Quarta-feira, 23 de abril de 2014 - 08h35
Felipe Azzi
Eram executivos bancários. Um em terras chapadas mato-grossenses e outro nos vales dos cerrados goianos. Trabalharam numa época em que os recursos financeiros bancários eram muito escassos, provocando até mesmo constantes pausas operacionais na liberação de empréstimos financeiros. Os dois profissionais sempre se encontravam nas reuniões de gestores promovidas pela matriz bancária a que serviam. Nessas ocasiões, descontados os “patos no tucupi” e as tigelas de “açaí” – de muito apreciar por ambos – costumavam trocar experiências malabarísticas que usavam para denegar solicitações de empréstimos, avalizadas de mau caráter e de duvidoso retorno .
Certa vez, aos estalos da quebra de “unhas de caranguejo”, em pitoresco restaurante de Belém do Pará, Paulo, o gestor cuiabano, largou no recinto a seguinte questão:
– Amigo, tem sido duro negar pedidos de empréstimos!... Já não tenho desculpas a que recorrer... Só no presente semestre recusei dezoito solicitações de pecúnia sob a justificativa de que a Carteira de Empréstimos está fechada por excesso de demanda... E que os inadimplentes contumazes não dão fôlego à Carteira... E, para piorar as coisas, o “boi gordo” anda magro, além do nojento “empréstimo compulsório “ ser implacável. Botei a culpa até no Ministro da Fazenda... Haja paladar para digerir um sufoco desses.
E, deixando de lado a última “unha de caranguejo”, fitou Felipe, o gestor bancário goianiense, para perguntar:
– O compadre tem tido essas dificuldades, bem sei. Mas o que faz para recusar essas investidas?
– Vivo esses percalços , e muitos outros, seu compadre! – Disse Felipe, saboreando a sobremesa de compota de “bacuri” e, completando:
– Lembro-me de um cliente, desses despachados e oportunistas que, necessitando de reforço de caixa, queria fazer um “papagaio mudo” para cobrir negócio apalavrado e urgente... Ao saber da impossibilidade de atendimento, coçou a cabeça, sorveu o cafezinho oferecido, resmungando aos choramingos que por essa não esperava e que perderia um ótimo negócio.
O gestor goianiense foi buscar coragem nos arquivos do tempo em que serviu na Força Aérea Brasileira, para afirmar:
– É no que dá... Trabalhar com um Banco mequetrefe, zambeta, e cheio de “nove horas” que, na hora do aperto, nem socorre os clientes necessitados...
– Não diga isso do seu Banco!... – Disse o cliente, completando:
– É um bom Banco, sim senhor!...
– Não é!... – Enfático, afirmou o gerente enrolão... – Se fosse... não deixaria o amigo nesse apuro!
– Mas lhe digo que é bom mesmo... Não tenho do que me queixar!... – Arrematou o cliente necessitado, apurado, mas bem servido e agradecido.
Casos como esses eram comuns no cotidiano bancário, no tempo em que a lucratividade dos Bancos provinha de atividades produtivas e não especulativas...
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