Porto Velho (RO) terça-feira, 22 de outubro de 2019
×
Gente de Opinião

Amazônias - Gente de Opinião

Amazônias

Mais desastres à vista na Amazônia: candidato apoia obras sem licenciamento ambiental


Mais desastres à vista na Amazônia: candidato apoia obras sem licenciamento ambiental    - Gente de Opinião

MAURÍCIO TUFFANI
Direto da Ciência, com imagem de livro e foto da revista Época


Escolhido pelo candidato à Presidência da República pelo PSL, Jair Bolsonaro, para coordenar seus planos de governo nas áreas de infraestrutura e meio ambiente, o general-de-exército Oswaldo Ferreira foi um dos principais destaques do noticiário de ontem, protagonizando a reportagem “No meu tempo, não tinha MP e Ibama para encher o saco, diz general”, do jornalista André Borges, n’O Estado de S. Paulo.

Ferreira deixou no ano passado a direção do Departamento de Engenharia e Construção do Exército. Referindo-se à sua participação nas obras do trecho Cuiabá-Santarém da rodovia BR-163 nos anos 1970, o militar, cotado para ser ministro dos Transportes no eventual governo Bolsonaro, afirmou:

Quando eu construí estrada, não tinha nem Ministério Público nem o Ibama. A primeira árvore que nós derrubamos (na abertura da BR-163), eu estava ali… derrubei todas as árvores que tinha à frente, sem ninguém encher o saco.

A reportagem mostrou Sandra Cureau, subprocuradora-geral da República, para quem as propostas de Bolsonaro significam “a maior possibilidade de retrocesso na área ambiental da história.” Ela afirmou ao Estadão:

São ameaças muito claras. Estamos correndo risco de ter um Ministério Público amordaçado. O que me surpreende é que boa parte das pessoas instruídas desse País não consiga ver o perigo que o País está correndo.

Ainda ontem, o site O Antagonista registrou que em reação às declarações do general Oswaldo Ferreira, o subprocurador-geral da República Nívio de Freitas Silva Filho declarou:

Seja quem for eleito presidente, não desviaremos um milímetro do que entendemos que é o nosso dever constitucional. Esperamos que todas as autoridades nacionais, sejam elas quais forem, tenham isso sempre presente.

Por meio de nota, a presidente do Ibama, Suely Araújo, declarou ao Estadão que o “licenciamento prévio de atividades potencialmente poluidoras ou degradadoras é previsto na Lei da Política Nacional do Meio Ambiente desde 1981” e “uma ferramenta adotada no mundo todo”. E acrescentou:

A implantação de empreendimentos impactantes sem essa análise implicaria retrocesso de quase quatro décadas de política ambiental no País. As atividades econômicas não podem levar à destruição da base de recursos naturais que são o seu próprio sustentáculo.

Em seu perfil no Facebook, Mário Mantovani, diretor da Fundação SOS Mata Atlântica, lembrou:

A BR-163 foi um dos maiores desastres ambientais do planeta em sua época e a forma como foi construída deixou um rastro de morte e destruição…

Antes que os ânimos contra militares se exaltem, é bom lembrar que das casernas também saíram visões bem mais equilibradas sobre obras na Amazônia. Um exemplo relacionado à Cuiabá-Santarém foi o coronel José Meirelles (1923-2012), comandante do 9º Batalhão de Engenharia e Construção do Exército na construção desse trecho da BR-163, que afirmou:

É fácil fazer uma estrada, mesmo na selva, como foi o caso da Cuiabá-Santarém. Isso não é nenhuma epopeia. Epopeia mesmo é fazer com que o poder público interiorize os seus mecanismos de assistência e promoção humana, de valorização do homem […]. Isso é quase impossível…

Essas palavras são a epígrafe da coletânea de estudos “Amazônia revelada: os descaminhos ao longo da BR-163” (Maurício Torres [org.], Brasília: CNPq, 2005. 496 págs.).

Disponível para download na página do pesquisador Philip Martin Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) – autor de um dos estudos nela compilados, o livro é uma boa sugestão de leitura para este feriado prolongado. Inclusive porque, como dizia Millôr Fernandes, cada vez mais o Brasil tem à sua frente o seu passado.

Leia também, no Direto da Ciência:
“Ciência e meio ambiente vão do céu ao inferno nas propostas dos candidatos”

 (*) Figura do Plano Nacional de Viação, do Ministério dos Transportes, de 1970, reproduzida no livro Amazônia revelada: os descaminhos da BR-163 (Maurício Torres, Brasília, CNPq, 2005).

MAURÍCIO TUFFANI
Direto da Ciência

Mais desastres à vista na Amazônia: candidato apoia obras sem licenciamento ambiental    - Gente de Opinião

Mais Sobre Amazônias

A soberania

A soberania

O mundo apenas quer que não derrubem a floresta da Amazônia em 2019, mas não se interessa pela soberania do Brasil.

No Amazonas, Instituto Mamirauá realiza 1º Oficina de Certificação Orgânica

No Amazonas, Instituto Mamirauá realiza 1º Oficina de Certificação Orgânica

O mercado de alimentos orgânicos tem ganhado cada vez mais espaço e valorização a medida que são comprovados os malefícios à saúde humana e ao meio

É possível criar gado de modo sustentável na Amazônia? Especialistas respondem

É possível criar gado de modo sustentável na Amazônia? Especialistas respondem

“O gado não é o grande vilão, a forma que é feita essa produção que pode ser maléfica ou não”, explica a engenheira agrônoma Jerusa Cariaga. Isso po

A Amazônia pode desaparecer como floresta e isso vai impactar o mundo todo

A Amazônia pode desaparecer como floresta e isso vai impactar o mundo todo

O programa Ambiente É o Meio desta quarta-feira conversa com o engenheiro, pesquisador e coordenador do Programa Amazônia, do Instituto Nacional de Pe