Porto Velho (RO) quinta-feira, 28 de maio de 2020
×
Gente de Opinião

Amazônias - Gente de Opinião

Amazônias

A raia em que corre este site dentro do site


 
Amazônias até se parecem, mas não são únicas. Pobres, ricas, deslumbrantes, imponentes, exigem estudos de uma vida inteira. Nem o americano Teodore Roosevelt, o sábio francês Claude Lévi Strauss, ou o explorador britânico Percival Fawcett a conheceram. Strauss foi a Guajará-Mirim (RO) e Fawcett se perdeu na Serra do Roncador, sem ter chegado mais ao norte do País. 

Emissários de Roosevelt alcançaram o Amazonas, Rondônia e Mato Grosso. Uma região situada entre esses dois estados, por exemplo, se tornou conhecida por Roosevelt, terra de ouro e diamantes. 

Para início de conversa, Brasil, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa formam o que se entende por Amazônia, com 6,9 milhões km². 

Daí, não haver “especialista em Amazônia”. Engana-se a si mesmo quem se arvora assim, ambicionando agarrar o mundo com tão poucos dedos. 

Esse vasto continente implica um banco genético de eternos estudiosos e aprendizes, e eles conservam esse honroso banco a vida inteira. 

Existem pessoas nascidas em Roraima, que nunca saíram de lá. Outras, acima do Paralelo 11 (nortão mato-grossense), viram surgir cidades cercadas por café, milharal e garimpo de ouro, no entanto, nunca viajaram de canoa, vapor ou de avião. 

Kaiabi e Ava-canoeiro são dois povos indígenas capazes de ir e vir entre pontos distantes na floresta. Ali permaneceram felizes, só se tornando infelizes depois que o “progresso” chegou. 

A maioria dos moradores do Oiapoque não sabe o local da nascente do Rio Madeira. Uns conhecem de cor os velhos varadouros de seringais acreanos, mas desconhecem as ilhas de Abaetetuba (PA) ou o Araguaia. Moram em Paraupebas (PA), mas não sabem exatamente onde fica Nova Mamoré (RO). 

Outros fizeram compras na Zona Franca de Manaus, mas ignoram onde ficam as Ilhas Anavilhanas, ou a região da “Cabeça do Cachorro”, no Alto Rio Negro. Alguns visitaram parques nacionais, terras indígenas e reservas extrativistas diversas vezes, mas desconhecem os bairros das próprias capitais amazônicas. Muito menos que o rio Amazonas nasce no Peru. 

Numa diversidade de conhecimentos, a própria Amazônia desconhece a Amazônia. E nós? Já estivemos, pelo menos, nas capitais e nas principais cidades de cada um dos nove estados? 

Cientistas e jornalistas já visitaram diversos municípios amazônicos. Cada qual desconhece o lugar aonde o outro pôs os pés, sobrevoou ou navegou.
Interpretar e compreender as Amazônias é uma tarefa complexa. Alinham-se: Amazônia Continental (no Brasil e outros países da América do Sul), bacia do rio Amazonas, Amazônia Legal, bioma Amazônia e floresta Amazônica. 

Confunde-se no Ensino Fundamental e até na Universidade o conceito de Estado do Amazonas e a Amazônia. E quando entendemos que existem várias Amazônias, os conceitos e temas se sobrepõem. 

Ensina o geógrafo do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Reinaldo Corrêa Costa: “Nem mesmo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sabe, com precisão, delimitar a área que cada uma das Amazônias ocupa”. 

Nada faremos de excepcional. Este site dentro do site buscará dar ressonância a estudos divulgados em tantos sites-referência, oferecendo a sua parte no estudo de um continente que exige ser melhor compreendido.
Na medida do possível, publicaremos matérias produzidas nessas Amazônias, as quais abraçamos com um misto de amor, temor e deslumbramento. 

Quem sabe possamos avaliar um pouco dos 3,8 milhões de km² da bacia do rio Amazonas, cobertos pela floresta. Prestando muita atenção nos demais tipos de vegetação, porque essa bacia também possui cerrado e campos. 

