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Gente de Opinião

Carlos Henrique

MÃE - Elsa Matzenbacher Machado


Elsa Matzenbacher Machado - Gente de Opinião
Elsa Matzenbacher Machado

No dia 23 de maio que passou, meu pai, se vivo estivesse, completaria 108 anos. Ele já partira para a eternidade no ano de 1981. Da minha gênese permaneceu como referência e modelo de dedicação, sobriedade, inteligência, sensatez e, sobretudo, muito amor a velha mãe.

Quando eu nasci minha mãe estava com 26 anos. Fui o sexto filho dela. Como era comum no início do século passado, a maternidade começava muito cedo. A primeira filha que ela teve chegou quando ela estava com 16 anos. A sétima e derradeira cria chegou aos 30.

Com esta filharada toda, sendo o pai um agrimensor, funcionário público do Estado do Rio Grande do Sul, é possível avaliar que as coisas não foram fáceis.

Sempre sobrava mês no fim do salário.

Até hoje me pergunto qual a mágica que pai e mãe faziam para sustentar tão imensa família. Certamente que fartura não havia, no entanto não houve um dia sequer que tivéssemos sofrido o tormento da fome.

Havia a caderneta no armazém; a mãe fazia pão e massas em casa.

Quando moramos no interior do Estado, em uma vila distante, chamada Barril, hoje o exuberante município de Frederico Westphalen, o pai demarcava lotes para assentamento de colonos nas terras públicas do Estado, enquanto a mãe atendia as lidas da casa e cuidava com esmero da filharada.

Buscava água em poço. Lembro que havia uma manivela com muitos metros de corda, pendurado na ponta um balde que devia conter uns 20 litros de água. Lançado o balde e esperava-se o som de sua batida no fundo. Aguardava-se alguns minutos e dava-se início ao recolhimento, girando a manivela enquanto a corda enrolava num cilindro de madeira.

A mãe fazia esta operação dezenas de vezes durante o dia. ÁguapPara fazer as refeições, para a limpeza da casa, para lavar as roupas de toda a tribo e para os banhos da turma, que vivia encardida pela poeira vermelha e pelo barro da época chuvosa.

Fogão a lenha

As achas de lenha vinham em variados tamanhos e quase sempre havia necessidade de fazer gravetos, para dar início ao fogo. Para isto havia um machado grande e uma pequena machadinha. A mãe cortava a lenha maior e as crianças ajudavam fazendo os gravetos.

Tínhamos café da manhã com café e leite, pão feito em casa e manteiga, também caseira, pois o leite era fornecido in natura e vinha com uma soberba cobertura de nata.

Depois vinha o preparo do almoço. O fogão com a chapa quente ficava coberto por panelas. Arroz, feijão, alguma carne, sopa com legumes que eram plantados no quintal.

Roupas de adultos e de sete filhos lavadas na mão e estendidas num varal sem fim, que depois seriam passadas com ferro aquecido com carvão.

Tínhamos o café da tarde e depois a janta.

Nessa lida de cozinha, lá pelo início dos anos 50 nossa casa recebeu a vó materna, que se chamava Irene, mas todos a tratavam pelo apelido de “Vó Moça”. Ótima cozinheira e maravilhosa companheira da sua filha, sendo uma avó muito querida de todos os sete netos.

À noite, normalmente sob luz de velas e lampiões fazíamos tarefas escolares, enquanto a mãe fazia pulôveres e meias em tricô para a turma toda.

No dia seguinte começava tudo de novo

Lembro de cestas de vime coloridas que indígenas da etnia kaingang vendiam na vila.

Depois fomos morar em Porto Alegre, porque os filhos precisavam cursar o ginásio e em Barril só havia o primário.

Foi maravilhoso abrir uma torneira e dela sair água. Ainda levou um bom tempo para o pai poder comprar um fogão a gás e uma geladeira.

Os filhos foram se encaminhando. Os três irmãos mais velhos lograram estudar em uma escola agrícola do Estado, em regime de internato, aliviando bastante a despesa em casa.

A filha mais velha foi trabalhar no comércio. As outras duas irmãs eram muito novas para trabalhar. Ajudavam nas tarefas domésticas. Quem continuava a pilotar o fogão a lenha era a vó.

A mim cabia fazer os gravetos para iniciar o fogo, além de ser o mandalete para as compras pequenas de leite, pão e carne.

A mãe lavava roupas, passava, cuidava de tudo na casa, continuava fazendo roupas de lã, pois os invernos eram rigorosos e inexistia climatização.

As meninas foram se tornando mocinhas e a mãe foi fazer curso de corte e costura numa paróquia que havia no bairro.

Em prestações a perder de vista foi comprada uma máquina de costura e a mãe passou a produzir lindos vestidos para as gurias.

