Porto Velho (RO) quinta-feira, 13 de dezembro de 2018
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No tecido da intriga, A-perãi


No tecido da intriga, A-perãi  - Gente de Opinião

MONTEZUMA CRUZ

A-perãi na língua Suruí quer dizer: está mentindo. É justamente isso que nos chama atenção neste ano eleitoral. Portanto, olhe bem nos olhos do seu candidato e confira a sua lealdade, na TV ou pessoalmente.


Desconfie a cada minuto do zap, mais carregado de ódio, hipocrisia, preconceito e mentiras do que toda a extensão do inferno.

Desconfie daquele seu amigo interesseiro que sopra assim: “compartilhe agora, compartilhe já”.

A antropóloga Betty Mindlin, que aprendeu muito com os Suruís, no Posto Indígena 7 de Setembro, entre 1976 e 1978, durante o início do desenvolvimento do futuro Estado, estudou a sensibilidade desse povo.

Ela trabalhou em Rondônia numa fase em que o novo estado engoliu assustadoramente migração desenfreada, invasões, ameaças físicas e o assédio de empresas.

Sensível, Betty viu a perda do erotismo da mulher, diante dos cuidados diários com a criação dos filhos. Ela escreveu: “Sob o peso da maternidade, as ninfas Suruí se domesticam Ou serão os nossos olhos, vendo gordas Natashas na velhice de Guerra e Paz?

A alegria solta e malandra, os movimentos brincalhões, as fugas e namoros nas Linhas, canalizados para seriedade maior, para os cuidados e temores com as crianças.

O corpo acompanha, arredonda-se, os seios caem, raras são as mulheres de mais de 20 anos com muita graça erótica. A sombra da doença e a labuta diária com as crianças, na aparência, predominam sobre as folias amorosas ou de jogo que, no entanto, continuam a viver.

As mulheres com filhos pequenos, ainda mais que as outras, passam o tempo num universo feminino. Cinco ou seis mulheres com crianças numa casinha de reclusão, em mexericos e conversas sem fim, quase sempre sobre namoros e casamentos.

Costumamos esquecer que para viver na tribo é preciso sempre apoiar-se no grupo familiar, alimentar relações cotidianas fortes, proteção contra as rivalidades e intrigas.
Afetuosos e expansivos como são os Suruís, há sempre um tom de vida de corte: mexericos, sussurros, conjuntos de inimizades recíprocas. Pessoas que caem em desgraça, casamentos que se desfazem, pondo uma distância intransponível, apesar dos poucos metros de uma casa a outra, entre uma mulher e as outras com quem antes tinha convívio íntimo, antigos companheiros de casa e roça que de repente mal têm oportunidade de se ver e se falar, semi hostis.

As mulheres são veículos importantes do tecido de intrigas, embora os homens, tanto como elas, alimentem e criem. Mexericos femininos são, no mais das vezes, uma esfera própria arquitetada sem homens.

O jogo de alianças, porém, é um todo composto de homens e mulheres. O mexerico vai resolvendo as brigas e hostilidades, há uma contínua reafirmação dos laços de lealdade por meio da acusação aos outros. Não à-toa, uma das palavras que os Suruís mais usam é a-perãi: está mentindo. Acordos e desacordos cimentam a comunidade”.

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