Quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026 - 11h12

No quilômetro 1 da linha 42, zona rural de Alta Floresta D’Oeste, em Rondônia, as manhãs de terça, quinta e sábado começam cedo. São nesses dias que as pamonhas, bolos e curau produzidos por Sineide da Cruz e sua família ganham destino: as feiras livres do município e de cidades vizinhas. A receita é familiar, passada por gerações, mas o processo produtivo é resultado de uma escolha ousada feita ainda na juventude, quando Sineide e o irmão decidiram abandonar o café e apostar no milho verde irrigado.
Já em Cacoal, pouco mais de 100 quilômetros dali, a família de Deigson Bento
vive onde planta. São cinco famílias dividindo 12 hectares, onde a lavoura de
café faz parte da rotina, cultivado com o mesmo cuidado com que se cuida do
próprio quintal. Mas, o que chama atenção na história da família Bento é a
decisão de permanecer na terra, investir em qualidade e cuidar do ambiente como
parte do negócio.
Apesar das diferenças nas culturas que produzem milho e derivados, no caso de Sineide; café, no caso de Deigson, as duas histórias se encontram na forma de produzir. Ambas representam o que há de mais potente na agricultura familiar amazônica: a combinação entre escala reduzida, gestão cuidadosa dos recursos naturais e permanência no território.
Em Rondônia, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), a agricultura familiar corresponde a mais de 80% das propriedades rurais e responde por grande parte da produção de alimentos consumidos no estado. No entanto, um estudo realizado em parceria pela Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Federal do Pará (UFPA), em 2022, aponta que, embora modelos produtivos baseados em sistemas agroflorestais e diversificados tenham alto desempenho em renda líquida familiar, seu pleno funcionamento depende de um ambiente institucional favorável, o que inclui acesso a crédito, regularização fundiária, políticas públicas e, principalmente, assistência técnica especializada.
No caso de Sineide e Deigson, esse apoio veio por meio do Sicredi, cooperativa de
crédito presente em Rondônia desde 2005, que atua diretamente junto aos
produtores, com visitas às propriedades, acompanhamento técnico e programas de
formação. Ambos se tornaram associados da instituição e relatam que, mais do
que financiamento, encontraram ali um espaço de escuta e incentivo. “Quando
eles vieram na propriedade pela primeira vez, a gente percebeu: eles acreditam
na gente”, conta Sineide. Para Deigson, a relação é ainda mais próxima: “Hoje,
posso dizer que o Sicredi faz parte da nossa família”.
A
crise que fez a virada do café para o milho
Quando os pais de Sineide da Cruz chegaram à linha 42, na zona rural de Alta Floresta D’Oeste, o plantio iniciou pensando nos alimentos. “Na época, a gente plantava arroz, feijão, milho, e depois veio o café, que era uma paixão da nossa família capixaba.” Foi nessa rotina que Sineide cresceu, ajudando os pais no cultivo do café enquanto a produção se expandia.
Mas no fim dos anos 1990, o preço do café despencou. “Teve uma situação muito
difícil para o cafeicultor. O café teve uma baixa de preço brutal. Muita gente
não tinha como nem pagar as despesas da colheita”, lembra. A crise apertou as
contas da família, e os irmãos, ainda jovens, decidiram propor uma mudança. “A
gente resolveu virar uma chave e vender uma ideia pros nossos pais. A gente
queria mudar a atividade. Era uma necessidade extrema.” A ideia era ousada:
abandonar o café e apostar no milho verde irrigado, uma cultura pouco comum na
região, mas que permitia colheitas fora de época.
Sem
estrutura e sem saber como escoar a produção, fizeram a primeira colheita e
partiram para a venda direta. “A gente nem sabia como ia comercializar isso,
mas quando chegou o momento da colheita, a gente teve a ideia de sair vendendo
mesmo, de porta em porta, de cidade em cidade”, conta. O milho vendia bem nas
feiras livres e foi nelas que uma prima deu a sugestão que mudaria o negócio da
família: transformar o milho em pamonha. “A gente já tinha a receita, já tinha
o milho, a gente só precisava tentar”.
