Porto Velho (RO) quarta-feira, 10 de agosto de 2022
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História de Gente de Opinião

O criador do Brasão de Armas do Estado de Rondônia


Marco Aurélio do Nascimento Anconi - Gente de Opinião
Marco Aurélio do Nascimento Anconi

Entrevista com o jornalista goiano Marco Aurélio do Nascimento Anconi, membro da Associação da Imprensa de Rondônia, ex-editor de Comunicação Interna do Decom, órgão responsável pela comunicação governamental em Rondônia, criador do Brasão de Armas do Estado de Rondônia, ocupante da cadeira 33 da Academia Rondoniense de Letras Ciências e Artes – ARL, cujo patrono é  Bolívar Marcelino.

1.    ARL – De Goiânia para Rondônia, como se deu esta travessia?

Marco – Em 1980, em Goiânia, tínhamos uma equipe de demonstração de paraquedismo e fomos convidados pela equipe do Coronel Jorge Teixeira de Oliveira, paraquedista militar, então governador do Território Federal de Rondônia, para participarmos da inauguração do Parque dos Tanques.

Como eu era diretor de criação e de arte de uma grande agência de propaganda (Type House) e sempre que viajava levava meu portfólio, pois ainda não havia meios eletrônicos nem computadores pessoais, era tudo feito à mão e, no máximo, com fotografias e filmagens analógicas.

Após o salto um dos diretores (Reginaldo Vasconcelos) da Secretaria de Estado de Planejamento e Coordenação Geral (Seplan) ao ver meus trabalhos publicitários pediu que eu ficasse até segunda-feira para os mostrar ao secretário da Seplan, José Renato da Frota Uchôa. Concordei e fomos até o braço direito do governador que, ao ver página por página me perguntou o que eu queria para me mudar para Porto Velho e ajudar na transição de Rondônia de território para estado.

A resposta foi: Nada, não tinha interesse em vir para cá, pois estava no auge da minha carreira profissional em uma capital em franco crescimento. Ele não se deu por vencido e insistiu... Ponderei e disse: Então quero o máximo! Eu tinha um salário excelente na Type House em Goiânia, mas a proposta do governo federal para me trazer foi dez vezes o que ganhava lá. Tive que aceitar, mas ainda solicitei que minha esposa, recém-formada em direito, fosse transposta para cá. José Renato aceitou e viemos ajudar a consolidar o novo estado de Rondônia. Bebi água do Madeira e estou aqui até hoje.

2.    ARL – Quem é Marco Aurélio do Nascimento Anconi?

Marco - Profissionalmente sempre aprendi tudo muito rapidamente, como se já soubesse de antemão. Sou um perfeccionista e detalhista; não aceito nada pelas metades. Durante cinco anos trabalhei como editor jornalístico e de arte nas afiliadas da rede Globo em Goiânia e Maceió, o que fortaleceu meu poder de síntese. Textos curtos e concisos; pinceladas seguras e precisas. Exerço varias especialidades como: desenho, pintura, fotografia, filmagem, marketing, publicidade, indústria gráfica, informática dentre outras.

Pessoalmente sou um sonhador e espiritualista convicto. Intimista por natureza (medito com frequência); sou “bem família”; gosto de música clássica, mas também de todos os tipos de arte, desde as antigas quanto as recentes. Uma bela poesia; uma tela harmoniosa e bela; um desenho digital de qualidade, enfim, tudo que contém traços da alma.

 

3.    ARL − O que o motivou a criar o Brasão de Armas do Estado de Rondônia?  Você venceu um concurso?

 

Marco – Participei do concurso, apresentando meu trabalho, mas não fui incluído entre os finalistas. Quando finalizado o concurso, as artes selecionadas me foram enviadas para adequações sob a ótica da heráldica, ciência das medalhas e brasões, da qual eu era um dos poucos especialistas. Nenhum tinha sequer possibilidade de aproveitamento. Quando o secretário José Renato viu meu brasão em comparação com os demais, me disse: “Vamos falar com o Coronel Teixeira”. O Teixeirão perguntou: “Porque você não ganhou o concurso?” e, ato contínuo, ordenou que eu fizesse a descrição heráldica e pediu ao secretário, José Renato, para mandar publicar e adotar como o Brasão Oficial de Rondônia.

