Segunda-feira, 25 de março de 2019 - 18h07

O ano novo de 1968, data comum à maioria da Humanidade, começou, como todos os outros denominados historicamente de D.C, a 1º de janeiro. O “ano do horóscopo” lunar chinês”, denominado “anodo porco”, começara dia 30 de janeiro, e só acabaria em metade de fevereiro de 1969. Aquele, conforme o papa o Paulo VI, seria o “Ano da Paz”.
Mas os acontecimentos daqueles 12 meses, deixaram antever não ser aquele novo período de 366 dias daquele ano bissexto, porque fevereiro teve 29 (e não os 28) dias, tiveram tal influência no mundo que até hoje, pelo visto, é celebrado como o “Ano que não acabou”.
Fazia pouco mais de 20 anos que acabara a II Guerra Mundial, e os personagens que lideraram aqueles dias, todos jovens, eram nascidos no período entre 1940 e 1950. Cohn-Bendit, a liderança mais forte, nascera a pouco mais de um mês do fim da Guerra na Europa. Para as mulheres, era a fase da libertação sexual, quando a pílula anticoncepcional começava a ficar conhecida. Nos muros de Paris aparecia um slogan simples, mas que marcou aquela geração: “É proibido proibir” – quer dizer, tudo era permitido.
Presidia o Brasil o segundo presidente do comando do movimento de 1964, o gaúcho Artur da Costa e Silva, tido por muitos por “bonachão” – “mas não muito” (1) e naquele início de janeiro os vietcongs pela primeira vez levaram a guerra do Vietnã para dentro da capital do sul, Saigon, na “Ofensiva do Tet” e que, a 16 de outubro, nos Jogos Olímpicos do México, os atletas Tommie Smith e John Carlos (ouro e bronze nos 200m rasos, no pódio, durante o hino dos Estados Unidos, ergueram punhos fechados com luvas pretas, o gesto inconfundível do movimento ‘Black Power’, em plena disputa racial nos EUA.
Mas quem deu o pontapé inicial foram estudantes da Universidade de Naterre, na periferia de Paris (2), movimento que, como fogo de morro acima, se alastrou pelo mundo e chegou até ao coração da “Cortina de Ferro”, na Tchecoslováquia, onde aconteceu a “Primavera de Praga”, logo esmagada pelo Pacto de Varsóvia, mas que abriu as portas para no ano seguinte acontecer a derrubada do “Muro de Berlim”.
Em todo o mundo manifestações de trabalhadores e estudantes mostraram que nada mais seria como antes. No Rio de Janeiro, uma manifestação contra o aumento do bandejão no restaurante universitário provocou um choque com a Polícia e um anônimo estudante paraense, Edson Luís, foi morto vitimado por um tiro, e naquele mesmo ano o congresso da UNE “caiu”, porque a movimentação de tantos delegados acadêmicos na pequena cidade de Ibiúna e outras falhas dos responsáveis pela organização, levou à prisão de centenas de participantes.
Àquela altura o governo já enfrentava uma guerrilha nos âmbitos urbano e no Araguaia, cuja historia ainda precisa ser contada, mas sem paixões e com isenção.
O grande líder dos direitos civis norte-americanos, Martin Luther King, Nobel da Paz em 1964, foi assassinado quando liderava a mobilização contra a discriminação racial. Sua grande oração foi “Eu tenho um sonho”. Quatro meses antes aquele 1968 marcara outra morte violenta nos Estados Unidos, quando o senador Robert (Bob) Kennedy cujo irmão, John Kennedy, presidente dos EUA foi assassinado em 1963.
No Brasil, já ao apagar das luzes daquele ano que acabou não acabando, os ex-presidentes João Goulart e Juscelino Kubistcheck, além do arqui-inimigo dos dois Carlos Lacerda, um dos manipuladores civis de 1964, se aliavam na organização da “Frente Ampla”.
No dia 13, o presidente Costa e Silva assinava o Ato Institucional nº 5, o mais duro de todos seus antecessores, praticamente acabando com todas liberdades individuais. Os chamados “anos de chumbo” ingressavam ali na sua pior faceta.
1968, um ano como os outros mas que ganhou dimensão num25 de março, levaria a muitas análises e frases, uma delas, de Sartre, citando que nunca conseguiu entender o que pretendiam os estudantes de Nanterre.
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