Porto Velho (RO) segunda-feira, 17 de junho de 2019
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Apurinãs aprendem cultivo agroflorestal com ashaninkas


Apurinãs aprendem cultivo agroflorestal com ashaninkas - Gente de Opinião

No canteiro de agrofloresta ashaninka, os apurinãs dão mais um passo conservacionista /Foto Opan

XIMENA MORALES LEIVA
Operação Amazônia Nativa (Opan)
De Lábrea (AM)

 

Enquanto o desmatamento vai imprimindo sua paisagem de desolação em parte considerável do território amazônico brasileiro, no Acre, mais exatamente na Terra Indígena (TI) Kampa do Rio Amônia, estão sendo construídas vias para frear a derrubada da floresta conciliando conservação com desenvolvimento de alternativas econômicas concretas.
 

Os Apurinã da TI Caititu visitaram os Ashaninka para entender e aprender como estes agricultores natos implementam seus sistemas agroflorestais (SAF), amplamente conhecidos e respeitados. Em novembro, oito indígenas Apurinã, um Jamamadi da Terra Indígena Jarawara/Jamamadi/Kanamanti e dois indigenistas da Operação Amazônia Nativa (Opan) tiveram contato com a experiência bem-sucedida de produção de alimentos ashaninka, que até o momento já multiplicou seus conhecimentos para aproximadamente 100 grupos da Amazônia desde 2007, época em que foi fundado o Centro Yorenka Ãtame, localizado às margens do rio Juruá, no município de Marechal Taumaturgo. 
 

Durante os próximos dois anos, os Apurinã somarão esforços para desenvolver práticas agroecológicas como estratégia de recuperação de áreas degradadas e promoção de segurança alimentar no âmbito do Projeto Raízes do Purus, uma iniciativa da Opan com patrocínio da Petrobras através do Programa Petrobras Ambiental.
 

Em dezembro, quatro hectares degradados situados nas aldeias Novo Paraíso, Nova Esperança 2, Tucumã e Idecorá serão cultivados de modo experimental, uma vez que as condições de proximidade com o perímetro urbano de Lábrea e da Transamazônica (BR-230) têm dificultado a realização da caça e da pesca dos Apurinã. O roçado também fica comprometido devido à baixa quantidade de nutrientes do solo, que, enfraquecido, propicia o ataque de pragas, principalmente de saúvas e furão.
 

O sistema agroflorestal é uma forma de uso da terra na qual se combinam espécies arbóreas lenhosas (frutíferas e/ou madeireiras) com cultivos agrícolas e/ou animais, de forma simultânea ou em sequência temporal e que interagem econômica e ecologicamente.
 

Samaúma, símbolo do Médio Purus
 

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Durante os 14 dias de intercâmbio de realidades e experiências em desenvolvimento,
o compromisso de plantar samaúmas e outras espécies nobres /Marília Bonfim

Na TI Caititu serão enriquecidas capoeiras com espécies de importância econômica e pousio melhorado. Foram adquiridas quatro mil mudas de 42 tipos de árvores e frutos, como a emblemática samaúma, símbolo do Médio Purus e pouco encontrada nos dias de hoje. Também serão plantados jacarandá mimoso, andiroba, copaíba, angelim mogno até o cupuaçu, graviola, mexerica, laranja, jenipapo, dentre outras. Serão usadas também sementes de adubação verde.
 

“Os Apurinã e o Jamamadi ficaram muito sensíveis ao ver que as coisas funcionam e que o conhecimento tradicional é o que sustenta tudo, sustenta a origem e a continuidade do povo”, relata o indigenista da Opan, Diogo Henrique Giroto, que participou da viagem ao Acre.
 

Durante os 14 dias de intercâmbio de realidades e experiências em desenvolvimento sustentável foram apresentadas as espécies de plantas que podem ser usadas, quais são as formas de cultivo e os meios de iniciação de recuperação e uso de áreas. Giroto observa que se debateu bastante a relação da fartura de fruta na TI Kampa do Rio Amônia com a qualidade de vida humana e como, ao mesmo tempo, essa abundância atrai e permite a presença de espécies de animais, recompondo ambientes degradados.
 

