Sábado, 1 de maio de 2010 - 07h50
A imaginação dos traficantes da biodiversidade nos rincões da Amazônia é diretamente proporcional à qualidade do armamento que os traficantes de drogas exibem nas grandes cidades. É o que tem se constatado nos últimos tempos
Enquanto nos grandes centros urbanos a polícia volta e meia apreende material bélico privativo das Forças Armadas – até mísseis são encontrados em poder das quadrilhas −, na Amazônia os truques dos negociantes inescrupulosos chega a refinamentos tais como enfiar pássaros canoros ou vistos em tubos de PVC para driblar a escassa fiscalização existente.
Em São Paulo e no Rio de Janeiro já foram encontrados mísseis e seus lançadores em posse de quadrilhas. Um deles estava para ser usado na libertação do sequestrador Wanderson Paula de Lima, o Andinho, do Presídio de Segurança Máxima de Presidente Venceslau, interior paulista, ou o traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, além de dois integrantes do PCC do presídio de Presidente Bernardes.
Na Amazônia, sempre em busca de meios mais eficazes de driblar e vencer as autoridades, os bandidos empenhados na captura de canários, curiós e araras nas matas “incrementam” seu transporte, habitualmente feito em malas, mochilas e caixotes, introduzindo novas formas, como socá-los em tubos de PVC. Mas um novo e mais sofisticado método foi encontrado: fazer os pássaros parecerem autorizados pelo Ibama.
Ao ser capturado, os pássaros recebem “anilhas” de identificação, que funcionam como uma espécie de atestado de legalidade ou salvo conduto. Essas “carteiras de identidade” dos pássaros selvagens são compradas pelos traficantes junto a criadouros autorizados. Como não há fiscalização sistemática desses criadouros, os proprietários mal-intencionados requisitam do instituto um número de anilhas superior àquele necessário para identificar os filhotes nascidos no estabelecimento e usam o excedente para abastecer o estoque dos traficantes.
O Ibama já sabe que, de cada dez anilhas que distribui, sete acabam nas mãos de traficantes de aves silvestres, mas saber não é agir. E o tamanho da ação possível não tem sido amplo o bastante para inibir esse rendoso e ilegal comércio, que vem a ser uma das vergonhas das autoridades: mostra sua ineficiência no combate ao crime ligado à predação da biodiversidade.
E assim, usando anilhas oficiais, que triplicam o valor das aves apanhadas, e levando granadas e mísseis nas algibeiras, os traficantes do mato e da cidade vão desafiando as autoridades.
Fonte: Carlos Sperança
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