Terça-feira, 19 de maio de 2026 - 15h05

Bagé, RS, 19.05.2026
Vamos relatar nesta série de
reportagens nossa afável e prestativa convivência com os Waimiri-Atroari, nos
idos de 1982/83, até sermos considerados por eles como uma “Persona non grata”. Mostraremos como a
ganância, estimulada por pérfidas e falaciosas criaturas, ganhou corpo
contaminando a alma destes nativos.
Ao concluir meu tempo de serviço como
Instrutor de Cadetes na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) optei por
voltar a um Batalhão de Engenharia de Construção (BEC) optando pelo 6° Batalhão
de Engenharia de Construção (6° BECnst) sediado em Roraima e responsável pela
manutenção da BR-174, estrada pioneira que liga Manaus, AM à Pacaraima, RR.
No 6° BECnst, a realidade era bastante diversa da AMAN fui destacado, de imediato, para comandar a 1ª Companha de Engenharia de Construção, sediada no Abonari (AM) com a responsabilidade de manter o tráfego da BR-174 de Manaus (AM) até o Rio Jauaperi (RR), um trecho de 419 km, 120 km dos quais dentro da TI WA, única via de acesso terrestre ao então Território Federal de Roraima. A Companhia ocupava derruídas e precárias instalações no Km 202, da BR-174, que graças ao apoio da Mineração Taboca e Eletronorte (os recursos do Ministério dos Transportes eram ínfimos), fomos aos poucos incrementando melhorias. Construímos um Centro de Lazer para os familiares dos militares destacados, alojamento para Praças solteiros, escolinha comunitária, instalamos um segundo gerador e refizemos toda a instalação elétrica da Companhia.

Instalamos uma Central de TV, com gravações de uma rede de Manaus, que retransmitia seu sinal para toda Companhia e arredores, e para um telão instalado no “Clubinho” onde as famílias se reuniam para confraternizar. As acariquaras, a palha de ubim, o cimento, a geladeira e a televisão do Centro de Lazer (Clubinho) foram doadas pela Mineração Taboca.
O atendimento médico proporcionado pelo Dr. Leônidas Sales Sampaio e depois pelo Dr. Alexandre Augusto Stehling era de alto padrão e estendido às aldeias dos Waimiri-Atroari com que mantínhamos um salutar contato. Lembro-me de um dos casos mais delicados, da esposa do “Elzo”, um dos filhos do Tuxaua Comprido, que levou a esposa grávida de nove meses para ser atendida pelo Dr. Sampaio. O “Elzo” e a esposa permaneceram mais de uma semana na sede da Companhia onde ele fazia questão de nos ajudar nas lides do rancho.
Perambulando pela Companhia ele ficou encantado com nossa criação de porcos e prometi-lhe que doaria à sua aldeia um cachaço e três leitoas de uns 4 meses, o que foi feito logo depois do nascimento de sua filha Sônia.

Na época, um dos líderes dos WA era o Tuxaua Viana, inteligente, empreendedor e muito amigo dos militares a quem entreguei, em várias oportunidades, livros didáticos. O Viana era um aficionado pela Matemática e resolvíamos, juntos, alguns exercícios atendendo às suas solicitações.
Nas minhas inspeções ao trecho, eu visitava cada uma das aldeias localizadas ao longo da estrada e fazia um salutar comércio com as lideranças, trocando a farinha que eles produziam por gêneros diversos e pequenos animais que criávamos na Companhia e ensinando-lhes os procedimentos corretos que deveriam adotar para mantê-los.
Os Doutores Sampaio e Stehling, valorosos Oficiais Médico R/2 aceitaram de bom grado a incumbência de vacinar todos os WA da reserva, cuja área corresponde a um quarto do Estado de Santa Catarina. Muitas vezes eles tinham que arrastar ou carregar nas costas a canoa, que os apoiava, através das pedras do Rio Abonari e do Rio Alalaú e afluentes para chegar às aldeias mais distantes.
Era um trabalho voluntário e eles não tinham nenhuma obrigação de fazê-lo. A vacinação intensiva dos WA iniciou-se com o Dr. Sampaio e não com o “Programa WA”. Recebíamos atenciosamente, por diversas vezes, na sede da Companhia, os nativos para atendimento médico e odontológico.
O relacionamento era extremamente amigável e éramos muito bem recebidos nas Aldeias, que visitava frequentemente acompanhado de minha esposa Neiva, minhas filhas, Vanessa de um ano e meio e Danielle de três meses.

Meus dedicados médicos conseguiram pessoalmente e com o apoio da Superintendência de Campanhas de Saúde Pública (SUCAM), hoje Fundação Nacional de Saúde (FUNASA) eliminar os focos de mosquitos (Anófeles) vetores da malária ‒ não teve nenhum novo caso de malária em todo período em que lá servimos (1982/83).
Minha jovem família, a esposa Neiva, e filhas, tiveram nesse período um pai muito ausente em função do trabalho. Mas cada uma delas superou esta faze com galhardia invulgar.
Sempre que possível quando ia apenas inspecionar as atividades do 2° Pelotão, do Abonari para o Norte, e retornar no mesmo dia, levava-as comigo para visitar o canteiro de trabalho, as Aldeias Indígenas e o acampamento da Mineração Taboca onde eram muito bem recebidas. (continua...)
(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;
YYY Coletânea de Vídeos das Náuticas Jornadas YYY
https://www.youtube.com/user/HiramReiseSilva/videos
Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989);
Ex-Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato Grosso do Sul;
Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS);
Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
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