital. marligo@uol.com.br /
marli@brickmann.com.br
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