A
primeira fornada foi feita de madrugada, na cozinha da casa, com apoio da mãe e
usando a receita tradicional da família. “Ficamos até 1 hora da manhã fazendo
pamonhas pra feira do domingo. A feira começava às 6h, então foi uma virada de
noite mesmo”, lembra. A estreia, porém, foi um susto. “A gente chegou lá com as
pamonhas, colocou dentro da caixa, mas ninguém sabia que a gente estava
vendendo. Ficou tudo escondido. Deu 9 horas, ninguém tinha comprado uma pamonha
sequer. A gente olhou um pro outro e pensou: ‘e agora, o que a gente vai fazer
com esse monte de pamonha?’”
Foi aí
que surgiu o improviso e a voz. “A gente começou a gritar: ‘pamonha, pamonha!’.
Literalmente. Aí o povo começou a vir. Aí sim, as pessoas vieram olhar,
perguntar, e a gente conseguiu vender tudo até meio-dia.” Com o tempo, a
família passou a vender em feiras de cidades vizinhas, como Santa Luzia e Alto
Alegre dos Parecis.
A lógica
da agroindústria foi se estruturando: a produção do milho era escalonada, com
plantios quinzenais, e a cozinha ganhava cada vez mais eficiência. Um dos
momentos mais simbólicos é o preparo das palhas que envolvem as pamonhas, onde
a filha mais velha cuida do corte das palhas, enquanto a esposa costura cada
uma delas à máquina, preparando as “embalagens” naturais.
E toda
essa movimentação ganhou impulso com a criação do programa AgroFeira, uma
política da Prefeitura de Alta Floresta D’Oeste que incentiva o consumo direto
da agricultura familiar. Por meio de um cartão exclusivo, os servidores
públicos municipais recebem um valor mensal que só pode ser utilizado nas
feiras livres, em maquininhas cadastradas, como a do Sicredi.
Café de origem amazônica que ganha mercados
Rondônia é hoje o segundo maior produtor de café do tipo conilon (ou robusta) do Brasil, com cerca de 3,1 milhões de sacas beneficiadas em 2024. A cultura se espalha principalmente entre pequenos e médios produtores, mais de 85% das lavouras de café rondonienses estão em áreas com menos de 10 hectares, conforme levantamento da Embrapa Territorial. Esse perfil reforça o protagonismo da agricultura familiar no setor, que combina saberes tradicionais com inovação para aumentar produtividade, qualidade e, mais recentemente, sustentabilidade.
No município de Cacoal, um dos maiores polos cafeeiros do estado, a família Bento é exemplo disso. Em 12 hectares, divididos entre cinco sócios, todos parentes, o café é mais que uma lavoura: é o quintal da casa e o elo que une gerações. O nome do empreendimento carrega o sobrenome da família e deixa claro a origem do negócio, que nasce da tradição: Deigson é neto e filho de produtores de café, cresceu acompanhando a lida da roça, escolheu ficar no interior e não seguir para a cidade, como parte dos jovens preferem. Mas, também é expressão de uma virada. “A gente percebeu que dava pra fazer diferente, investir em qualidade, cuidar do solo, buscar novos mercados”, explica.
Deigson implementou um modelo produtivo centrado na sustentabilidade. De acordo com a Embrapa, os sistemas agroflorestais baseados no cultivo de café robusta na Amazônia são capazes de capturar até 10 toneladas de CO₂ equivalente por hectare ao ano, ajudando a mitigar os gases que são efeitos das mudanças climáticas. “Além do ganho ambiental, o sistema diversificado protege mais contra pragas e melhora a qualidade do grão”, destaca Deigson.
A aposta em qualidade deu resultado. O Café Dom Bento passou a se destacar em concursos estaduais e nacionais, com prêmios que impulsionaram o nome da família entre os produtores de cafés especiais. Mas, o maior salto veio com a decisão de verticalizar parte da produção e passar a beneficiar e embalar o próprio café, vendendo diretamente para cafeterias, empórios e consumidores finais.
