Porto Velho (RO) sexta-feira, 20 de setembro de 2019
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Antonio Fonseca

Círio de Nazaré – A festa maior dos paraenses na 'Capital das Mangueiras'


 

Círio de Nazaré – A festa maior dos paraenses na 'Capital das Mangueiras' - Gente de Opinião
A imagem da Virgem Santa de Nazaré


*Por Antônio Fonseca
 

Começa às 6h30 deste domingo, 9 de outubro a 218ª edição do Círio de Nossa de Nazaré, com a grande procissão, em Belém do Pará, rumo à Praça Santuário de Nazaré.

Desde 2004, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) instituiu o evento como patrimônio cultural imaterial.

O coordenador do Círio de Nazaré, o médico César Neves, afirmou que se trata de "uma festa inigualável". O médico, que está há 3 anos à frente da coordenação, considera o Círio "a maior manifestação religiosa de todo o mundo".

Para o arcebispo de Belém, dom Alberto Taveira, apesar de a imprensa dar destaque à enorme corda que une os fiéis durante a procissão, o maior ícone da festa é a grande participação popular em torno da imagem de Nossa Senhora de Nazaré.

O Círio de Nazaré é considerado a maior manifestação católica do planeta. Para este domingo, os organizadores esperam cerca de 2 milhões de fiéis nas ruas.

O clímax da comemoração é sempre no segundo domingo de outubro, mas as festividades e eventos em reverência à santa se estendem de março a dezembro.

 

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A Berlinda levada pelos fiéis na Avenida Nazaré

Círio de Nazaré 
O começo de tudo

Contam os historiadores paraenses que um caboclo chamado Plácido José de Souza, andava calmamente pela floresta nas proximidades de Belém do Pará, quando, de repente observou algo boiando nas margens de um igarapé.

Ele pega e leva pra sua casa uma imagem feita de madeira. Mal sabia ele que havia acabado de encontrar a imagem de Nossa Senhora de Nazaré. Porém, no dia seguinte, a imagem havia sumido e ninguém sabia do seu paradeiro.

Plácido voltou ao local, onde tinha ido no dia anterior e lá reencontrou, à margem do igarapé Murutucu, a imagem. Toda vez que o caboclo a levava para sua casa, no dia seguinte ela desaparecia e voltava para o igarapé.

O governador da época, impressionado com o acontecimento, mandou buscar a imagem para o Palácio do Governo, e ordenou que a guarda palaciana ficasse em total vigilância.

De nada adiantou! Na manhã seguinte a imagem havia desaparecido novamente.

Os devotos achavam que ela queria ficar à margem do igarapé, pois seria considerada a padroeira dos pescadores portugueses. E lá construíram uma pequena capela onde encontra-se, hoje, a Basílica de Nazaré. Ponto de peregrinação de todos os paraenses e não paraenses devotos de Nossa Senhora de Nazaré.

Com o tempo, os milagres foram crescendo, levando milhares de fiéis com seus agradecimentos. No ano de 1793, o governador, para pagar uma promessa pela melhora de sua doença, levou a imagem à capela do Palácio do Governo.

No dia seguinte, o povo levou-a de volta para sua pequena capela, dando assim, o início do primeiro Círio.

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A corda, um dos símbolos do Círio em Belém do Paré

Um certo dia, uma tempestade fez a Baía do Guajará transbordar e atolar o carro de boi que transportava a berlinda com a imagem da Santa. Um devoto resolveu passar uma corda pelo carro e puxá-lo.

Em 1868 a corda foi oficializada e hoje é considerada como um dos maiores símbolos do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, em Belém do Pará. Agarrados a ela, os fiéis pagam as suas promessas.

Foi assim que surgiu uma das maiores festas religiosas, comemorada todo segundo domingo do mês de outubro, nas ruas de Belém do Pará,
conhecida pelos paraenses como “Cidade Morena” ou “Cidade das Mangueiras”, que recebe milhares de turistas de todo o mundo.

