Porto Velho (RO) terça-feira, 7 de julho de 2020
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Lucio Albuquerque

ALUÍZIO FERREIRA – o Homem e o Mito



ALUÍZIO FERREIRA – o Homem e o Mito
(Bragança/PA 12.5.1897 – Rio de Janeiro 19.12.1980)


Não posso falar sobre a figura de Aluízio Ferreira, porque quando cheguei aqui ele já havia morrido.

A frase, conforme várias testemunhas, teria sido dita por uma importante autoridade estadual, quando convidado a falar, durante a sessão do Instituto Histórico e Geográfico de Rondônia, em homenagem ao centenário do nascimento de Aluízio.

Para muitos pode parecer estranho que uma autoridade faça tal afirmação, demonstrando desconhecer inteiramente a maior figura política que Rondônia já teve, mas num Estado em que a História, com seus fatos e personagens, é colocada de lado, não é de muito admirar. Apenas a lamentar.

ALUÍZIO FERREIRA – o Homem e o Mito - Gente de Opinião
Aluízio Ferreira (de farda e capacete) mostra a Getúlio Vargas o projeto da rodovia que, mais tarde, seria a BR-364

A FIGURA

Segundo o historiador Francisco Matias, em Pioneiros –Ocupação Humana e Trajetória Política de Rondônia, Aluízio Pinheiro Ferreira nasceu em Bragança (PA) a 12 de maio de 1897, e faleceu no Rio de Janeiro a 19 de dezembro de 1980. Foi tenente do Exército e em 1924 liderou a rebelião no Forte de Óbidos (PA). Derrotado, fugiu para o Rio madeira e acabou indo trabalhar no seringal de propriedade de Américo Casara, na localidade de Laranjeira (Município de Pimenteiras), no Rio Guaporé. Aluízio foi convencido pelo Marechal Rondon a se apresentar ao Exército, em Belém, onde foi preso e depois reabilitado. A Revolução de 1930 o tem como aliado e Aluízio é nomeado Delegado do Governo Provisório na região do Rio Madeira, tendo se estabelecido em Porto Velho onde se torna a principal autoridade e, em 1931, torna-se o primeiro brasileiro a ser diretor-geral da maior fonte econômica da região, a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Em 1940 consegue fazer com que o presidente Getúlio Vargas venha a Porto Velho e passe três dias na cidade, ao invés de 3 horas conforme a programação inicial, período em que convence Getúlio de criar o Território (do Guaporé, em 1943), mas incluindo a região pertencente ao Amazonas (Porto Velho) e não apenas a de Mato Grosso (95% da área). Em 1944 Aluízio Ferreira é o primeiro governador do Território e em 1947 é eleito deputado federal, reeleito em 1950 e em 1958. Em 1962  retira-se da vida política, fixando residência no Rio de Janeiro.

O HOMEM VERSUS....

Sem qualquer dúvida, mesmo os mais apaixonados adversário de Aluízio Ferreira não podem negar a História: ele se sobrepõe a qualquer outra figura política e administrativa local, com uma visão muito além de seu tempo, e cujos reflexos se estendem até hoje.

Já em 1930 Aluízio conseguia recursos do Ministério da Viação e Obras para saldar salários de trabalhadores da Madeira-Mamoré.

Em 1931, numa ação que envolveu até a ação irregular de dois aliados, que se fingiram de bêbados para evitar a partida do trem, e do delegado  de polícia de então (conforme o historiador Esron Penha de Menezes) Aluízio evita que a empresa estrangeira  burle a legislação que regia a EFMM. E a seguir assume a direção da ferrovia.

Em 1932 Aluízio vê um de seus projetos, para a região, implantado: a 3ª Companhia de Fronteira (embrião da 17ª Brigada de Infantaria de Selva) em Porto Velho, e os pelotões de Guajará-Mirim e do Real Forte do Príncipe da Beira. Ainda como diretor da Madeira-Mamoré manda construir o colégio Barão do Solimões, a vila do Caiari (conf. Esron Menezes) e importa médicos, professores e outros profissionais oriundos de Belém (PA). Além disso, dá início à construção de uma estrada que, seguindo o traçado da linha telegráfica implantada pelo Marechal Rondon, chegasse a Cuiabá (embrião da atual BR-364), chegando até à localidade de São Pedro (KM 45).

