Terça-feira, 22 de outubro de 2013 - 22h11
Lúcio Albuquerque
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| Seu Benu, testemunhou fato importante da história de RO |
Madrugada de domingo, 20, faleceu o cidadão Bernardino Souza, na UTI do Hospital da Beneficente Portuguesa, em Manaus. Pouca gente o conheceu aqui em Rondônia. Mas ele foi testemunha de um fato histórico e, certamente, deve haver ainda bem poucos que assistiram o que ele viu: o embarque de funcionários da empresa estrangeira que administrava a Madeira-Mamoré, em 1931.
E como é que eu soube? Bom, eu o conheci tinha aí uns seis anos, quando ele foi morar com a família ao lado da casa de meus pais, na Rua Brasil, Beco do Macedo (Bairro Nossa Senhora das Graças) em Manaus. A roda do mundo girou e eu casei com uma sobrinha-filha dele. E o conhecimento só fez aumentar.
Depois que viemos para Rondônia, em 1975, “Seu Benu” (*), como era chamado por todos nós – ou o “Tio” como o chamavam padres, bispos e outros religiosos ligados à Arquidiocese de Manaus, só veio a Porto Velho desde então uma vez, no início da década de 1980 com um grupo do Morhan – Movimento de Reabilitação dos Hansenianos, um segmento com o qual ele trabalhou durante muito tempo.
Mas a história que ele testemunhou e que é parte da História de Rondônia eu a soube aí por volta de 2009, numa das muitas conversas que tive com ele numa ala de sua casa, mesmo local em que o conheci quando eu tinha 6 anos. Ele sempre gostava de falar do tempo em que, jovem, no período 1927 a 1942 foi embarcadiço com múltiplas funções viajando pelos rios da Amazônia.
Várias vezes, contava, esteve em Porto Velho, subindo e descendo o Madeira, levando e trazendo, carga e gente. “Uma vez eu estava estacionado lá no barranco da cidade e vi umas pessoas carregando um barco grande que estava próximo ao nosso. Não liguei. No dia seguinte ouvi falar que eram os “ingleses” que estavam fugindo da estrada de ferro”.
Como pesquisador da nossa História, dei uma parada: “Caramba – pensei – eu com uma testemunha de um fato importante ao alcance da mão?”
Pedi e ele repetiu, só com alguns detalhes a mais: “Naquele dia tínhamos chegado a Porto Velho, viajando no motor Tupana, no fim da tarde. Os trens estavam parados, mas eu e nenhum outro tripulante nos interessamos por isso. Tinha a turma que gostava de uma pinga, tinha a dos que preferiam ficar na calma, tipo eu, e cada grupo tomou seu rumo. Fui dar uma volta, a cidade era bem pequena e quando voltei vi as pessoas chegando com malas e mudanças pegando aquele barco. De manhã vi que tinha muita gente na estação do trem, mas o trem não saiu. À tarde voltamos para Manaus. Eu não entendi nada, até porque não sabia do que estava acontecendo”.
“Seu Benu”, que virou personagem dos meus escritos, onde eu o identificava como “ponta esquerda reserva do time de coroinhas da paróquia de Nossa Senhora do Rosário em Itacoatiara”, ou “Velho bardo da Velha Serpa”, era marido da Dona Amélia, pai da bioquímica Suely e da contadora Sidney, tio-pai da dona Fátima. Fez 100 anos em fevereiro passado. Foi-se madrugada de domingo passado. Cumpriu bem sua missão entre nós.
(*) – Quem é afeito aos meus escritos já sabe que Bernardino Souza era o personagem “Seu Benu”, uma espécie de fiscal contínuo dos erros da imprensa, inclusive dos meus.
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