Porto Velho (RO) domingo, 22 de setembro de 2019
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Mortos-vivos da Candelária


Mortos-vivos da Candelária - Gente de Opinião
Lágrimas, suor, doenças e sangue: ingredientes da saga que levou ao desespero homens tenazes em busca de trabalho na Madeira-Mamoré /ARQUIVO DANA MERRIL

  
 


LUIZ LEITE DE OLIVEIRA (*)

 

A Candelária é conhecida no mundo inteiro. Ali onde foram enterrados trabalhadores de mais de 50 nacionalidades, que deram a vida pela construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Talvez, seja esse o cemitério único, com diversidade própria, ou seja, uma verdadeira assembléia de nações de mortos. 

 

É uma referência internacional. O hospital e o Cemitério da Candelária, assim como a cidade de Porto Velho surgiram no início do século XX, a partir do ano de 1907 até 1912, quando foi construída a ferrovia.

 

Lágrimas, suor, doença e sangue foram os ingredientes macabros de uma saga verídica que levou ao desespero homens tenazes pela busca de trabalho. Eles chegaram esperançosos à região do Madeira-Mamoré.
Dirigiram-se para aquele ponto perdido da floresta amazônica e lá foram surpreendidos pelo trabalho e pelo dinheiro, muitos deles pela morte.
 

A vida era uma tortura sob todos os aspectos, principalmente pelas picadas de insetos em busca de sangue humano. Os homens eram sugados pelo anofelino, o transmissor da terrível malária. Mas existiam outros, centenas: piuns, borrachudos, formigas tucandeiras e insetos quase invisíveis. Eles saíam em nuvens daquela majestosa floresta onde pontificavam igapós e igarapés. Os insetos atacavam os homens para extrair e sugar o seu sangue, uma tortura!

 

Sucediam-se ataques febris constantes, provocados principalmente pela malária, beriberi e outras doenças que proliferavam assustadoramente. Aqueles homens torturados apresentavam sinais de loucura, desespero e pânico. Para não morrerem, alguns fugiam. Muitos não conseguiram sair daquele lugar perdido e ali mesmo tombavam inertes, distantes, desesperados, sozinhos. Suas carnes eram disputadas e comidas pelos insetos e por animais ferozes.

                       
Os que retornavam em Porto Velho, vindos da amedrontadora linha de frente da ferrovia em construção chegavam ao Hospital da Candelária esqueléticos e doentes. Ali resistiam ou morriam. Mortos, seus corpos foram enterrados no cemitério, a 2,5 km do pátio ferroviário em construção. 


 

Mortos-vivos da Candelária - Gente de Opinião
Ossadas humanas do Cemitério. Em 2007 foram arrancadas e arrastadas por tratores para as ribanceiras. “Crime que brada os céus”, segundo uma autoridade religiosa


 
A Fuga


É preciso dizer que muitos sobreviventes queriam distância daquele inferno. Fugiam sozinhos ou em massa. Ao saírem da Madeira-Mamoré, desesperados, de qualquer maneira, alguns não conseguiram chegar de volta às suas terras, morrendo a caminho num barco, canoa ou balsa de troncos de árvores. Desciam rio abaixo, ainda na Amazônia. Quando morriam, ainda na viagem desesperada eram enterrados nas praias do rio Madeira ou nas cidades de Humaitá, Manicoré, Borba, Manaus, Maués e Itacoatiara (todas no Amazonas), em Santarém e Belém, no Pará. Ou seus corpos eram jogados nos rios.

 

Foram registrados como enterrados no Cemitério Candelária, durante a construção da ferrovia, segundo o escritor e historiador Manoel Rodrigues Ferreira (“A Ferrovia do Diabo”). Até 1912 um total de 1.552 trabalhadores. No término da administração inglesa na EFMM, em 1931, o cemitério foi fechado definitivamente. Naquele ano aproximadamente cinco mil mortos lá estavam enterrados. Em 10 de julho daquele ano também foi fechado e demolido o hospital, coincidindo com o início da administração brasileira da ferrovia.
  
 

Loteamento do Sagrado Coração da EFMM


Durante anos, a Candelária e sua floresta ficaram perdidos, em paz. Dos diversos setores do cemitério, apenas suas cruzes metálicas resistiam. A mata virgem exuberante novamente cresceu sobre ele. Lá ficaram seus túmulos, esquecidos guardados pelo silencio.

 

No entanto, a ganância da especulação imobiliária, a partir dos anos 1990 passou a invadir, a lotear e cercar a Candelária. Um momento difícil estava por vir, pior que no tempo da ditadura militar de 1964. Agora, mais sofisticado: um grupo político tomou de assalto a Candelária e a EFMM em 2000. Apoiado por autoridades de Brasília, esse grupo desrespeitou a Constituição de Rondônia e o Decreto 10, de março de 1992, que transfere para o Estado Rondônia o acervo ferroviário da EFMM e um plano macabro passou a ser executado.

 

Antes, em abril de 2006 expulsaram os vigilantes Amigos da Madeira-Mamoré. Em seguida, com o apoio de forças militares comandados pela Gerência Regional do Patrimônio da União (GRPU) e AGU tomaram as chaves das instalações ferroviárias do governo estadual. A vigilância e o trabalho de reativação feitos ao longo dos anos pela Associação de Amigos foram suspensos brutalmente e a partir daí veio uma truculenta intervenção.

Do ponto zero no pátio, até a Candelária (2,5 km), com truculência, em disputa acirrada, passaram a arrancar os seus vestígios, principalmente  as cruzes metálicas que existiam dentro do setor cristão do cemitério.
Antes, a partir de 1998, a população e os membros da Associação de Amigos guardavam aquele campo santo.