Para contribuir com a despesa da família, por volta dos 15 ou 16 anos fui trabalhar como office boy numa empresa de engenharia, enquanto cursava o ginásio num renomado colégio Marista, sendo meu estudo custeado com bolsa de estudos patrocinada pelo Município de Porto Alegre.

O pai passou a fazer topografia para campos de aviação em várias cidades do Estado, tendo feito tal trabalho no aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre.

Os três irmãos mais velhos concluíram a escola agrícola, de onde cada um saiu com o título de técnico agrícola com especialização, um em laticínios, outro em zootecnia e o terceiro em topografia.

No entanto eles prosseguiram estudando e na Universidade Federal do Rio Grande do Sul; um graduou-se em agronomia e os outros dois em veterinária.

As meninas concluíram o segundo grau e não fizeram curso superior.

Mais tarde, já casada e com filhos a caçula graduou-se em economia.

Eu continuei trabalhando, fiz o CPOR, Curso de Preparação de Oficiais da Reserva e colei grau em direito, também na Universidade Federal.

Nesse percurso pai e mãe sempre estiveram presentes, orientando, corrigindo, sendo exemplos de perseverança e trabalho.

Os conselhos e as corrigendas

que nos davam foram e são preciosos desde então e para sempre.

Em 1979 um acidente automobilístico levou-nos um irmão e devastou a vida do pai e da mãe.

Em 1981 o pai, ainda sofrendo pela perda do filho, faleceu.

Desde então a mãe passou a ser o centro da família.

Com maestria, imensa dedicação, amor infinito e incondicional, ela tornou-se o porto seguro de todos. Um alicerce sólido e inamovível que sustentou a grande família que ela e o pai construíram.

Foram sete filhos, vinte e três netos, vinte e sete bisnetos e uma trineta.

Todos, todos sem exceção, procuravam pela mãe, pela vó, pela bisa, fosse para fazer um lanche, fosse para pedir conselhos, para debater sobre política ou futebol (era gremista fervorosa), lá estava, em permanente bom humor aquela figura amada e respeitada.

Adorava contar e ouvir histórias. Nossos encontros eram permeados de muita alegria. A mãe tinha senso crítico aguçado, o qual aliado à enorme experiência de vida, faziam-na um oráculo para nós todos.

Viveu intensamente e foi um farol para todos. Filhos, netos e bisnetos a procuravam constantemente para se aconselhar, trocar ideias e divertir-se com as magníficas tiradas que ela sacava do seu alforge de vivências.

Em 2024 mais um filho faleceu. Ele estava com 84 anos e sua partida voltou a maltratar muito a velha mãe.

Estava agora com 104 anos.

Estive com ela no último mês de fevereiro. Passamos juntos vários dias. Quando me despedi ela perguntou-me quando nos veríamos de novo e eu disse que em agosto, quando festejaríamos os seus 105 anos, ao que ela me retrucou: “será que eu aguento até lá?”

Percebia-se que a idade começava a pesar sobre aquela estrutura, que já fora gigantesca e agora o tempo se encarregava de fragilizar.

Assim que voltei para Porto Velho a mãe precisou de internação hospitalar, com diagnóstico de pneumonia.

Ficou hospitalizada alguns dias e ganhou alta. Voltou para o seu lar. O apartamento que ela adorava.

Pouco depois nova internação e mais medicação e o agravamento do quadro geral de saúde.

Voltava para casa e uma sobrinha neta a visitava para fazer fisioterapia. Exercícios cansativos que ela fazia com redobrado esforço, mas sempre sorrindo.

Na semana que antecedeu ao dia das Mães

resolvi estar com ela. Então a vi extremamente fragilizada e a ouvi dizer várias vezes que era uma pena eu ter ido de tão longe para vê-la e ela estar “aquela porcaria”.

Perguntava-se, também: “o que eu ainda estou fazendo aqui?”

Ela já estava usando oxigênio permanentemente, porque com as pneumonias recorrentes ela estava com líquido acumulado nos pulmões, o que causava insuficiência respiratória.

Suas pernas já fraquejavam, a memória recente estava confusa, mas lembrava fatos da sua infância com absoluta nitidez.

Voltei para Porto Velho no dia 16 de maio e carregava a sensação de que a vida da minha querida mãe estava no limite.

Assim que viajei ela foi novamente internada e mansamente, sem alarde e sem sofrimento, no dia 23 de maio, dia do aniversário do meu pai, o “meu velho”, como ela dizia com muito carinho e respeito, ela partiu ao encontro dele e dos filhos que já se encontravam no plano espiritual. Também lá encontrou seus pais, irmãos, irmã e dois netos que precocemente faleceram.

Seu velório foi a síntese de sua vida. Filhos, sobrinhos, netos, bisnetos, vizinhos, amigas e amigos prestaram a derradeira homenagem para ela.