Lições Ashaninka
 

Para entender porque hoje os guardiões da floresta do rio Amônia são referência em SAF é preciso remontar a 1987. A degradação ambiental era crescente na região e a solução para combatê-la foi iniciar um planejamento de como seria feito o piloto do reflorestamento de 40 hectares.
 

Benki Piyanko, agente agroflorestal e vice-presidente da Associação Ashaninka do Rio Amônia (Apiwtxa), criada em 1993, descreve um cenário preocupante: “Estávamos perdendo várias espécies. Havia muito pasto, muita derrubada de mogno, plantação de milho e feijão. Diante isso, decidimos que queríamos trazer de volta a floresta. Começamos a replantar esses hectares em 1989 e terminamos com o gado. Foi o exemplo que demos para dizer para o nosso povo que ia ter de mudar tudo. Era preciso criar uma nova consciência.”
 

Quando constataram que a experiência dera resultados, mergulharam no desenvolvimento do plano de gestão territorial entre 1989 e 1993 e se iniciou o resgate do conhecimento tradicional do povo Ashaninka. Discutiu-se organização, cultura, arte, manejos florestal e pesqueiro.  Enquanto isso, em 1992, a TI Kampa do Rio Amônia foi demarcada.
 

“Formamos o conselho diretivo onde ficam os anciões e o conselho de ensinamento destinado para os jovens. Estamos na terceira geração que aprendeu a trabalhar coletivamente e cuidar de sua terra”, observa Piyanko. Em 2007, o povo sistematiza esse plano de gestão que estava em curso e o divulga.
 

Conforme se estruturavam, foram dando continuidade a uma política ambiciosa de proteção e recuperação ambiental do território e multiplicação desses saberes para demais povos. Anos depois, em 2003, inauguram a Cooperativa Ayonpare, que organiza a produção do belo artesanato, principal fonte de renda dos Ashaninka desde 1990.
 

Todos os 600 habitantes da TI Kampa do rio Amônia, entre crianças, adultos e velhos, trabalham nos roçados. Esta força do coletivo encantou Marcelino Apurinã, cacique da aldeia Novo Paraíso e cacique geral que representa as lideranças do Médio Purus, que foi até o Acre participar do intercâmbio. “A forma de organização da aldeia foi o que mais me impressionou, os Ashaninka conseguem tudo isso porque estão organizados. Nós ainda não temos incorporado essa maneira de trabalhar em mutirão. Não vai ser fácil, mas a gente quebra essa barreira“, diz, confiante.
 

Anualmente são produzidas 100 toneladas de alimentos, a maioria destinada para consumo interno. Parte disso vai para a merenda escolar das 12 escolas da terra indígena. Aliás, a educação teve um papel preponderante para essa transformação da consciência – palavra muitas vezes citada por Piyanko – do povo Ashaninka, que em dado momento estava sucumbindo  aos apelos de madeireiros e às demais armadilhas do mundo dos não índios.
 

“Com todo este trabalho que desempenhamos esses anos todos, posso garantir que vivemos o momento mais sossegado de nossa história. Conseguimos colocar na cabeça das pessoas o perigo que os rios, as florestas e nós mesmos estávamos correndo e que era preciso mudar de atitude. Temos uma política diferente. Decidimos que ia ser do nosso jeito. Nós moramos na floresta e temos de protegê-la dos invasores”, vaticina o líder dos agricultores ashaninka.
 

Projeto Raízes do Purus
 

O projeto Raízes do Purus é uma iniciativa da OPAN, com patrocínio da Petrobras através do Programa Petrobras Ambiental, que visa contribuir para a conservação da biodiversidade no sudoeste do Amazonas por meio do fortalecimento de iniciativas que promovam a gestão e o uso sustentável dos recursos naturais das Terras Indígenas (TI) Jarawara/Jamamadi/Kanamanti e TI Caititu, em Lábrea, e TIs Paumari do Lago Manissuã, Paumari do Lago Paricá e Paumari do Cuniuá, em Tapauá.

Fale com Ximena
ximena@amazonianativa.org.br
Telefones: 55 65 3322 2980

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