Porto Velho (RO) sexta-feira, 22 de novembro de 2019
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Gente de Opinião

Lucio Albuquerque

Há 36 anos Rondônia tomava forma de Estado


Lúcio Albuquerque

Repórter

jlucioalbuquerque@gmail.com

Eu sempre digo não ter saudades. Eu tenho lembranças.  E nesta sexta-feira, na Câmara de Cacoal, ao deparar com a capa do Diário da Amazônia lembrando que há 36 anos, dia 22 de novembro, que foi instalado o município de Ji-Paraná.

E aí passou um filme pela minha cabeça. Eu estava lá. Fazendo matéria para o jornal A Tribuna e para o Estado de São Paulo. A imprensa estava representada também pelo Edinho Marques (TV-Rondônia), Pinheiro de Lima (Rádio Caiari), o Ciro Pinheiro (pelo Alto Madeira) e peço desculpas se não lembro outros nomes.
 

O GOVERNADOR QUE PENSOU RONDÔNIA GRANDE

Aí vem à mente a figura que, sabe-se lá por qual razão, foi praticamente excluída da história de Rondônia, apesar da importância que teve para estruturar o então Território para que se criasse o Estado.

Falo aqui do coronel da Arma de Cavalaria Humberto da Silva Guedes, penúltimo governador do Território e que, conforme assessores de alto nível que trabalharam com ele e com seu sucessor Jorge Teixeira, atestam que Guedes foi o cérebro que permitiu a Teixeira dar sequência o projeto Rondônia-Estado.

Em 1975 Humberto Guedes assumiu o governo. Tomou providências que permitiram fazer andar melhor a “máquina” administrativa e massificou a presença da administração na faixa da BR-364, onde diariamente chagavam dezenas de famílias, viajando nas piores condições possíveis e se instalando à margem da  rodovia. Ali a figura gerencial do governador deixou de ser uma visita ocasional, mas praticamente constante, e mais ainda quando Guedes percebeu que com a vinda de tanta gente, de todos os pontos do país, extrapolava a capacidade de atendimento.

“Não se pode mais continuar pensando em Rondônia como Território. Vamos trabalhar no planejamento do Estado”, disse ele em várias reuniões que assisti.

E conseguiu que o presidente Ernesto Geisel criasse cinco novos  municípios, pela ordem de instalação: Ariquemes, onde tomou posse  como prefeito o professor Batalha; em Ji-Paraná que a partir da criação deixou de ser Vila Rondônia, o quarto nome da localidade; Vilhena com a posse de Renato Coutinho, Pimenta Bueno com Vicente Homem Sobrinho e, o último, Cacoal, com Catarino Cardoso dos Santos. Agora o Território tinha sete municípios, além desse  Porto Velho, criado em 1914 e Guajará-Mirim criado em 1926.
 

HAVIA QUEM FOSSE CONTRA

Mas havia quem fosse contra a emancipação daqueles então distritos do município de Porto Velho, especialmente comerciantes que alegavam o receio de terem de contribuir recolhendo aos cofres públicos o valor dos impostos cobrados na venda de produtos.

Havia os que simplesmente eram contra, alegando que não iria dar certo – citações que ouvi de muita gente quatro anos depois quando houve mobilização a favor da criação do Estado.

Mas o grosso da população dos distritos era a favor. E uma das justas razões era justamente a necessidade de cada comunidade ter seu próprio governo, e não continuar atrelado a Porto Velho distante e de difícil acesso – é bom lembrar que naquele tempo a BR-364 era inteiramente de barro e uma viagem de Vilhena, a 700 quilômetros, até a capital podia demorar dias.
 

AS INSTALAÇÕES

Saímos de Porto Velho rumo a Ariquemes, onde a cerimônia estve ameaçada por um temporal. As ruas eram de muita lama e o prefeito Batalha declamou alguns poemas de sua autoria. Uma boa parcela das casas eram simples taperas tendo como cobertura pedaços de lona preta.

Depois foi a vez de Ji-Paraná, onde o empossado foi o poeta e seresteiro Walter Bártolo. No terceiro dia foi a vez de Vilhena, onde Renato Coutinho foi o ungido. No quarto foi Pimenta Bueno, com o mineiro Vicente Homem Sobrinho.

Cacoal ficou por último. Foi o único que teve a presença de autoridades federais: o ministro do Interior Maurício Rangel Reis, o presidente nacional da ARENA deputado federal baiano Prisco Viana, além do governador Humberto Guedes e do prefeito de Porto Velho Antonio Carlos Cabral Carpintero.
 

CACOAL

Em Cacoal tomou posse o cidadão Catarino Cardoso dos Santos, uma liderança comunitária forte, não muito dada às letras, mas foi quem plantou a administração na hoje Capital do Café.

De Cacoal o Pinheiro de Lima fez a primeira transmissão via rádio (Caiari) e depois junto com ele fizemos a primeira transmissão de um jogo de futebol, do campo do Incra.

E é em Cacoal que, quando nós, que estivemos no local naquele dia de instalação de municípios, que surgem algumas lembranças interessantes.

Primeiro foi à disputa entre o governador Humberto Guedes e o presidente regional da ARENA Odacir Soares. Os dois não tinham boa relação de amizade e a coisa ficou pior quando da vinda dos aviões trazendo as autoridades.
 

O DISCURSO DO “SEU” CATARINO

Mas teve o discurso do “seu” Catarino. Na noite anterior, hospedados no hotel do Incra em Pimenta Bueno, assessores do governador foram mandados por ele para verem como estava o “falar”” do prefeito cacoalense.

Aí tiveram a ideia de escrever um discurso para o “seu” Catarino. E como ele enxergava mal as letras foram aquelas “de forma”, todas maiúsculas (tenho dúvidas se quem escreveu foi da jornalista Jussara Gotlieb ou se o jornalista Crio Pinheiro).
 

O certo é que a coisa ficou assim:

EXMO. SR. MAURÍCIO RANGEL REIS, MIN. DE ESTADO DO INTERIOR.

EXMO. SR. CEL. HUMBERTO DA SILVA GUEDES, GOV DO TERR. FED. DE RONDÔNIA.

E por aí afora. E o “seu” Catarino leu como estava escrito. Mas quase 20 minutos depois ele continuava lendo aquilo. O ministro, o deputado Prisco, o governador, o prefeito Carpintero e todos que estavam no palanque se entreolhavam, mas o “Exmo.” Continuava. Foi quando “seu” Catarino deu fim à coisa. Pegou o monte de papel almaço e anunciou que iria falar “como o povo sabe que eu falo”. E foi em frente.

Dali voltamos a Porto Velho e os cinco municípios geraram os “filhotes”, iniciados como pequenas comunidades a alguma distância de um lado e outro da BR-364 e que, por sua vez, foram depois transformados em municípios e, como no caso dos cinco primeiros e do Estado, ouvi de muita gente que aquilo “não vai dar certo”.

E deu.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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