Sábado, 18 de novembro de 2006 - 15h25
DOUTORES
No livro 'Dona Flor e Seus Dois Maridos', a mãe da personagem central não gostou da filha, viúva, ter casado novamente com um bioquímico. E o citava apenas como 'doutor de pé quebrado', uma depreciação muito injusta para com os profissionais daquela área.
Lamentavelmente alguns cidadãos, concluindo cursos de bacharelado acabam sendo chamados 'doutor' talvez mais pelo costume do que, realmente pelo que representam. Conheço algumas histórias, uma delas, essa aí:
O Zorando Moreira, que implantou o setor legislativo da nossa Assembléia, era o diretor do Departamento Legislativo da ALE, e um dia ligou para a Procuradoria sendo atendido por um dos advogados do quadro da Casa.
'Pedi que ele fizesse uma determinada consulta ao Vade-Mecum, para que eu pudesse dar parecer a respeito de um determinado assunto do meu setor, um fato normal no nosso trabalho', lembra Zorando.
Zorando esperou um tempo enquanto o doutor advogado foi buscar o que foi pedido. Cinco minutos depois, achando que teria sido mais fácil e gasto menos tempo se tivesse ido ele mesmo em busca da informação, recebeu a resposta.
'O meu colega advogado retornou e, na maior cara de pau, o camarada perguntou quem era esse tal de 'vade-mecum'. Eu larguei o telefone e fiquei rindo de tanta asneira', conta Zorando.
Para quem não sabe, Vade-Mecum é, na realidade uma publicação técnica usada pelos advogados, juízes, bacharéis, desembargadores, espécie de bíblia para os profissionais de Direito
Contado a história, Zorando ria muito, mas lembra que, na hora, ficou decepcionado.
Para algumas pessoas, pelo simples fato de serem tratadas por 'doutor', isso lhes parece poder se situar acima dos profissionais de outras áreas. Eu, mais o Ciro Pinheiro e o Paulo Ayres éramos membros de uma comissão que vinha fazendo checagem de documentos dos filiados ao Sindicato dos Jornalistas. Chego ao gabinete do prefeito e encontro lá um advogado que me chama reservadamente.
Depois dele fazer o que detesto, me bajular dizendo que conhece meu trabalho e ficar me elogiando, ele dá o bote: quer nada mais nada menos que eu lhe consiga uma carteira de jornalista.
'Não tem problema, doutor - respondo, eu consigo isso sem qualquer dúvida e quero que o senhor apenas me faça uma gentileza em troca'. O cara, todo animado, pergunta o que quero e respondo: 'O senhor me dá uma carteira de advogado'. Pra que eu disse isso. O cara subiu nas tamancas:
'Respeite minha profissão'. Aí eu aproveitei o gancho: 'Porra, se você não respeita a minha, como quer que eu respeite a sua?'. Até hoje, mais de 20 anos depois, o doutor advogado quando me vê fecha a cara.
Qualquer dia conto não apenas o 'milagre', mas o 'santo'também.
Fonte: Lúcio Albuquerque - jotalucio@bol.com.br
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