A floresta amazônica existe no Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Mato Grosso, Rondônia, Roraima, Tocantins e Maranhão. Até hoje não se sabe com certeza quanto da Amazônia é de floresta. Para o IBGE, a área é de 3,8 milhões de km², ou seja o total da bacia Amazônica. Estudos do Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) revelam que a floresta cobre 64% da Amazônia Legal (3,3 milhões de km²). Antes do desmatamento, a cobertura original era de 73% da região. 

Em quatro anos, o Exército Brasileiro mostrará o que vem fazendo na Cabeça do Cachorro, que foi escolhida como ponto de partida para um arrojado projeto de mapeamento. O apelido se deve à figura que lembra o pescoço, as orelhas, o focinho e a boca de um cachorro. Por suas artérias fluem as águas escuras do Rio Uaupés, do Rio Içana e do próprio Negro, conectados por uma infinidade de igarapés. Nos ombros, leva o Pico da Neblina, o ponto mais alto de Brasil, e sua pele é coberta por uma das florestas mais antigas e bem preservadas da Amazônia. 

E o bioma Amazônia? 

Segundo o IBGE, fica nesse time de nove estados e totaliza 4,2 milhões de km². São regiões com o mesmo clima, a mesma vegetação florestal e a mesma fauna. Esse conjunto de fatores cria condições biológicas específicas para a área. O bioma amazônico ocupa 49,29% do Brasil e é o maior bioma terrestre do País. 

O segundo maior é o bioma cerrado, mas também se estende para os outros países. 

E o que é Amazônia Legal? 

Igualmente reúne esse time dos nove, somando 5,2 km². Trata-se de um conceito político criado pelo governo brasileiro em 1953, sob a justificativa de que havia problemas econômicos, políticos e sociais semelhantes nesses estados, mas a divisão não corresponde à geografia natural da Amazônia. No Tocantins, por exemplo, há áreas de cerrado. 

Vamos passar o tempo todo, a vida toda dedicados à interpretação dessa bacia do rio Amazonas, que atravessa alguns países. Daí, a infinidade de conflitos, a luta pela soberania, o grito dos cientistas, dos institutos, das organizações, e das universidades. 

Sim, porque há idéias, projetos políticos e socioeconômicos, comandos e desmandos sobre um continente de 6,5 milhões a 7,5 milhões de km², em grande parte mapeado no exterior. Na verdade, um patrimônio da humanidade. 

Nos laboratórios de Manaus e Belém, os tubos de ensaios dos pesquisadores parecem repetir o samba: esquentai vossos pandeiros. Aparecem resultados surpreendentes de estudos da flora, do solo e do reino animal. Os 3,8 milhões de km² brasileiros estão aqui, desnudos. E ainda não dimensionamos exatamente o quanto sofre e o quanto se alegra o ser humano cá de dentro. 

É preciso viver, e viver não é brincadeira não. 

Cá estamos para aprender e não para ensinar aquilo que ainda pouco aprendemos.

MONTEZUMA CRUZ
Editor de Amazônias

Mais Sobre Amazônias

Na Amazônia, Instituto Mamirauá realiza 1º manejo sustentável de jacaré em vida livre do Brasil

Na Amazônia, Instituto Mamirauá realiza 1º manejo sustentável de jacaré em vida livre do Brasil

Nos anos de 1950 a 1970, a caça que alimentava o mercado ilegal de couro colocou o jacaré-açu amazônico, de nome científico Melanosuchus niger, sob ri

Governador apresenta propostas de ações de proteção e desenvolvimento da Amazônia ao presidente em exercício, general Mourão

Governador apresenta propostas de ações de proteção e desenvolvimento da Amazônia ao presidente em exercício, general Mourão

Ações e projetos que vão ao encontro da proteção, preservação e desenvolvimento da Amazônia consolidaram a rápida reunião mantida entre o governador d

Pesquisa investiga como acontecem emissões de metano em florestas alagáveis da Amazônia

Pesquisa investiga como acontecem emissões de metano em florestas alagáveis da Amazônia

As águas sobem, espalham-se e invadem florestas. Folhas, frutos e galhos, agora submersos, ficam sob o solo ou são transportados pelas águas. É tempo

Cientistas estimam população de botos na bacia do rio Amazonas

Cientistas estimam população de botos na bacia do rio Amazonas

Uma expedição científica reuniu organizações internacionais para realizar registros de avistagem de botos ao longo do rio Amazonas-Solimões. O objetiv