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Hiram Reis e Silva

Aqui foi Sequestrado o Embaixador Suíço


Aqui foi Sequestrado o Embaixador Suíço  - Gente de Opinião

Bagé, RS, 15.05.2026

 

Vamos continuar reproduzindo as reportagens da Revista Manchete:

 

 

Manchete n° 974, Rio de Janeiro, RJ

Sábado, 19.12.1970

 

Aqui foi Sequestrado o Embaixador Suíço

 

 

O Aero Willys gelo e os dois Volkswagens, um azul, outro vermelho, não chamaram a atenção dos motoristas apressados que passaram pela Rua Conde de Baependi, no início da manhã de segunda-feira. Os três carros permaneciam estacionados e seus ocupantes olhavam atentamente para a corrente do tráfego. Quando surgiu, afinal, o Buick azul da Embaixada da Suíça, movimentos rápidos anteciparam os lances de uma perfeita operação de comandos. Logo depois, os veículos partiriam de repente, fechando a rua e deles saltariam pessoas armadas. Com um rápido tiroteio, tudo se consumava. No asfalto, ficou o agente federal Hélio Carvalho de Araújo, ferido na espinha. No automóvel vermelho que ganhava distância pela Rua do Catete, seguia o Sr. Giovanni Enrico Bucher, o primeiro Embaixador sequestrado em toda a história da diplomacia suíça, cheia de heroísmos pacíficos e pacificadores.

 

A Neutralidade Suíça tem Sido Respeitada por Todos Através dos Séculos

 

Seria mais fácil compreender o Embaixador Giovanni Enrico Bucher como mediador de uma questão delicada entre Israel e o Egito, no canal de Suez, do que sequestrado em local incerto, no Rio de Janeiro. Isso porque mediar, arbitrar, tem sido tradicionalmente a função de seu País através dos séculos, em função de sua condição de País neutro. Em 1815, essa neutra­lidade foi reconhecida pelas grandes potências e o segundo Tratado de Paris afirmava que

 

A neutralidade suíça, a inviolabilidade de seu território e sua independência de toda influência estrangeira estão nos verdadeiros interesses da política europeia.

 

Nas duas grandes guerras deste século, a neutralidade foi reconhecida pelos estrangeiros. E é como Estado Neutro que a Suíça tem prestado relevantes serviços, na qualidade de Nação protetora dos interesses de outros Países, principalmente durante Segunda Guerra Mundial, quando representou cerca de 45 Estados em Países distintos. Esta sua função continua sendo de grande importância e mais recentemente é a Suíça ainda que tem servido de representante de interesses entre Países afastados diplomaticamente, como é o caso de Brasil e Cuba, por exemplo, ou Estados Unidos e Cuba. Essa mediação tem sido de extrema utilidade em alguns casos, particularmente nos de sequestros de aviões.

 

No Rio de Janeiro, onde está desde janeiro de 1966, o Embaixador Bucher tem sido uma figura de destaque em todos os grandes acontecimentos sociais frequentados pelo Corpo Diplomático e é frequentemente louvado por sua eficiência no cargo. Solteiro, morava sozinho com duas empregadas e dois empregados domésticos, além de dois motoristas, que se revezavam em suas funções. O casarão em que reside, na Rua Campo Belo, uma parte alta do bairro das Laranjeiras, que se atinge por Pereira da Silva, não muito longe do Palácio da Presidência da República, tem quatro salas, um lavabo, copa, cozinha e seis quartos para empregados no andar de baixo. O andar de cima tem seis quartos, mais uma sala de estar e seis banheiros. Não tem muros a mansão, cercada de jardins, que, antes de ser comprada pela Embaixada da Suíça, pertenceu ao Embaixador Osvaldo Aranha.

 

Na medida em que o permite o curto trajeto entre as Laranjeiras e a Glória, o Embaixador costumava mudar de itinerário para sua viagem diária, sempre às 08h30, de sua casa para a chancelaria, na Rua Cândido Mendes. A copeira Maria da Conceição Xavier, que trabalha na Embaixada há cinco anos desde que o Embaixador Bucher veio para o Rio, disse que na segunda-feira seu patrão saiu um pouco atrasado, cerca de 8h45min, no Buick azul, placa CD-38.

 

Menos de cinco minutos depois, estava na Rua Conde de Baependi, passagem obrigatória de um dos dois itinerários que se habituara a fazer. Lá, há cerca de 200 m do Largo do Machado, um dos centros nervosos da Zona Sul da cidade, sofreu o sequestro. Com a ausência forçada do Embaixador, sua casa ficou entregue exclusivamente aos empregados, mas cerca de meio-dia chegou ao local um choque da PM com 16 Soldados comandados por um Sargento. Na garagem, a Mercedes esporte 280-SL, vermelha, chapa CD-133, que o Embaixador usava nos fins de semana e com a qual voltara na véspera de Petrópolis, onde costumava passar os fins de semana em casa de amigos.

 

A Rua Conde de Baependi é uma estreita e movimentada Rua de Laranjeiras, pela qual escoa grande parte do tráfego desse bairro em direção ao centro da cidade. Às 08h45 de segunda-feira, 7 de dezembro, desenrolaram-se ali, em frente ao número 63, os primeiros lances do quarto sequestro político ocorrido no País nos últimos 15 meses. Em apenas dois minutos. Três homens e uma mulher, portando revólveres e metralhadoras, retiraram de seu carro e transportaram para local desconhecido o Embaixador da Suíça, Sr. Giovanni Enrico Bucher.