 

4.    ARL – Faça a descrição heráldica do brasão.

 

MarcoO primeiro elemento é a espada do Marechal de Campo Cândido Mariano da Silva Rondon, que dá nome ao Território Federal e depois ao Estado da República Federativa do Brasil; à direita, um ramo de cacau representa a cultura agrícola nativa; à esquerda, um ramo de café representa a cultura agrícola trazida pelos imigrantes. Os trilhos em forma de “U” representam a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. O escudo formado pelo quadrado central azul com os quatro cantos em formato de losango, contornado por linhas em vermelho (sangue dos combatentes) e prata (armas), representa o formato das muralhas do Real Forte Príncipe da Beira, fortaleza construída pelo reino de Portugal entre 1776 e 1783, às margens do rio Guaporé, fronteira entre o Brasil e a Bolívia. Em seu interior, uma estrela branca que emite uma cauda nas cores amarela e verde, representa a marca do então Governador Jorge Teixeira de Oliveira, que conduziu a transformação do Território Federal em Estado da União. O número 1943 à esquerda representa o ano da criação do Território Federal do Guaporé e o número 1981, à direita, o ano em que o Estado de Rondônia foi emancipado.

5.    ARL – Além do Brasão de Armas do Estado, que outros trabalhos você já publicou, enquanto jornalista?

Marco – Em Rondônia criei a Ordem do Mérito Marechal Rondon (maior honraria do estado, com cinco graus, concedida pelo governador em exercício que é o Grão Mestre da ordem); implantei a Ficha Nacional de Registro de Hóspedes (FNRH) em todos os hotéis da época; criei e produzi a primeira campanha (televisão, rádio e impressos) de prevenção da raiva canina para a capital, cujo título era: A RAIVA CANINA MATA! Porto Velho tinha cento e sessenta mil habitantes e dezesseis mil cachorros; Treinamento de profissionais e montagem de laboratórios fotográficos em dezesseis municípios a fim de fotografarem e cadastrarem eleitores junto à justiça eleitoral, para o pleito de 1982 (tínhamos cidadãos suficientes, mas poucos eleitores documentados);

 

6.    ARL – Quais cargos governamentais você já ocupou, ao longo da sua vida de funcionário público?

 

Marco – De 1980 a 1988 - Diretor da Divisão de Promoção e Divulgação da Seplan (que englobava propaganda, marketing, produção publicitária e hotelaria); Secretário Municipal de Cultura, Esportes e Turismo em Pimenta Bueno (à disposição pelo governo de Rondônia); Diretor de Marketing e Propaganda do Banco do Estado de Rondônia (Beron) criando e produzindo várias campanhas, dentre elas o lançamento (televisão, rádio e impressos) da Poupança Beron (à disposição pelo governo de Rondônia); Redator do Departamento de Comunicação do Hospital de Base Ary Pinheiro (à disposição pelo governo de Rondônia).

Nos finais de semana, com o apoio do Coronel Teixeira, implantei o curso de paraquedismo no aeroclube de Porto Velho, treinei e lancei mais de cem alunos.

Ao sair do governo em 1989, por ser programador de computadores de grande porte (linguagem COBOL ANS para supercomputadores IBM /360), montei a primeira revenda de microcomputadores de Rondônia, a MS Informática (Cobra Computadores) e depois a Hiperdata (Microtec). Além de vender os equipamentos também capacitava os operadores e programadores. Fui pioneiro também na computação gráfica. Montei a primeira redação jornalística informatizada, Última Hora de Rondônia, que perdurou por poucos meses, mas serviu de base para as demais redações.

