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Parcagem fertilizava o solo bem antes dos minerais


 

Parcagem fertilizava o solo bem antes dos minerais - Gente de Opinião
Milhões de agricultores nas regiões mais populosas do mundo utilizam o esterco de animais como um indispensável insumo agrícola /DIVULGAÇÃO

 

 

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RAIMUNDO BRABO ALVES
e ALFREDO HOMMA

 

BELÉM, Pará – Parcagem é um método milenar sufocado pela “agricultura moderna” em nosso País. Introduzido pelos colonizadores e colonizados ele foi por muito tempo a única forma de fertilização de solo antes do advento dos fertilizantes minerais.

 

Foi tão discriminado que não tinha descrição nos dicionários. Na extensão rural pudemos conhecer a parcagem com pequenos criadores nos campos naturais do Amapá, nos anos 1970. Eles cultivavam feijão, milho, fumo e formavam capineiras para desmame de bezerros.

 

Com a palavra “parcage”, a língua francesa reconhece e aparecem milhares de trabalhos de pesquisa conduzidos no continente africano. A propósito, na África esse método é ainda hoje a redenção da agricultura, principalmente na Nigéria, onde um rico agricultor não tem mais de 1,5 hectare de terra.

 

Movimentos sociais e representações de pequenos agricultores familiares têm se mobilizado para a criação de atividades alternativas que possam complementar a pecuária na viabilização econômica das pequenas propriedades familiares do Sul e Sudeste Paraense, principalmente nos assentamentos de reforma agrária, em que este sistema de uso da terra é predominante.

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Brabo Alves conheceu a parcagem quando fez extensão rural

 

Esses assentamentos são originados em geral com a invasão e desapropriações de fazendas consideradas improdutivas. É uma resposta do governo federal à pressão dos movimentos sociais, portanto sem o planejamento necessário para uma produção sustentável.

 
 

Áreas degradadas

 

Essas invasões geralmente se iniciam nas áreas de preservação das fazendas que ainda dispõem de floresta. No entanto estas áreas são em geral, inapropriadas para a exploração agrícola ou pecuária, pela inadequação química e física do solo ou topografia acidentada para atividades agropecuárias. Para alguns colonos ficam sorteadas áreas de pastagens degradadas, apressando ainda mais o tempo de permanência no lote. Nos lotes que se sobrepõem na área de reserva, a primeira atividade econômica dos assentados é a extração da madeira e depois o desmatamento para formação de lavouras (Alves & Homma, 2003; Feitosa, 2003)

 


Sem reservas legais

 

A maioria das pequenas propriedades com exploração exclusiva da pecuária, não mais dispõe de reserva legal e são totalmente ocupadas com pastagem de braquiarão (Brachiaria brizantha cv. Marandu). Nessas propriedades, o único trato cultural aplicado é o controle de invasoras. Observa-se que o rebanho está limitado a um estande médio de30 animais adultos dos quais 27 são vacas. O rebanho é mestiço de dupla aptidão e a produção média é de três litros de leite por ordenha.

 

A renda da propriedade provém da venda anual de 11 bezerros machos e o descarte de cinco vacas em média, além da venda de leite, que equivale a um rendimento médio anual de R$ 1.470,40. Isso está impondo uma pressão de 100% sobre a capacidade suporte da pastagem(Alves &Homma, 2004).

 

Em razão do baixo conhecimento para a exploração agrícola, são raras as propriedades que cultivam arroz, milho, mandioca e feijão. A desinformação é tanta que para muitos pequenos produtores a produção de esterco se constitui num problema e muitos doam ou chegam a pagar o frete de um caminhão para retirá-lo do curral ou das baías de ordenha, para além das cercas da propriedade.

Parcagem fertilizava o solo bem antes dos minerais - Gente de Opinião
Alfredo Homma: desinformação acarreta perda de esterco

 


Amazônia desconhece aplicação
de esterco de curral

 

BELÉM – A maioria dos pequenos agricultores da Amazônia desconhece que a aplicação de esterco de curral no solo, além da adição de alguns macro e micronutrientes melhora a estrutura física do solo, funcionando como condicionador de solo para o aumento da CTC (capacidade de troca de cátions), retenção de umidade e estimulador da atividade microbiana no solo.

 

Enquanto isso, milhões de agricultores nas regiões mais populosas do mundo, utilizam o esterco de animais como um indispensável insumo agrícola.

 

No Vietnã e no sul da China, muitos fazendeiros aplicam de 5-10 toneladas de esterco de porco por hectare. Na Indonésia os agricultores aplicam 9 toneladas de esterco de gado por hectare. Em Cauca, uma província da Colômbia os produtores aplicam de 4-5 toneladas de esterco de aves (Howelwe, 2002).

 

Estercos de animais tendem a ter baixo conteúdo de nutrientes (menos de 10% em compostos fertilizantes), mas contem Ca, Mg, S e alguns micronutrientes não encontrados nos fertilizantes químicos (Howeler, 1980b).

 

A passagem da biomassa pelo trato gastrointestinal dos ruminantes promove a fragmentação e decomposição parcial da matéria orgânica. Aplicada ao solo, ela permite a liberação gradativa de nutrientes para as culturas (Powell et AL, 1994).

 

O processo de parcagem, com a deposição na superfície do solo de fezes e urin,  ricos em nitrogênio e potássio, contribui para meutralizar a acidez do solo (Stilwell & Woodmansee, 1981; Homma ET AL, 1997), mais uma parte importante do nitrogênio da urina é perdido por lixiviação ou volatilização (Stiwell & Woodmansee, 1981; Russelle, 1992).

 

 

Os autores são pesquisadores da Embrapa Amazõnia Oriental, em Belém.

Saiba mais a respeito do assunto. Consulte o Núcleo de Apoio a Pesquisa e Transferência de Tecnologias do Baixo Tocantins

Embrapa Amazônia Oriental

Avenida. das Palmeiras nº 185, Altos

68450-000 Moju (PA)

Fone: (91) 9117-2503

 

 

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