Esse movimento foi possível graças ao fortalecimento da estrutura familiar e ao apoio de instituições como o Sicredi. “A cooperativa chegou junto quando a gente queria crescer, mas não tinha capital pra investir”, lembra Deigson. A família passou a acessar linhas de crédito para infraestrutura e a participar de programas de formação sobre cooperativismo, gestão e planejamento produtivo.
Hoje, o Café Dom Bento produz em média 400 sacas por ano, sendo parte voltada para cafés especiais, com foco em qualidade e sustentabilidade. A propriedade tem um viveiro próprio de mudas, manejo técnico e acompanhamento constante da produção. “O que nos move é isso: a gente sabe que dá pra viver da terra sem degradar, que dá pra produzir na Amazônia com responsabilidade”, afirma.
Produção na Amazônia exige olhar atento e cuidado com o processo
Na Amazônia, onde o uso da terra está diretamente ligado ao futuro do planeta, a forma como se produz importa tanto quanto o que se produz. E é justamente nos modelos de agricultura familiar, sustentados por pequenas áreas, que surgem as maiores respostas para os desafios contemporâneos, do ponto de vista ambiental, econômico e social.
Pesquisas recentes, como o estudo “A economia dos sistemas agroflorestais na Amazônia”, desenvolvido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal do Pará (UFPA), apontam que esses modelos, quando bem estruturados, têm maior viabilidade econômica a longo prazo do que a monocultura intensiva. Isso porque preservam o solo, reduzem a necessidade de insumos químicos, mantêm a biodiversidade e criam cadeias produtivas resilientes e diversificadas.
Ao mesmo tempo, os impactos negativos dos grandes modelos de produção em larga escala já são visíveis: degradação do solo, escassez hídrica, aumento da pressão por novas áreas, dependência de agroquímicos e redução da vida útil das terras. São estratégias que, embora produtivas no curto prazo, tendem a perder força ao longo dos anos, deixando um rastro de passivos socioambientais difíceis de recuperar.
Por outro lado, o que se vê nas trajetórias de Sineide e Deigson é um caminho inverso: o da permanência. A escolha de manter-se na terra, cuidar dela, inovar sem romper com o território. Seja na pamonha que atravessa feiras, seja no café sombreado que ganha prêmio, há uma lógica que valoriza o tempo, a ancestralidade, a regeneração. E que, mesmo com desafios, tem mostrado ser possível viver bem, produzir com qualidade e preservar ao mesmo tempo.
Nesse cenário, o cooperativismo se consolida como um pilar fundamental para que esse modelo sustentável avance na região. Ao oferecer crédito, capacitação e apoio técnico, às cooperativas não apenas financiam, mas caminham junto com os produtores, respeitando suas trajetórias e fortalecendo vínculos. Como destaca Paulo Ledo, gerente da agência Sicredi em Cacoal, “o cooperativismo é um modelo de negócio que fortalece o pequeno produtor, porque é feito por pessoas, para pessoas. Aqui, a gente constrói um relacionamento com o associado, entende a realidade dele e participa da caminhada. Não é só crédito: é parceria, é presença e é futuro sendo plantado junto.”
Quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026 | Porto Velho (RO)
A Anater lançou, dia 02, a chamada pública n° 001/2026, para contratar entidades parceiras credenciadas interessadas em atuar com assistência técn

Rondônia é Plano Safra da Agricultura Familiar
O Governo do Brasil retomou o Plano Safra da Agricultura Familiar na safra 2023/2024. Desde então, os agricultores familiares de Rondônia já contrat

Sebrae fortalece a cafeicultura de Rondônia e consolida avanços para a agricultura familiar em 2025
A atuação do Sebrae em Rondônia ao longo de 2025 reforçou o desenvolvimento da cafeicultura no estado e contribuiu de forma direta para fortalecer a

O governo de Rondônia encerra o ano de 2025 com mais de 90% das metas estabelecidas para a assistência técnica e extensão rural, devidamente cumprid
Quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026 | Porto Velho (RO)