Trabalhei com computação gráfica por muitos anos, sendo responsável pela criação de logomarcas, campanhas publicitárias e programação visual de empresas.

Algumas outras empresas de que participei: Amppla publicidade ((diretor de arte); Provendas reprografia (diretor de arte); CTP (Computer To Plate – fornecedor de chapas gráficas para impressão profissional CMYK).

 

7.    ARL – O que significa a ARL na sua vida profissional?

 

Marco - Uma surpresa. Aliás, do confrade Júlio Olivar, espero sempre maravilhas. Vivi em meio a intelectuais e artistas, mas fazer parte da Academia Rondoniense de Letras, Ciências e Artes (ARL), repito, foi uma gratíssima surpresa. O convívio com tantas mentes brilhantes tem renovado meu amor pela cultura e o saber.

Outra grata surpresa foi ser, recentemente, agraciado com o título de Cidadão Honorário de Porto Velho, capital que me acolheu com tanto carinho e desprendimento. Gratidão eterna aos vereadores, em especial ao edil Alex Palitot.

 

8.    ARL – Enquanto membro da Secom você publicou vários textos relacionados ao progresso da pecuária, da agricultura e da piscicultura, em Rondônia. Relacione em poucas linhas os destaques de Rondônia, nas áreas referidas, no cenário nacional e internacional.

 

Marco – De 2012 a 2018 retornei à Secom do governo e fui locado na Secretaria de Estado da Agricultura (Seagri). Durante seis anos tive o privilégio de cobrir a evolução da pecuária, em especial a leiteira que hoje já é uma realidade industrial; a agricultura que era baseada apenas na cafeicultura, na cacaicultura e na subsistência passou a contar com grande apoio governamental que atraiu e fixou grandes produtores de soja, milho, grãos diversos, leguminosas e frutas, fortalecendo a diversificação agrícola. Fazemos sucesso em todas as feiras agropecuárias em que participamos. A Rondônia Rural Show, iniciativa governamental de sucesso, nos inseriu no calendário agropecuário do Brasil e de grande parte do mundo.

 

9.    ARL - É possível produzir mais alimentos sem derrubar a floresta?

 

Marco – Um fator pouco conhecido é a qualidade do solo e a capacidade dos nossos agricultores. Desde 2014, com a crescente aplicação de tecnologias, Rondônia vem dobrando sua produção sem ter que derrubar uma árvore sequer. Além disso o replantio e a legislação draconiana de somente permitir o uso de vinte por cento (20%) do solo amazônico para a agropecuária garante a nossa cobertura florestal.

Rondônia é um estado eminentemente agrícola, mas também desponta como o maior produtor nacional de peixe nativo em cativeiro. Em especial o tambaqui e o pirarucu são amplamente criados em lâminas d’água espalhadas principalmente pelo vale do Jamari, mas já disseminado por todo o território de Rondônia.

 

10.                  ARL – O Estado de Rondônia, desde a sua criação, vem crescendo a passos largos, é possível melhorar?

 

Marco – Sempre é possível e desejável a otimização dos processos de desenvolvimento. Rondônia é exemplo cabal de produtividade e conservação. Temos em nosso território três biomas distintos (cerrado, pantanal e mata amazônica), que nos permitem, a cada dia, diversificar e crescer sem destruir. Outro aspecto pouco lembrado é a nossa vocação para o turismo, pois temos belezas naturais que rivalizam com cartões postais de vários lugares do mundo.

Uma preocupação, não só de Rondônia, é a banalização do ensino básico, profissionalizante e superior. Cabe a cada um de nós fazer retornar a seriedade e a qualidade às salas de aula. O futuro agradece!

Com o passar dos anos venho esquecendo muita coisa. Agradeço esta oportunidade por me permitir fazer uma viagem ao passado e resgatar acontecimentos esquecidos. Gratidão ao confrade presidente-ARL. 

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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