Às lágrimas mesclavam-se os comentários que engrandeciam a profícua vida daquela Senhora, que tinha a magia das palavras, o senso do pertencimento familiar, o secular amor devotado e inesgotável, o conselho amigo nos momentos mais aflitivos que cada um vivenciou, mão afetuosa que acarinhava e transmitia calor afetivo e segurança.

Uma longa vida de árduo trabalho, sacrifícios, perdas, lágrimas, renúncias, nada que afastasse de seu rosto lindo a amorosidade e a paixão de viver para a família.

Transporto-me no tempo e lembro as incontáveis e memoráveis festas quando do seu aniversário, no dia 22 de agosto.

Era um modo que desenvolvemos para homenageá-la. A relação de pessoas presentes alcançava quase centena. Em algumas ocasiões a festa virava um pandemônio, com as famosas e inesquecíveis guerras de glacês, das quais ela participava ativamente e sua risada gostosa ecoa em meus ouvidos, incendiando o ambiente repleto de seus amores.

Na pandemia da COVID, que ela contraiu por duas vezes, ante a impossibilidade da reunião familiar, filhos, netos e bisnetos organizaram lá em Porto Alegre e aqui em Porto Velho, uma carreata com faixas, confetes e buzinas, festejando o aniversário dela.

Lá o desfile foi na avenida onde ela morava houve sua participação ativa da janela do seu apartamento.

Aqui circulamos nas proximidades da minha casa e gravamos um vídeo que lhe foi enviado.

Não me resta dúvida que ela semeou e colheu amor.

Saiu da vida terrena com dignidade e repleta de luz.

Do outro lado, no mundo espiritual, ela alcança seus queridos que a antecederam e todos, gloriosamente, se regozijam.

Fui privilegiado em ter esta Mãe até os meus 78 anos e agora preciso aprender a viver com sua ausência.

Não mais teremos os telefonemas de fim de semana, quando conversávamos sobre tudo e qualquer coisa. Dos causos que contávamos, das risadas soltas que ficavam ressoando em minha mente e me proporcionavam a certeza de que éramos completos e felizes.

Quando nos encontrávamos o carinho dela transbordava de seus olhos, o afeto que suas mãos transmitiam eram um bálsamo e eu me afogava naquele oceano de amor.

Vem-me, então, à mente, a memorável parábola de Gibran Khalil Gibran:

“O Rio e o Oceano

Diz-se que, momentos antes de um rio cair no oceano ele treme de medo.

Olha para trás, para toda a jornada, os cumes, as montanhas,o longo caminho sinuoso através das florestas, através dospovoados, e vê à sua frente um oceano tão vasto que entrarnele nada mais é do que desaparecer para sempre.

Mas não há outra maneira. O rio não pode voltar.

Ninguém pode voltar. Voltar é impossível na existência. Podemos apenas ir em frente.

O rio precisa se arriscar e entrar no oceano.

E somente quando ele entra no oceano é que o medo

desaparece.

Porque apenas então o rio compreende que não se trata de desaparecer no oceano, mas tornar-se oceano.

Por um lado é desaparecimento e por outro lado é renascimento.”

E é exatamente assim.

A Mãe percorreu um longo, difícil, por vezes tortuoso caminho. Ao início, em 1921, um pequeno córrego lá em Montenegro, sua terra natal. Foi se avolumando, pegando afluentes, passando por regiões escarpadas, depois por planícies serenas, paisagens variadas, o caudal fluindo, ora com esforços inauditos, ao depois em remansos plácidos.

Percorreu com garra e sólida perseverança milhares de quilômetros ao longo de 104 anos e chegou sua hora de não mais ser um rio.

Agora minha Mãe, Elsa Matzenbacher Machado, é oceano de amor, de ternura, de pura paixão e eterna saudade.

Carlos Henrique – Blog do CHA

Maravilhosa homenagem em texto como sempre brilhante, meu amigo. O poema de Gibran evoca em mim a lembrança dos versos de Djavan: “Você deságua em mim, e eu, oceano / E esqueço que amar é quase uma dor”.Já escrevi certa vez que “Quero viver intensamente. Quero morrer de repente”.

Acho que  aconteceu a Elsa Matzenbacher Machado algo que ela – nesse nosso tempo unidimensional e linear – construiu a cada momento de seus maravilhosos 104 anos. Por isso oceanou serenamente.

Não lhe envio condolências, meu amigo. Antes o parabenizo pela protagonista de tão comovente texto, na certeza de que, como disse Santo Agostinho, ““A morte não é nada./ Eu somente passei / para o outro lado do Caminho./ (…) / Vocês continuam vivendo / no mundo das criaturas, / eu estou vivendo / no mundo do Criador”.

Um forte abraço!

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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