Porto Velho (RO) quinta-feira, 19 de setembro de 2019
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Helder Caldeira

Rubro (sangue) Negro (luto)


Rubro (sangue) Negro (luto) - Gente de Opinião

HELDER CALDEIRA 

Foi impressionante observar a falta de sensibilidade e pertinência temática da diretoria do Flamengo, um dos maiores times de futebol do Brasil e protagonista da cena mais descompassada dos dias de tragédia que acometem o estado do Rio de Janeiro. É absolutamente compreensível o desejo da presidente do clube, Patrícia Amorim, e de sua diretoria e patrocinadores em apresentar o jogador Ronaldinho Gaúcho numa grande festa para os torcedores. No entanto, diante da tristeza e da catástrofe que arrasaram aquela quarta-feira, o evento flamenguista só reforçou a imagem de mercenário do ex-craque e ofuscaram qualquer boa nova midiática que possa representar sua contratação milionária.

Muito além de qualquer sentimentalismo futebolístico tupiniquim, o que está em questão é a ordem prática da situação. Alguém pode imaginar o representa colocar cerca de 20 mil pessoas em uma comemoração no Rio de Janeiro em plena quarta-feira? Será que alguém consegue supor o aparato de segurança necessário para a realização de um evento como esse? Quantos policiais, ambulâncias, técnicos e toda sorte de equipamentos o estado tem que mobilizar para que o Flamengo comemore sua nova estrela? Enquanto isso, os governos federal, estadual e municipais, a Marinha e o Exército, estavam tentando reunir o maior contingente de recursos humanos e materiais para as operações emergenciais de resgate e salvamento das milhares de vítimas da região serrana do Rio de Janeiro.

Esperava-se um pouco mais de bom senso e solidariedade do time carioca que, ao invés de adiar a festa para uma data mais adequada, decidiu esfregar na cara das milhares de vítimas, a quem falta comida, água, socorro e cuidados, os milhões de reais alocados para trazer de volta ao Brasil um atleta em franca decadência na Europa. Esperava-se sensibilidade de Ronaldinho Gaúcho, que preferiu festejar seu salário mensal estimado em mais de R$ 1 milhão, enquanto seus espectadores eram contabilizados como mortos, às centenas, na vizinhança de sua comemoração. Uma inacreditável incoerência em um dos dias mais tristes e trágicos da história do Rio de Janeiro.

Se não é possível esperar sensibilidade ou deferência de um jogador de futebol e de seu novo clube, que fossem, pelo menos, estrategicamente inteligentes. Quando um time contrata uma estrela, o grande objetivo de sua festa de apresentação à torcida é exatamente gerar mídia e divulgação, alavancando os royalties dos patrocinadores e o incremento na venda dos produtos licenciados. Espera-se sempre que a contratação estampe as capas dos jornais do dia seguinte e seja manchete nos principais telejornais. Muito além de desrespeitosa, a grande festa de apresentação de Ronaldinho Gaúcho na catastrófica quarta-feira foi uma burrice atroz. Indiretamente, o ex-craque foi dragado pela lama mórbida que desceu da serra. Virou notinha de rodapé de matérias focadas na tragédia.

Se inteligentes fossem, teriam cancelado a comemoração e o próprio jogador teria doado boa parte de seu novíssimo salário milionário para as vítimas da catástrofe. Poderia até parecer oportunista, mas seria melhor que chancelar o título de mercenário, dando razão aos gremistas e palmeirenses que se dizem enganados pela negociação pateticamente novelesca e sanguessuga de seu irmão. O coração dos rubro-negros ficaria orgulhoso e, certamente, tal atitude faria bem à imagem do jogador e do próprio clube. No entanto, as decisões não poderiam ser piores. Ronaldinho, mais cedo ou mais tarde, vai passar. Mas na camisa do Flamengo ficará a mancha insensível da inesquecível tragédia. O rubro verte-se em sangue e o negro transmuta-se em luto, nessa nossa terrinha do futebol onde os dias de samba se aproximam. Lamentável.

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Fonte: HELDER CALDEIRA
Escritor, Colunista Político, Palestrante e Conferencista / http://twitter.com/heldercaldeira
 www.magnumpalestras.com.brheldercaldeira@estadao.com.br

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