 

 

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Reta do Abunã, 2004. A maior reta ferroviária do Mundo ficará submersa pelo lago da hidrelétrica de Jirau /LUIZ LEITE

Tombamento e feroz ganância ao acervo

 

Diante da pressão popular, em 2005 a ferrovia Madeira- Mamoré, as terras do Cemitério da Candelária e seu entorno foram tombadas pelo Iphan. Fui diretamente responsável pela conquista do tombamento, assim como a Associação de Amigos e os ferroviários. Lutamos muito para que essa proteção como patrimônio nacional se tornasse realidade.

 

Existe uma feroz ganância pelas terras valiosas da Candelária e do Pátio Ferroviário, que são da União. A Prefeitura de Porto Velho disputa-os a ferro e a fogo. Essas terras, que hoje estão quase no centro da cidade de Porto Velho, passaram a ter outros donos, os especuladores imobiliários.


E a Candelária? A partir daí, os vestígios dessa, principalmente, passaram a ter intervenções brutais. Derrubaram a floresta, retiraram as cruzes e saquearam os túmulos. Numa parte daquele seu lugar estão construindo obras municipais com recursos do PAC.

 

Para limpar o terreno e derrubar a floresta nativa, tratores e máquinas pesadas arrastaram até ossadas humanas do histórico cemitério e de seus arredores. Atiraram os entulhos ribanceira abaixo, aterraram nascentes de igarapés. Compactaram o solo e em seguida edificaram dois conjuntos habitacionais.
 

 

Em busca de Justiça para a Madeira-Mamoré

 

Esse fim triste, que a população que sozinha tentou impedir, mas não conseguiu salvar a EFMM da sanha diabólica. Com insistência, os Amigos da Madeira Mamoré procuraram o MPF e o MP-RO, instituições que pareceram, preferiram ficar coniventes, acobertando infelizmente a intervenção no sítio histórico tombado. Arquivaram as denúncias! As provas apresentadas foram ignoradas. 


E o Iphan?  É hoje uma extensão do poder político partidário dominante. Prefiro não falar agora o que sei dessa instituição de Estado que se transformou em instituição do governo atual a serviço de interesses ideológicos. Para que fossem executadas as obras demolidoras na Candelária esse órgão mudou o nome de Candelária para Cujubim.

 

Essa informação foi prestada ao TCU. Segundo o Iphan:  no Cujubim (Candelária) pode! Ah! sim, quando a  população, na tentativa de salvar o patrimônio da Candelária e da EFMM, procurou a Justiça, foi humilhada. A Justiça preferiu ‘fechar os olhos’ e, cega, sentenciou que o local nunca foi cemitério. A seu ver, a Candelária não era um lugar histórico.  Tampouco, o pátio ferroviário, onde a prefeitura pratica um crime de lesa-pátria.

 

Para isso usou e desfigurou o meu projeto de restauração e elementos de Integração do Complexo Ferroviário da EFMM e Beira-Rio” – um plágio, um roubo de minha propriedade intelectual. Mas esse é outro assunto que não pretendo abordar neste momento.

 

Procuramos a justiça como uma saída desesperada, na tentativa de salvar a maior referência histórica ferroviária do Brasil, porém, mais uma vez perdemos a batalha. No Caso da Candelária, no despacho (com aval do Iphan), o juiz definiu que eu faltei com a verdade, juntamente com os “Amigos”. Ou seja, quem tentou buscar justiça para a EFMM e a Candelária saiu, aliás, desmoralizado e como mentiroso na “justiça”, aliás, parte dessa.


Através dessas sentenças do Judiciário Federal e Estadual ficou automaticamente permitida a liberação para que o patrimônio histórico tombado fosse desfigurado por intervenção, permitindo-se ao grupo político que domina  Porto Velho promover um mega balcão de negócios em terras da União, tudo  a serviço dos próprios seus interesses e privilégios.


Venceu assim, o plano arquitetado pelos criminosos. Mas a peleja ainda não acabou. Será que um dia a verdade vai prevalecer?
 

Mortos-vivos da Candelária - Gente de Opinião
Durante anos a Candelária e sua floresta ficaram perdidas: dos diversos setores do cemitério, apenas suas cruzes metálicas resistiam. A mata virgem novamente cresceu sobre ele. Lá, ficaram seus túmulos, esquecidos anos guardados pelo silencio

 

Amigos da Madeira Mamoré não irá ao cemitério 

Com desrespeito absoluto foi tratada uma área “non aedificandi”, que é monumento nacional e poderia se transformar em patrimônio da humanidade. E por isso, a partir deste dia 2 de novembro 2010, Dia de Finados, não serão celebrados os cultos e missa, a exemplo de todos os anos, quando orávamos na Candelária  para seus mortos.

A Associação de Amigos da Madeira Mamoré, em protesto, não comparecerá no Cemitério da Candelária, hoje desfigurado por força da intervenção brutal, tal qual o pátio ferroviário e a cachoeira de Santo Antônio, de onde arrancam os trilhos e explodiram cachoeiras, sob autorização do Iphan.

“Quando o Nosso céu se faz moldura, para engalanar a natureza, nós bandeirantes da Amazônia, nos orgulhamos de tanta beleza...” (Céus da Amazônia — música original de Almerindo Ribeiro dos Santos, pai da saudosa dona Odete)  

 

(*) Arquiteto e estudioso do patrimônio histórico de Rondônia.

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