A padroeira dos paraenses é também a padroeira dos navegantes. Por isso, a romaria fluvial é um dos mais esperados, belos e emocionantes momentos de devoção à virgem de Nazaré.

O evento foi realizado pela primeira vez em 8 de outubro de 1986, organizado pela Paratur. 
 
A imagem é levada por um barco, enfeitado com flores, balões e fitas coloridas. A embarcação segue pela baía do Guajará, no entorno de Belém, seguida por centenas de outros barcos ornamentados.

As embarcações que acompanham o evento também participam de um concurso promovido pela Paratur, que escolhe a mais bela decoração.

O trajeto Icoaraci-Belém dura, em média, cinco horas. Ao chegar ao cais do porto da capital, a virgem recebe mais homenagens com queima de fogos. A imagem é recebida por uma multidão.

São motoqueiros, motoristas e outros milhares de fiéis. A imagem é conduzida até o Colégio Gentil Bittencourt, de onde só sai à noite, para a trasladação.


 

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Romaria fluvial, navio da marinha do Brasil com a imagem da Virgem de Nazaré.

Há infinitas manifestações de devoção durante o mês de outubro. Em Belém, uma outra expressão de fé vem das crianças.

O Círio das Crianças acontece sempre no primeiro domingo depois da grande procissão. A romaria dos pequenos é grande em homenagens.

Ao longo de todo o percurso da procissão, que começa logo após uma missa campal na Praça Santuário, os pequenos fiéis cantam, rezam e balançam lenços para Nossa Senhora de Nazaré.

As crianças, que antes só eram vistas no grande Círio, enfeitando os carros dos anjos - como fruto de promessas - ou no colo dos pais, ganharam uma procissão só para elas, em 1990. A caminhada dos romeiros mirins é repleta de particularidades.

Os cânticos religiosos, por exemplo, são em versão infantil. Fogos são lançados ao longo da procissão para alegrar a meninada. Um carro som também ajuda na empolgação.

A romaria é curta, de apenas 1,8 quilômetros, e dura, em média, uma hora e meia. Ao final, apesar do cansaço, os pequenos ainda mostram fôlego para enfrentar uma longa fila e realizar um desejo: beijar a imagem da Santa.

O Recírio é o último momento do Círio de Nazaré. É quando os paraenses se despedem de sua padroeira, na segunda-feira, 15 dias após a grande procissão do segundo domingo de outubro. Nesse dia, a cidade pára.

O sentimento é de saudade. É o fim do encontro entre Mãe e Filho. De manhã, quando é realizada a procissão, nada funciona em Belém.O Recírio começa após uma missa campal no Centro Arquitetônico de Nazaré às primeiras hora da manhã.

Depois, a imagem da padroeira dos paraenses é conduzida em um andor pelas ruas ao redor da Praça Santuário, em frente a Basílica de Nazaré em direção à Capela do Colégio Gentil Bittencourt, onde ficará até o próximo Círio.

É um trajeto curto, de apenas meia-hora, mas suficiente para os fiéis prestarem suas últimas homenagens à Santa.
 



O lado profano das festas
e comidas típicas do Pará

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Pato no Tucupi
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A Maniçoba

A

floresta amazônica - fonte de inspiração para os índios em diversos setores – também originou uma das mais típicas e surpreendentes cozinhas do Brasil.

Da natureza rica em ervas, frutos, sabores e cheiros nasceu a gastronomia paraense. É considerada a mais autêntica e exótica do país e responsável por colocar o Pará em destaque no roteiro turístico gastronômico nacional e internacional.

A festa do Círio de Nazaré, considerada o Natal dos paraenses, tem como um dos grandes momentos o almoço do domingo de Círio. Em todos os lares, o almoço do Círio confraterniza as famílias, hóspedes e amigos.

É quando a rica culinária paraense pode ser melhor apreciada. Além dos pratos típicos, como o pato no tucupi e a exótica maniçoba, os frutos do mar, da floresta, dos rios e das imensas fazendas paraenses compõem os

cardápios: enormes peixes, como o pirarucu, a pescada amarela, o tambaqui, o tucunaré e o filhote, assados inteiros ou em moquecas.

