Porto Velho (RO) quinta-feira, 23 de maio de 2019
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Amazônia Boliviana protege brasileiros ilegais


 
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Durante o dia dia a movimentação de cargas é fiscalizada com rigor, mas os ilegais fazem tráfico e contrabando à noite e de madrugada /M.CRUZ



XICO NERY
Amazônias
GUAYARAMERÍN, Beni, Bolívia — Pelo menos 1.200 brasileiros vivem, moram e "trabalham" nesta província do Beni, na Amazônia Boliviana. A maioria não possui documentos e vive irregularmente. Por tráfico de drogas, 420 são procurados na região. Caçada pela Justiça Brasileira, outra parte consegue tranqüilamente manter negócios nos dois lados da fronteira.
Guayaramerín é separada de Guajará-Mirim (Rondônia) pelas águas do Rio Mamoré. Apesar do Departamento de Imigração ter conhecimento dessa situação, por meio de informes da Polícia Internacional (Interpol), não há incômodo para esses brasileiros.
Os brasileiros buscam refúgio em cidades dos departamentos (estados) de Beni e Pando, preferindo Guayaramerín, Riberalta, Santa Cruz de La Sierra, Trinidad e Cobija.
Além do tráfico de drogas, eles também são acusados por homicídios, lavagem de dinheiro, roubo de veiculos e outros. No ranking da Justiça brasileira, figuram ainda crimes de homicídios, pedofolia e tráfico de armas vendidas para o Primeiro Comando da Capital (PCC), em São Paulo, e ao Comando Vermelho e Associação dos Amigos (ADA), do Rio de Janeiro. Em 2009, numa abordagem em Primavera do Leste (MT), a Polícia Rodoviária apreendeu fuzis automáticos adquiridos na Bolívia e que seriam levados para o Rio. 

Folgados
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Lojas bolivianas atraem grande clientela do Acre e de Rondônia /ANA MEJIA

Diversos procurados pela Interpol passeiam pelo centro de Guajará-Mirim, a 362 km de Porto Velho. Todos têm mandados de prisão emitidos pela Justiça. Eles bebem nos bares, fazem compras com amigos e parentes, contando com o conhecido "jeitinho boliviano" para não serem entregues às autoridades brasileiras.
Quem conhece um por um são as prostitutas (“ticas”) bolivianas que atuam na zona portuária.
Dos 1.200 brasileiros desta fronteira, pelo menos 640 se casaram com cidadãs bolivianas.
— É o tipo de atalho jurídico comum e usado em grande escala por aqui – comenta uma fonte que pede para não ser identificada.
A facilidade para que estrangeiros ilegais sejam regularizados em menos de 24 horas é um assunto recorrente, admite um ex-agente consular boliviano que serviu na Província de Cobija, capital do Pando e possui trânsito livre no comércio lojista de Guajará-Mirim.   

Protegidos e chantageados
 
Segundo esse agente, as autoridades bolivianas sabem quem são os brasileiros procurados, mas não os entrega, como determina o acordo deste País com a Corte Internacional de Justiça.
Em 2009, uma reunião binacional em Guajará-Mirim discutiu essa possibilidade. No encontro, forças policiais federais e estaduais brasileiras teriam repassado aos bolivianos as fichas com nomes, fotografias e cópia dos mandados de prisão.
— Para surpresa das forças federais, nenhum brasileiro foi capturado — comenta a mesma fonte.  
Por aqui circula uma longa história em bares, restaurantes, hotéis e lojas de departamentos, cujo enredo é de caráter escabroso e cinematográfico: foragidos do Brasil realmente foram identificados e avisados pelas autoridades bolivianas. Com isso, passaram a ser chantageados pela polícia boliviana até mesmo por criminosos comuns. A Imigração Boliviana nega.
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Rio Mamoré, entre Guajará-Mirim e Guayaramerín: rota de brasileiros caçados pela Justiça /M.CRUZ



Comércio não sobrevive sem turistas 
GUAYARAMERÍN, Beni – Além da questão dos foragidos, sabe-se em toda esta província que o comércio não sobrevive sem os turistas brasileiros. A maioria é formada por acreanos e rondonienses que despejariam mais de US$ 1,5 milhão na grande temporada, recheada de datas comemorativas do lado brasileiro (Natal, Ano Novo, Carnaval, Duelo da Fronteira, Dia da Criança, Dia dos Pais, Dia da Mulher e Independência da Bolivia).
— Não é nenhuma novidade que brasileiros compram o que quiserem aqui e recebem a mercadoria longe dos olhos da Receita Federal, do outro lado da fronteira — diz um mototaxista.
Esse tipo de operação não ocorre à luz do dia. O translado de produtos eletroeletrônicos e de outros igualmente nobres ocorre no período noturno, quando o número de fiscais é reduzido e a fiscalização pelo rio, facilitada.

Faltam pessoal, equipamentos e informações precisas no lado brasileiro. Dólares e reais entram e saem do País sem que as autoridades possam agir.
Quem pratica do tráfico formiguinha de droga, faz o comércio ilegal da gasolina, de hortifrutigranjeiros e lavagem de dinheiro, corre o risco de ser preso pela Polícia Federal. Se houver denúncia. (X.N.)

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Em Guajará-Mirim, ilegais usam o "jeitinho brasileiro" para andarem sem incômodo /M.CRUZ



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