Em 1940 sugere ao presidente Getúlio Vargas, que tinha viagem marcada apenas a Manaus, a esticar a viagem até Porto Velho e, das três horas previstas, ficar três dias, tempo em que convence o presidente da República a incluir Porto Velho no projeto de criação do Território Federal do Guaporé, o que acontece em 1943, sendo Aluízio seu primeiro governador.

São de sua lavra, quando no governo, a primeira estruturação político-administrativa de Rondônia, a criação da Guarda-Territorial, a  criação de órgãos como o Serviço de Navegação do Guaporé e o Serviço de Navegação do Madeira, etc.

Como deputado federal, Aluízio Ferreira foi autor do primeiro projeto de lei criando o Estado de Rondônia, em 1962, quando estava encerando seu terceiro mandato parlamentar. O projeto não foi aprovado pelo Congresso Nacional.

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Aluízo (de farda) e Getúlio, na usina de luz inaugurada pelo presidente em Porto Velho

...ELE PRÓPRIO

Durante os mais de 30 anos que teve liderança forte sobre Rondônia, se, de um lado, Aluízio Ferreira teve muitos pontos positivos, que o colocam num patamar muito acima de outras lideranças locais, como essas, também houve ações a ele atribuídas e que, se realmente o foram como citam, acabaram enodoando sua biografia.

Aluízio, dizem, sem tirar seus méritos positivos, os que o conheceram, que ele  literalmente casava e batizava.  Ele era o chefe, ou o soba. Há muitas coisas faladas que podem ser estórias ou histórias, depende do lado que se esteja.

Dentre outros fatos, há quem diga que:

1 - Quando um funcionário público ia para a oposição, e se a mulher fosse também servidora, Aluízio designava um para o vale do Guaporé e o outro (ou outra) para o baixo Madeira. Praticamente acabava com a família.

2 – Ele mantinha uma equipe de fiéis, uma espécie de guarda pessoal, capaz de fazer o serviço sujo.

3 – Há três casos escabrosos: o primeiro deles, quando um padre disse que ia denunciar o possível envolvimento de uma pessoa ligada a Aluízio, num derrame de notas falsas. Misteriosamente o provável denunciante morreu antes de sair daqui.

Na seqüência, que o médico que fez a autopsia do corpo teria sido pressionado para dizer que não houve envenenamento, mas, sim, uma síncope cardíaca.

TENENTE FERNANDO

O terceiro caso, o fato mais escabroso, e que rendeu mais munição à oposição, foi o desaparecimento, em 1945, do tenente-engenheiro do Exército Fernando Oliveira, num acampamento da construção da rodovia, à altura do KM 45 sentido de Ariquemes.

Das versões sobre o desaparecimento, há pelo menos duas que envolvem Aluízio. Numa delas, porque o tenente, jovem e atlético, teria se aproximado de uma mulher muito bonita e que estava na alça de mira de Aluízio, então governador do Território.

A segunda versão é que o tenente teria anunciado que iria denunciar Aluízio pelo sumiço de um equipamento rodoviário que teria sido embarcado em Belém e não chegara a Porto Velho.

O fato já havia praticamente caído no esquecimento, mas, segundo os historiadores Abnael Machado e Francisco Matias, quando da reunião do Instituto Histórico, comemorativa dos 100 anos do nascimento de Aluízio, seu primo, general Ênio Pinheiro, que era capitão e comandante da Companhia Rodoviária em 1945, teria provocado o assunto, apresentando várias versões sobre o desaparecimento do tenente Fernando, sem que qualquer dos presentes tivesse feito menção ao caso.

O historiador Esron Menezes nega, mas há várias citações de que a cassação do deputado federal, pelo Território, Renato Medeiros, em 1964, teria saído por pressão de Aluízio. "Eu perguntei ao coronel (último posto de Aluízio no Exército) e ele negou", garante Esron.

DÍVIDA

Mas, seja lá o lado que se coloque o leitor, certamente que a figura de Aluízio Ferreira se sobrepõe, pelo que ele representou para a região ao alto Rio Maderia, às falhas que realmente tenham sido culpa sua.

E foi justamente o mérito daquilo que Aluízio Ferreira realizou a favor do desenvolvimento regional, que o faz merecedor de ser colocado um degrau acima dos demais que também deixaram um lastro de trabalho a favor de Rondônia.

Fonte: Lúcio Albuquerque

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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