Tem ainda os filés de búfalo da ilha do Marajó; camarões rosados e cinzentos, patas de caranguejo, ostras e sernambis, oriundos da Amazônia Atlântica; delicados cremes e deliciosos sorvetes de frutas variadas – mangas, abacaxis, açaí e também bacuris, cupuaçus e muricis; queijo fresco; tartarugas oriundas dos criatórios artificiais.

O Pará herdou a arte portuguesa dos doces, e aplicou-a sobre as frutas amazônicas: as tortas, docinhos e bombons recheados são únicos e deliciosos.

A mandioca na alimentação do paraense tem um papel expressivo. De seu processamento saem o tucupi, a farinha d´água – que acompanha as principais refeições – e o amido, chamado tapioca, usado em diversos pratos e sorvete.

 As frutas regionais complementam o cardápio. Uma diversidade que pode ser encontrada na Feira do Ver-o-Peso, em Belém, e, de quebra, consumida em doces e sorvetes, compondo maravilhosas sobremesas - um destaque a mais da culinária paraense.

Como exemplos, o cupuaçu, o bacuri, o taperebá e a própria manga e o açai, esta muito encontrada em feiras e nas ruas da capital. 
 
O açaí é um dos frutos mais apreciados pelos paraenses e por quem visita o Pará. Dele é extraída uma espécie de suco grosso, de cor arroxeada, não alcoólico.

Os paraenses o consomem misturado com farinha d’água ou de tapioca, e geralmente acompanhado de peixe frito, camarão assado, ou alguma outra carne salgada.

O tacacá é uma iguaria da região amazônica brasileira, em particular do Acre, Pará, Amazonas, Rondônia e Amapá.

É preparado com um caldo fino de cor amarelada chamado tucupi, sobre o qual se coloca goma, camarão e jambu.

Serve-se muito quente, temperado com sal e pimenta, em cuias.

Sua origem é indígena e, segundo Câmara Cascudo, deriva de um tipo de sopa indígena denominada mani poi.

Câmara Cascudo diz que “Esse mani poí fez nascer os atuais tacacá, com caldo de peixe ou carne, alho, pimenta, sal, às vezes camarões secos.”

Devoção da Santa em Porto Velho

A presença dos paraenses, devotos de Nossa Senhora de Nazaré em Rondônia, em especial, Porto Velho, data desde a sua fundação.

Vejamos o que conta a história. Segundo o escritor Charles A. Gould, um dos auxiliares de Farqhuar, no seu livro The Last Titan, traduzido a pedido do escritor Amizael Gomes da Silva, para assertivas em seu livro “Conhecer Rondônia”, 2ª Edição, pg. 80”, “após o encerramento da guerra uma área, próximo ao rio, foi ocupada por lenhadores que vendiam a madeira como combustível para as máquinas a vapor”.

“Depois de tomada a decisão de mudança do porto de Santo Antônio, Percival Farqhuar determinou a contratação de 140 paraenses em Belém do Pará para o início dos trabalhos de limpeza, roça e queima de mato do local”.
“Destes trabalhadores, apenas 80 ficaram em Porto Velho. Os trabalhos de limpeza foram realizados no campo 01. O local escolhido foi nas proximidades da entrada da grande curva do rio Madeira, perto das águas mais profundas” .

“Ali, nas terras do seringal de José da Costa Crespo, que se fixou onde é hoje o Porto da Portobrás ou nos Lotes Milagres, que foram os seringais de Joaquim Bentes, começava a epopéia”.

“Essas terras limitavam-se com as André Frandoli e as de Suarez Hermanos, razão que levou Farqhuar a comprar as duas áreas denominadas Candelárias, onde foi construido um hospital, e Santa Marta, na qual construíram o Porto de desembarque do material pesado da Estrada”. (Reminiscências do Madmarly, livro de José Hugo Ferreira).

