Porto Velho (RO) sexta-feira, 23 de agosto de 2019
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O cardeal eletricista


O cardeal eletricista - Gente de Opinião

Eu me encontrava na Itália quando um prédio de Roma, na Via Santa Croce, ocupado por 450 pessoas, entre as quais uma centena de crianças, ficou dias às escuras devido à dívida de 300 mil euros com a empresa fornecedora de energia. Contudo, teve a luz religada graças à habilidade de eletricista do cardeal Konrad Krajewski. Ele simplesmente entrou no poço do edifício, onde fica a central energética, removeu os lacres e a pôs a funcionar.

          Perrini, um dos moradores, contou: "O cardeal, que no passado já foi nosso hóspede, porque vem para cuidar de idosos, doentes e crianças que moram aqui, chegou na tarde de sábado, por volta das 17h, a bordo de uma van cheia de presentes para as crianças. Ele sabia que estávamos sem eletricidade há três dias. Assim que chegou, telefonou para a Acea (empresa de energia) e a prefeitura de Roma, pedindo que reativassem a eletricidade às 20h, caso contrário ele próprio faria isso. Por volta das 20h15, o cardeal retornou, nos explicou que entendia de energia elétrica porque, antes de ser padre, na Polônia, havia trabalhado no setor, e novamente chamou as autoridades municipais para manifestar a sua intenção. Depois entrou no poço onde fica a nossa instalação elétrica, fez uma série de procedimentos, como se fala no jargão técnico, e a luz voltou. Eu realmente não sei como ele fez isso, mas fez."

          O ministro Salvini, que comanda a política italiana, ficou bravo com a ousadia do cardeal e declarou que ele “agora deve pagar as contas em atraso”.

         Krajewski declarou: "Intervi pessoalmente para religar os medidores. Foi um gesto desesperado. Havia mais de 400 pessoas sem eletricidade, com famílias, crianças, sem sequer a possibilidade de manter ligadas as geladeiras."

       O cardeal polonês, de 55 anos, é o principal assessor do papa Francisco no cuidado dos pobres. Cedeu o seu apartamento em Roma para abrigar uma família refugiada da Síria e passou a dormir no cômodo que lhe serve de escritório.

       À noite ele circula pela capital italiana dirigindo um furgão repleto de alimentos, roupas e cobertores para distribuir às pessoas que dormem ao relento. Foi ele que tomou as providências para construir, por ordem do papa, instalações sanitárias, incluindo chuveiros e barbearia, para uso dos mendigos que fazem ponto em torno do Vaticano, na esperança de receberem algum dinheiro de peregrinos e turistas.

          Na conferência que proferi na Universidade Lumsa, no Vaticano, sobre a conjuntura política do Brasil, ao lado de Jessé de Souza, me perguntaram o que achava da atitude do cardeal. Respondi não ver nada de estranho no fato de um cardeal, discípulo de um carpinteiro palestino, ser eletricista. Estranhos são os cardeais que se julgam príncipes, moram em palácios e gastam fortunas com seus trajes eclesiásticos.

          A instituição cardinalícia é herança do Império Romano, e não encontra fundamento na comunidade apostólica formada por Jesus. Sempre me pergunto se foi a Igreja que converteu Constantino, no século IV, ou se foi o imperador que converteu a Igreja em uma instituição monárquica que, ao longo da história, muitas vezes trocou seu serviço evangélico pela pompa do poder.

      O título de “cardinalis” era dado pelo imperador a generais e prefeitos pretorianos. Os cardeais são os senadores da Igreja e têm por função eleger o papa e assessorá-lo. Até o século XII o papa era eleito pelo clero e fiéis de Roma.

        A cor predominante nos trajes cardinalícios é a vermelha, também usada outrora pelos senadores romanos. Na Igreja,  significa a disposição de derramar o próprio sangue na defesa dos valores evangélicos. Mas nem todos os cardeais se mostram dispostos a trilhar o caminho de Jesus, como o fez o cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo que destemidamente assumiu a defesa das vítimas da ditadura, entre os anos de 1969 e 1985. Muitos preferem as pompas imperiais às sandálias dos pescadores. Por isso, se opõem abertamente às reformas do papa Francisco, empenhado em desclericalizar a Igreja e livrá-la da corrupção sexual e financeira.

 

Frei Betto é escritor, autor de “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros.

 
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