Porto Velho (RO) terça-feira, 17 de setembro de 2019
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Aos 83 anos, dom Pedro Casaldáliga alerta: 'A saúde está doente'


 

Aos 83 anos, dom Pedro Casaldáliga alerta: 'A saúde está doente' - Gente de Opinião
"Estou de volta, vou me aposentar definitivamente. Estou no limite da idade e do Parkinson", ele diz. Dom Pedro defende melhor situação hospitalar para o povo /O REPÓRTER DO ARAGUAIA

 

SANDRA CARVALHO e
VANESSA LIMA
Blog


CUIABÁ – Os dias que passou internando por conta de uma cirurgia de próstata levaram o bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia (MT), Dom Pedro Casaldáliga, a refletir sobre a dificuldade que o cidadão enfrenta para conseguir tratamento médico no país. “A saúde está doente neste país com tanto luxo, médicos e hospitais, mas a saúde pública está sucateada, precisando de reformas”, observa o bispo de 83 anos, que anuncia: “Vou aposentar, definitivamente. Estou no limite da idade e do Parkison”.

Ele reconhece ter sido bem tratado quando foi internado, mas lamenta que milhões de seres humanos não tenham a mesma sorte. “Recordo-me das imagens tristes que a televisão tem mostrado, quase sempre, hospitais com corredores cheios, o caso de uma mulher grávida que havia passado por uns quatro hospitais tentando vaga para fazer uma cesariana, e chego a uma conclusão: a saúde está doente”.

Esses dois meses que passou se recuperando da cirurgia permitiram-lhe meditar, rezar mais um pouco e sentir saudade de São Félix do Araguaia e do povo da região. “Estou de volta, vou me aposentar definitivamente, estou no limite da idade e do Parkinson. Dizem por aí que a velhice é a melhor idade. Não é bem assim. Tem muitos velhos que não são aceitos nem na própria família, são jogados num asilo ou mesmo nas ruas das grandes cidades”.

 
 

Momentos delicados em Goiânia

Indignado com a precariedade dos serviços de saúde oferecidos à população sem condições de pagar pelo serviço particular, Dom Pedro diz que tem pedido a Deus para que a saúde seja bem cuidada. “É um direito de todos o tratamento gratuito em hospitais, postos de saúde e que todos sejam tratados como pessoas humana como filho ou filha de Deus”.

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"É um direito de todos o tratamento gratuito em hospitais, postos de saúde; todos devem ser vistos como pessoas humanas, como filho ou filha de Deus"

O bispo relatou com exclusividade ao Repórter do Araguaia os momentos difíceis que passou em Goiânia, onde passou por uma cirurgia da próstata. “Graças a Deus deu tudo certo, apesar da variação da pressão arterial, um dos efeitos do mal de Parkinson”.

Durante a entrevista, ele fez analogias e deu explicações sobre sua condição de saúde e de espírito. “Acontece que os bispos também adoecem e entram na faca”, disse ele a respeito da cirurgia. Segundo o bispo, foram dias de saudades e de reflexão. “Tivemos várias manifestações de carinho e solidariedade, o povo tem rezado muito. Eu pensava nesses dias todos e, deu para pensar bastante, que eu estava com todas as regalias e cuidados, bem acompanhado, mas muitos não têm este mesmo tipo de tratamento”.

O bispo manifestou gratidão ao carinho de todos, sobretudo às orações. Dias atrás um sertanejo me perguntava pela saúde eu disse: você sabe, cavalo velho... Ele disse: bispo, cavalo velho pasto novo. E eu acrescentei: e perto de casa. Mas, estamos em caminhada, Deus é a nossa salvação”, concluiu.

 

Uma das maiores vozes contra o trabalho escravo

CUIABÁ – Dom Pedro Casaldáliga, bispo católico espanhol, nasceu em Balsareny (Barcelona, Espanha) no dia 16 de fevereiro de 1928. Ingressou na Congregação Claretiana em 1943 e foi ordenado sacerdote em Montjuïc, Barcelona, no dia 31 de maio de 1952. Em 1968, mudou-se para a Amazônia Brasileira.

Nomeado administrador apostólico da Prelazia de São Félix do Araguaia em 27 de abril de 1970, logo depois, em 27 de agosto de 1971 já alcançava a condição de bispo prelado nomeado pelo Papa Paulo VI. Sua ordenação episcopal deu-se a 23 de outubro daquele ano, pelas mãos de dom Fernando Gomes dos Santos, arcebispo de Goiânia, e de dom Tomás Balduíno, OP e Dom Juvenal Roriz, CSSR.

Adepto da teologia da libertação, adotou como lema para sua atividade pastoral: Nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar e, sobretudo, nada matar. É poeta, autor de várias obras. Dom Pedro já foi alvo de várias ameaças de morte. A mais grave, em 12 de outubro de 1976, ocorreu no povoado de Ribeirão Bonito, no Araguaia: ao ser informado de que duas mulheres estavam sendo torturadas na delegacia local, dirigiu-se até lá acompanhado do padre jesuíta João Bosco Penido Burnier.

Após forte discussão com os policiais, o padre Burnier ameaçou denunciá-los às autoridade. Foi agredido e, em seguida, alvejado com um tiro na nuca. Após a missa de sétimo dia, a população seguiu em procissão até a porta da delegacia, libertando os presos e destruindo o prédio. Naquele lugar foi erguida uma igreja. Dom Pedro é um dos maiores combatentes do trabalho escravo no País.

 (*) Originalmente, para O Repórter do Araguaia.

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