Relata a historiadora Yêdda Pinheiro Borzacov, em seu livro, “Rondônia – Espaço, Tempo e Gente”, que “a devoção a Nossa Senhora de Nazaré, em Rondônia, particularmente em Porto Velho, sua capital, data de 1931, quando expressivo número de famílias paraenses, radicaram-se em Porto Velho trazidos pelo primeiro diretor brasileiro da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, o paraense da região bragantina, Aluízio Pinheiro Ferreira.”

“Eram as famílias dos Silveira Britto, dos Pinheiro Ferreira, dos Borralho de Medeiros, dos Penna Pinheiro, dos Laudelino de Almeida, dos Oliverinha, dos Teixeirinha, dos Souza Cordeiro, dos Ferreirinha, dentre muitos outros, que irmanados na mesma devoção e liderados por Aluízio Ferreira, introduziram o culto à milagrosa Virgem, homenageando-a com o Círio, tradição de fé e o transbordamento religioso do paraense, passando, inclusive, essa devoção para as outras colônias aqui radicadas, de amazonenses, de cearenses, de piaiuenses, de maranhenses, etc”.

Quando em 1943, foi criado o Território Federal do Guaporé, escolheu-se para padroeira da nova unidade da federação, Nossa Senhora de Nazaré, prosseguindo, portanto, a homenagem à Santa, com a realização do Círio, no segundo domingo de outubro, como reza a tradição no Pará.

Na véspera, à noite, a imagem da Santa, adquirida no Rio de Janeiro por Aluízio Ferreira, era conduzida com grande acompanhamento, da Catedral do Sagrado Coração de Jesus para a Capela do Hospital São José. Era a trasladação.

E no domingo do Círio, a procissão fazia o percurso inverso, percorrendo as ruas da então pacata e bucólica Porto Velho, sendo conduzida a berlinda com a imagem da Santa pelo diretor da EFMM e mais três paraenses.

A berlinda era antecedida pelas autoridades, por um carro cheio de crianças vestidas de anjos e pela banda de música da Guarda Territorial tocando hinos sacros, e precedida por um ensurdecedor espocar de foguetes seguida pelo povo, cantando hinos de louvor à Santa e entoando preces...

O momento culminante do Círio era a chegada da imagem em frente a Catedral do Sagrado Coração de Jesus, ocasião em que era celebrada uma missa solene. Em seguida, a imagem era retirada da berlinda e o bispo subia os degraus da escada da Catedral, erguia-a por cima da cabeça, e abençoava o povo presente. A emoção tomava conta dos devotos.

Em 1950 quando Petrônio Barcelos assumiu o cargo de Governador do Território, a devoção do povo por Nossa Senhora de Nazaré deixou-o tão emocionado que por meio do Decreto nº 18, de 5 de abril de 1951, “considera monumentos do Território a imagem de sua Padroeira, Nossa Senhora de Nazaré e a Catedral de Porto Velho”.

O governador Petrônio Barcelos entendeu a demonstração de fé, solidariedade, de fraternidade e determinação do povo à sua Padroeira.

“Os tempos e os costumes mudaram, poucas pessoas no Estado de Rondônia sabem, hoje, que Nossa Senhora de Nazaré é a padroeira dos rondonienses, porém a fé dos paraenses residentes em Porto Velho, principalmente de seus descendentes, dos padres cambonianos da Paróquia de Nossa Senhora das Graças e dos organizadores e moradores do bairro Jardim Ipanema, subsiste, intangível, através dos anos, resistindo bravamente a todos que tentam esfacelar as tradições, a cultura e os costumes do nosso povo”.


*Antônio Fonseca é paraense/rondoniense.
É radialista,jornalista e advogado em Pvh. www.rondomarcas.com
É de Belém do Pará. Tem parentes em Altamira, Belém, Vigia e outros municípios paraenses.
Contato: e-mail: rondomarcas@gmail.com

 

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