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Gente de Opinião

Luka Ribeiro

O Sonho Aromático


 

Felipe Azzi

                ARISTONILDO CALHAÇA conquistador não era. Tinha até mesmo grandes dificuldades nas abordagens românticas. Mas, no secreto de seu pensar, nutria o desejo de navegar nas marolas dos arredondados de certa ORNELINA POTENGUI. Por isso, foi ancorar a nau de seus anseios no porto mal-assombrado de ZOZÓ-PENA-BRANCA, “macumbeirista” renomado. E, já na chegada, sentiu a força espiritista de Zozó, que o recebeu assim:

                 – O distinto deve dizer logo a que veio, pois o meu expediente é regulado na Caixa Registradora. Não tenho tempo a perder com “desimportância” de reza pra conseguir emprego, briga com sogra e coisas correlatas.

                ARISTONILDO foi franco:

                – Desejo do insigne Pai-de-Santo um favor especial, na forma de trabalho mimoso, para conquistar o “amor da minha vida”. Monto-lhe uma “TENDA” de couro de girafa africana, sem mencionar o reforço em papel moeda, caso o resultado seja positivo.

                E expôs, com todos os pormenores, a razão de seu sofrimento: o sonho chamado ORNELINA.

                Zozó, depois de varejar a fumaceira do cachimbo no recinto, estipulou:

                – O que o amigo quer é de pequena monta, mas exige ciência e ponderação. Nada que não se resolva com um bom “banho” de reza braba no comando do caboclo “ROMPE-TRAVA”, para liberar o impedimento aproximativo de que é possuída a sua pessoa.

                Concluído o “banho”, acalentado por fungações, gemidos e sinalefas próprias do mister, o “Pai-de-Santo” retirou da prateleira de mucumbagens um pote com pasta preta, recomendando a ARISTONILDO:

                – Passe nos cabelos essa brilhantina composta de Seiva de Mutamba, encorpada com gordura de Caburé e incrementada de pós de unha de Tatu-Peba e de perna de Grilo do Brejo. Depois disso, enfrente a praça com denodo, que vai ser caça no embornal.

                Cumprido esse ritual, ARISTONILDO desembocou na Praça Marcos Capreone, no justo momento em que ORNELINA cruzava em seu caminho, para ouvir dela observação mal-cheirosa, lançada no ar desse modo:

                – Cruzes!... Soltaram uma tropa de gambás na praça... Que cheiro horrível!... Devia ter uma lei que proibisse o transitar de bodes em tardes de domingo.

                ARISTONILDO nem teve tempo de se recuperar da afronta, porque a pessoa de FELISTOSA VERGUEIRO surgiu pendurada em seu braço, com olhares melosos e intenções mais melosas ainda, declarando:

                – “Aromância” bem calhada, sacudiu minhas recordações!... O falecido ABRANTINO GRUNHÕES VERGUEIRO, meu marido, tinha esse aromatismo. Acho que vou dar cabo à minha viuvez de trinta anos.

                Os borzeguins de ARISTONILDO criaram asas para sumir da praça, percorrer a Avenida Central, só parando na Tenda de Zozó para reclamar dos resultados, aos berros:

                – Seu Zozó... Que diabo de mandinga descalibrada é essa que colocou uma anciã no lugar de meu bem-querer?

                E Zozó, com ares benzedeiros, perguntou:

                – O consulente passou o composto nos cabelos, passou?

                ARISTONILDO, ainda arfando pela corrida, respondeu:

                – Fiz tudo como recomendado!... Até dei reforço nas partes da sovaqueira com o desodorante “Paraíso Encantado”!

                – Aí está a causa do desastre! – Disse Zozó, completando:

                – É no que dá não respeitar o recomendativo do trabalho. Reverteu o resultado!... Imagine, misturar a energia da reza com o aromatismo irresponsável desse desodorante desencantado.

                E, concluindo:

                – Suma da minha frente, projeto de Romeu mal elaborado... Vai ter azar assim lá na Bahia!

               

               

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