 

O carro do Embaixador trafegava pela Rua Conde de Baependi, quando, à altura do n° 63, o Aero Willys de placa GB-19-81-06, que ali estivera estacionado por longo tempo, arremeteu de frente contra ele. Ao mesmo tempo, o Volks, modelo 67, cor azul, placa GB-35-50-41, estacionado ao lado oposto, recuava de marcha à ré, bloqueando totalmente o caminho. Tiros foram disparados pelos terroristas, e um deles atingiu o agente federal Hélio de Araújo. Enquanto o motorista Ercílio Geraldo abaixava-se dentro do carro, o Sr. Bucher era violentamente transportado para o Volks de placa GB-15-52-56, que partiu em grande velocidade, no rumo da Rua do Catete, de onde seguiu para local desconhecido. O que aconteceu nos dois minutos em que durou toda a ação dos terroristas foi assim descrito pelo motorista Ercílio Geraldo:

 

Diante da ordem de abandonar o veículo dada por um dos sequestradores, o Embaixador ainda tentou parlamentar, dizendo:

 

Mas eu não faço mal a ninguém.

 

Dois homens, magros e altos, haviam-se aproximado do carro, de revólveres em punho. Logo que percebi que os carros dos sequestradores tinham arrancado, levantei-me e escondi-me num edifício em frente. O Embaixador, então, passou para o carro deles.

 

Trinta minutos após o sequestro, o Delegado Raul Faria e o Comissário Washington Machado do 9° Distrito Policial, rumavam para o local, a fim de tomarem as primeiras providências. Logo chegariam a Perícia e as autoridades militares. Na área oficial, realizavam-se os contatos iniciais para estudo da situação. No Itamarati, reuniram-se os Ministros do Exército e da Marinha com funcionários diplomáticos, declarando-se, à saída do encontro, que o Governo Brasileiro empenharia todos os seus estorço para salvar a vida do diplomata suíço. Já então, as principais capitais do mundo eram informadas de que havia ocorrido um novo sequestro de caráter político no Brasil.

 

Uma gigantesca operação policial-militar foi desencadeada minutos após o sequestro com o bloqueio de todas as saídas do Rio de Janeiro. Túneis e ruas também foram interditados e em pouco todo o tráfego estava congestionado, pois se exigia a identificação de dezenas de milhares de motoristas e passageiros. Na Estação Novo Rio, as viagens para os Estados estiveram suspensas por quase 12 horas.

 

As emissoras de rádio passaram a editar noticiosos, dando as informações possíveis sobre os acontecimentos em curso. Em um manifesto lançado na ocasião do sequestro, os terroristas anunciavam a intenção de pedir a libertação de prisioneiros em troca da libertação do Embaixador. Admitia-se, nos meios diplomáticos, que o Governo Brasileiro seguiria, em síntese, a mesma orientação adotada quanto aos casos dos sequestros dos Embaixadores Elbrick e Von Holleben e do cônsul do Japão em São Paulo. As últimas horas da noite de segunda-feira, o primeiro secretário da embaixada da Suíça, Sr. Maurice Jean Reinauld, dizia que:

 

Confiava plenamente na ação do Governo Brasileiro, quanto ao resgate do Embaixador Bucher.

 

Àquela hora, o tráfego já se restabelecera nos túneis e nas avenidas principais, regularizando-se a chegada e partida dos ônibus interestaduais. O que se iniciava era a longa vigília, à espera das negociações que poderiam devolver à liberdade o Embaixador suíço.

 

O Agente Federal não Teve Tempo de Sacar a Sua Arma. Uma Bala o Feriu na Medula

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Para o agente federal Hélio de Carvalho Araújo, aquela segunda-feira, 7 de dezembro, era um dia normal. Saiu de casa bem cedo e dirigiu-se para a residência do Embaixador Giovanni Bucher, na Rua Campo Belo, 199, em Laranjeiras. Como sempre, acompanharia o diplomata até a sede da Embaixada, na Rua Cândido Mendes. Nem chegou a comentar o assunto com a mulher, Srª Lúcia Rodrigues Carvalho de Araújo, e com sua filha Célia, de 24 anos. Afinal, por que comentar um trabalho rotineiro?

 

Sua função era justamente aquela: proteger o Embaixador. No dia seguinte, sim, Hélio Araújo tinha uma data a comemorar: completaria um ano de polícia.

Horas após ter saído de sua residência para a missão de rotina, o agente federal estava internado no Hospital Miguel Couto, com uma bala .45 alojada na medula. Ao seu lado, sua mulher, sua filha e os médicos. Célia só soube do que tinha acontecido ao pai quando o ônibus que a levava à escola em que leciona foi parado por policiais, que passaram a revistar os. Passageiros. Àquela hora, já chegara à Delegacia do 9° Distrito Policial uma pistola Beretta a arma que Hélio Araújo não pôde sacar para se defender dos terroristas.

 

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

 

YYY Coletânea de Vídeos das Náuticas Jornadas YYY

https://www.youtube.com/user/HiramReiseSilva/videos

 

Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989);

Ex-Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato Grosso do Sul;

Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);

Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS);

Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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