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Os Andes explicam a riqueza de vida na Amazônia


 

Os Andes explicam a riqueza de vida na Amazônia - Gente de Opinião

Rio Amazonas em seu curso atual remonta a cerca de sete milhões de anos, explicam autores liderados por Carina Hoorn, da Universidade de Amsterdã /PNUD

  
 

IHU

SÃO LEOPOLDO, RS – A Amazônia é a região mais rica em biodiversidade do planeta e a latitude tropical em que está situada não é a única explicação para a riqueza deste ecossistema, como mostram nos últimos anos as pesquisas na região. A chave está nos Andes, cuja lenta elevação criou, ao longo de milhões de anos, o cenário ecológico para um aumento espetacular de espécies.

A reportagem é de Malen Ruiz de Elvira e está publicada no jornal El País, na edição de 24 de novembro de 2010.

Existem muitas teorias científicas sobre a origem e a complexidade da biodiversidade atual na região amazônica, recorda a Academia de Ciências Naturais dos Estados Unidos, no artigo de revisão do conhecimento sobre o tema publicado recentemente pela revista Science. Apesar de que se suspeitava da influência dos Andes sobre a composição da selva tropical, como e quando se produziu não estava claro. O limite norte da Amazônia é formado pelo Escudo Guayanés, um maciço montanhoso muito mais antigo que os Andes, mas que abriga menos biodiversidade.

Clima afetado

Os diversos estudos recentes de geologia e paleontologia, mas também de ecologia e filogenia molecular, proporcionam um retrato dos animais e plantas históricos e dos processos geológicos ao longo dos últimos 65 milhões de anos.

Os Andes emergiram devido ao movimento das placas tectônicas no Pacífico e a formação do oceano Atlântico. Ao elevar-se acima dos 2 mil metros afetaram mais que antes o clima da região, o que, por sua vez, mudou a forma de evacuação da água e criou um espesso substrato de sedimentos na enorme bacia vizinha de mais de um milhão de quilômetros quadrados.

O processo se produziu durante os últimos 23 milhões de anos, em diversos episódios. Um dos mais espetaculares e importantes foi quando a grande marisma existente secou há cerca de 10 milhões de anos, o que permitiu sua colonização por novos animais e plantas. No ambiente aquático se haviam desenvolvido répteis agora extintos, como o Purussaurus, o maior jacaré conhecido, que chegou a medir 12 metros de comprimento.

O rio Amazonas em seu curso atual remonta a cerca de sete milhões de anos. A explicação é dos autores da revisão, liderados por Carina Hoorn (Universidade de Amsterdã), da qual participam também especialistas do Real Jardim Botânico (CSIC).
 

Solo influi

Até 1990 se aceitava que a biodiversidade moderna na Amazônia procedia dos restos de florestas do Pleistoceno (há menos de dois milhões de anos), chamados refúgios. Os dados do registro fóssil e os estudos moleculares fizeram abandonar essa hipótese e buscar uma origem mais antiga para a diversidade amazônica. Agora se aceita que o processo foi longo e complexo.

Parte dessa complexidade reside na influência dos solos. Os dados indicam que a maior biodiversidade de vida terrestre e anfíbia, assim como a maior produtividade da selva se dá na Amazônia ocidental, cujos solos são muito mais ricos e diversos que os da zona oriental. “Isso indica que a composição geológica, a diversidade e a produtividade do ecossistema estão interrelacionadas”, assinalam os autores, que também indicam: “Parece paradoxal que o antigo cráton do Amazonas, que teve a oportunidade de acumular táxones [denominações de grupos de espécies] durante muito mais tempo que as zonas mais jovens da Amazônia ocidental, tenha menos espécies, gêneros e famílias”, acrescentam.

Igualmente paradoxal pode parecer, agora que há a ameaça de mudança climática, que um aumento da temperatura em uma zona tropical propicie sua colonização por novas espécies – o aumento de sua biodiversidade –, em vez de prejudicar este processo.

É o que comprovaram pesquisadores da SmithsonianInstitution quando estudaram o que aconteceu nas florestas tropicais da Colômbia e da Venezuela há 56 milhões de anos, durante uma época de aquecimento que durou 10 mil anos. Depois, o clima se estabilizou durante os 200 mil anos seguintes. Neste período, as temperaturas eram entre três e cinco graus maiores às atuais e o nível do dióxido de carbono era mais do dobro do atual.

O estudo dos grãos de pólen fóssil mostra que a diversidade florestal aumentou rapidamente: novas espécies de plantas evoluíram muito mais rapidamente do que outras se extinguiam. “Chama a atenção que exista tanta preocupação com os efeitos das condições estufa sobre as florestas tropicais”, disse Klaus Winter, um dos autores do estudo, publicado também na Science. “Entretanto, estes cenários que dão medo, provavelmente tenham validade se o aumento das temperaturas levar a secas mais frequentes ou mais graves”, matiza.

Enquanto isso, na Amazônia são descobertas três novas espéciespor dia de 1999 a 2009, informa o Fundo Mundial para a Natureza, o que indica que não se exagera sua riqueza biológica. Dado os diversos perigos que as ameaçam, muitas podem nunca ser conhecidas.
 

 

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