Sexta-feira, 24 de novembro de 2017 - 17h59
Lúcio Albuquerque, repórter
A capa do site estadão.com.br de terça-feira (21.11.17) trouxe para o primeiro plano um tema que o Brasil precisa realmente ter a coragem de enfrentar: o fim do ensino superior gratuito de forma universal, como praticada em nosso país. A sugestão do FMI tem coerência, agora recebe uma pressão que não pode ser colocada de lado.
O ensino superior público brasileiro é, sem qualquer dúvida, desvinculado da realidade que o país vive na relação da distribuição de riqueza. Há uma inversão da pirâmide: famílias abastadas mantém filhos nas melhores escolas privadas possíveis, onde as oportunidades de aprendizado são muito superiores ao que o setor público oferece, mas quando chega na hora do ingresso na universidade pública é aquele primeiro grupo que acaba ficando com as melhores vagas havendo, admito, raríssimas e mui honrosas exceções.
Faça-se um levantamento sócio-econômico dos chamados “cursos de ponta”, aqui mesmo na UNIR, e com certeza se observará a quantidade de estudantes cujas famílias têm poder aquisitivo suficiente para continuar pagando pela nova formação.
Ora, se a família teve condição de bancar a escola privada na fase anterior à faculdade, supostamente oferecendo melhores condições de ensino, então a família deve, também, continuar investindo na formação superior pagando, ainda que seja na escola pública que, como é a proposta do Banco Mundial, deve manter uma cota – não como atualmente por etnia, mas para aqueles oriundos do ensino médio público e que comprovem sua condição de nível social que possa ser alcançado pela cota.
Essa questão levantada pelo Banco Mundial não é nova para quem acompanha discussões sobre a Educação no país, e os governos só não tomaram ainda uma posição condizente com nossa realidade porque preferem a acomodação e à compra de vagas em empresas particulares onde o beneficiário não é considerado aluno mas, sim, cliente e, ainda, em muitas delas, se for aplicar o rigor da Lei, as condições exigíveis para aplicação de cursos superiores não estão sendo levadas em conta.
Tudo bem, admito: de jeito nenhum que o valor da mensalidade na escola superior pública seja nem próximo do que as particulares cobram, mas deveriam ter uma taxa mensal. Imaginemos que para alunos dos cursos de ponta da UNIR seja cobrada uma taxa de 700 reais por mês. Supondo-se que nesse grupo estejam 1 mil alunos. Faça-se a conta. Serão 700 mil reais/mês. Perguntem ao reitor Ari Ott se ele gostaria de ver isso entrando no cofre da nossa federal todos os meses, ou se isso poderia ajudar a melhorar a qualidade do ensino.
Ah! E os que vieram da escola pública que é paga com dinheiro do contribuinte, eles não pagariam? A resposta é Sim. Com a opção que, formados, passem a prestar serviço dentro de suas profissões durante um ano cada um, recebendo uma bolsa tipo “Mais Médicos”. E por que não? Afinal o fato de terem feito suas estradas no ensino público não os isenta do fato de terem sido sustentados pelo erário. Então, se não podem pagar um valor pelo curso que o façam como profissionais.
Agora, permanecer a situação como está, com o ensino público superior sucateado – será que há mesmo, como suspeitam alguns, interesse em manter assim para beneficiar entidades privadas? – enquanto o acesso ao terceiro andar fica com um segmento sócio-econômico de padrão acima da média do país, é coisa que não pode continuar, apesar de eu não acreditar que governos e a própria sociedade tenham interesse real nisso.
É capaz, até, de aparecer quem alegue que a proposta estampada na capa do site do Estadão paulistano, por ter sido mostrada a partir de um estudo do Banco Mundial , seja contestada só porque tenha vindo dali. O que, também, não será novidade.
Inté outro dia, se Deus quiser!
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